Da intolerância à busca conjunta pela paz
De um lado, oficiais da PM pernambucana. Do outro, Suspeito, Acusado e companhia. O clima chegou a ficar tenso na Diocese de Caruaru, mas o espírito do entendimento logo tomou conta. Afinal, é promover a conversa, e não o embate, o objetivo da Caravana Comunidade Segura, que nos meses de julho e agosto percorre as maiores cidades do país divulgando a cultura de paz.
Na sertaneja Caruaru, a segunda maior cidade de Pernambuco, a violência chegou num tal nível na virada do milênio que a população teve que se privar de freqüentar lugares tradicionais, como o alto do morro Bom Jesus, um ponto turístico conhecido. O medo reinante fortaleceu estereótipos, colocando em mundos antagônicos representantes da cultura popular, como MCs do hip hop, e oficiais da Polícia Militar.
Suspeito e Acusado não têm esses apelidos à toa. “Somos parados pela Polícia com tanta freqüência que resolvemos adotar os nomes”, contam. Foi no tom crítico característico do hip hop que eles relataram, na oficina promovida pela Caravana Comunidade Segura, no fim de julho, como são tratados nas abordagens policiais.
Diante de acusações de violência policial e abuso de autoridade, o Major Alexandre Souza agiu com sabedoria. Calmamente, o policial, que coordena iniciativas de policiamento comunitário e ações pelo desarmamento na cidade, levantou os problemas pontuais que afetam os jovens e propôs a eles uma estratégia de ação conjunta. Essa abertura ao diálogo motivou um sargento que o acompanhava a revelar a sua origem – a mesma que a dos jovens ali presentes – e a trajetória de sua vida, mostrando que, no fim das contas, eram todos iguais nas duas pontas daquele cabo de guerra.
A partir daí, os ânimos se assentaram e as pessoas na sala – representantes de igrejas, movimentos sociais, ONGs, comércio e governo - começaram a buscar, juntas, soluções para os problemas de segurança da cidade. O resultado – considerado vitorioso por todos – foi a assinatura, durante o encontro, de um convênio fundando a associação que irá gerir ações de desenvolvimento e segurança para o morro Bom Jesus (na foto, Major Souza abraça os jovens do morro).
Esta história ilustra bem a missão integradora da Caravana Comunidade Segura, organizada por uma série de ONGs, igrejas e movimentos pela paz e o desarmamento com o objetivo de conhecer e divulgar experiências positivas de participação comunitária no planejamento e gestão da segurança pública.
Caravana de Norte a Sul, Leste e Oeste
No mês de julho, a Caravana passou por Londrina, Recife, Caruaru, Natal e Salvador, realizando encontros com representantes de governo, da polícia e da sociedade civil, além de oficinas abertas ao público. Em agosto, estão previstas oficinas em Belo Horizonte, Brasília, Belém, São Paulo, Porto Alegre e Curitiba.
De acordo com o coordenador de Religião e Paz do Viva Rio, André Porto, os encontros nestas cidades superaram as expectativas em termos de mobilização. “As reuniões ficaram marcadas pela pluralidade, e serviram para aproximar movimentos sociais, organizações religiosas, governos e polícias”, afirma Porto. Ele conta ter ficado impressionado com algumas experiências locais e com a maturidade dos discursos apresentados.
Na oficina de Natal, a antropóloga Haydee Caruso, do Viva Rio, percebeu que a polícia sentou toda de um lado, enquanto os civis sentaram de outro. Ela pediu a palavra e comandou: "Por favor, levantem-se e misturem-se. O objetivo aqui é integrar, e não separar". Cumprida a ordem, a reunião fluiu produtivamente a ponto de, ao fim dos trabalhos, os participantes não quererem dispersar (fotos).
Para Porto, a participação dos comitês pelo desarmamento destas cidades nas reuniões foi fundamental. Segundo ele, os comitês perceberam a necessidade de defender não somente a causa do desarmamento, mas também toda uma agenda em prol do desenvolvimento de planos de segurança adequados a cada realidade. Neste sentido, destaca-se a intenção da Frente Potiguar para o Desarmamento, de Natal, de mudar seu nome para outro que reflita um objetivo mais abrangente de promoção da segurança cidadã, a exemplo do que já fez a Rede Desarma Brasil, que incluiu em seu nome os dizeres “segurança, justiça e paz”.
Municipalização é tendência
Um ponto comum identificado pelos membros da Caravana foi a tendência à municipalização das forças de segurança e ao desenvolvimento de ações locais. Esta tendência é considerada positiva pelos especialistas em segurança, uma vez que cada metrópole contém distintas realidades.
Por outro lado, os projetos em andamento ainda são excessivamente personalizados, conduzidos por pessoas altamente comprometidas, mas não necessariamente abraçados por instituições como uma política pública. De acordo com Haydée, é comum, inclusive, que estes líderes que andam na contramão sofram represálias dentro de suas instituições. “Eles têm crises de identidade. Pelos defensores dos direitos humanos, eles são vistos apenas como PMs, e pelos PMs, eles são vistos como defensores de bandidos, já que promovem os direitos humanos”, resume.
Na Bahia, chamou a atenção de Haydée o fato de a corporação ter reduzido a sua hierarquia, eliminando cargos intermediários como cabo e sargento. Para ela, esse é um passo positivo para o estabelecimento de um plano de cargos e salários mais justo para a corporação.

Em cada cidade, os membros da Caravana distribuem dois documentos: as propostas resultantes do seminário "A Polícia que Queremos", realizado em julho no Rio de Janeiro pela PM fluminense, e uma cartilha sobre boas práticas em segurança pública.
Ao fim de cada evento, num ato simbólico, os participantes se dão as mãos e fazem um minuto de silêncio (na foto, encerramento da oficina de Natal).
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Baixe em PDF:
Propostas do seminário "A Polícia que Queremos", realizado em julho no Rio de Janeiro pela PM fluminense
Cartilha sobre segurança pública e desenvolvimento institucional da polícia, produzida pela Caravana Comunidade Segura








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