Violência, problema de saúde
Com um carimbo em seu cartão, a criança atesta: está vacinada contra a violência.
A campanha de vacinação é uma das táticas criativas do Fórum Comunitário de Combate à Violência (FCCV) de Salvador para incutir desde cedo a cultura da paz nas pessoas. Como nas campanhas tradicionais de vacinação, os ativistas visitam as escolas e conversam com os alunos, mas neste caso sobre temas como violência familiar, intolerância racial ou religiosa e outros conflitos. No fim das atividades, carimbam seus cartões, amarram em seus pulsos uma fitinha semelhante à do Senhor do Bonfim onde se lê “Diga não à violência” e as convidam para se tornarem, elas próprias, vacinadoras.
Um dos objetivos da vacinação é expor a violência como um problema de saúde, ao invés de uma questão de polícia, como costuma ser vista. De acordo com a professora de Comunicação da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) Tânia Cordeiro (foto), do grupo gestor do Fórum, a violência é um problema de saúde coletiva. “Além de ser a maior causa de morte de jovens no Brasil, ela provoca seqüelas físicas e emocionais nas vítimas sobreviventes, problemas psicológicos em seus familiares e aumenta significativamente a demanda das emergências hospitalares, que se não precisassem atender tantos casos graves de violência, talvez nem estivessem em crise”, afirma.
Tânia acrescenta que, ao se tratar a violência como problema de saúde coletiva, escapa-se dos estereótipos típicos da sua abordagem enquanto assunto de polícia, caracterizada pela pessoalidade. “Queremos mudar a forma com que os profissionais de saúde tentam resolver a situação, investindo na criação novos artefatos como projetos em educação, lazer, policiamento e justiça”, explica.
As vacinações geralmente ocorrem em escolas de comunidades que testemunharam situações de violência. Segundo Tânia, os ativistas encontram maior resistência à vacinação em escolas com alunos de maior renda. “Já os outros, como protagonistas, mostram o drama que é conviver com a violência no dia-a-dia. Eles estão mais disponíveis para a discussão”, diz.
Burocracia e falta de informação favorecem impunidade
Tânia explica que, nas comunidades, os ativistas buscam, nas conversas, levantar as características das mortes violentas e as condições que levaram a elas. Eles então acompanham as famílias procurando provê-las das informações necessárias para que possam pleitear seus direitos.
Segundo a professora, é notória a carência de conhecimento das pessoas em relação às instituições públicas. “Elas não sabem a diferença entre Polícia Militar e Civil, entre juiz e desembargador. Não têm desenvoltura perante os balcões. O que é exigido é desproporcionalmente maior ao que elas têm em mãos. Como não sabem a quem recorrer, acabam desistindo. Em cada instituição que entram, contam a história inteira, cansando os atendentes e favorecendo a ineficiência e conseqüentemente a impunidade”, conta.
Para combater o problema, o Fórum cria cartilhas e outros materiais pedagógicos para que as pessoas criem familiaridade com os processos e assim possam cobrar mais eficiência das instituições.
Respostas pontuais não são políticas públicas
Um dos trabalhos mais importantes do FCCV é o mapeamento dos dados do Instituto Médico Legal, informando quantas mortes ocorreram, onde e como, para ajudar a tecer políticas públicas. A pesquisa concluiu que, em Salvador, 50% das mortes violentas são homicídios, 25% acidentes de trânsito e 25% “causas externas”, uma designação genérica da Organização Mundial de Saúde.
As conclusões dos estudos do Fórum levaram à redação dos documentos “A Segurança que Queremos”, que aponta problemas da polícia, e “A Cidade que Queremos”, feito com a participação de 600 entidades comunitárias, a maioria da periferia.
Segundo Tânia, os esforços vêm tendo repercussão nos órgãos públicos, mas isso está coincidindo justamente com um momento em que as instituições começam a dar respostas pontuais. “Não nos interessa que maneiras pontuais se tornem sistêmicas. Os programas têm limitações e não se tornam políticas públicas. São ações vulneráveis, e não direitos adquiridos pela sociedade”, defende a ativista.
O FCCV nasceu na Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1996 e hoje reúne mais de 100 parceiros, entre ONGs, órgãos governamentais, associações de moradores e entidades privadas. “Hoje somos referência, vários candidatos usam os nossos documentos”, afirma Tânia. A participação do Fórum foi fundamental nos eventos realizados durante a passagem da Caravana Comunidade Segura em Salvador, em 24 e 25 de julho. A organização irá conduzir os desdobramentos das propostas levadas pela Caravana, assim como as ações pelo cumprimento do Estatuto do Desarmamento.
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