Pesquisadores avaliam resultado do referendo sobre proibição de venda de armas para civis no Brasil
Oito meses após a derrota do "sim" no referendo, o Iser está lançando "Referendo, do sim ao não: uma experiência da democracia brasileira", uma coletânea de textos que se propõem a analisar as razões que levaram a população a dizer um sonoro "não" àqueles que defendem um maior controle de armas como parte de uma política para combater o crime e a violência armada.
O trabalho traz uma avaliação de todo o processo eleitoral que envolveu o referendo das armas, desde o marketing político até a intolerância pública com a corrupção e falta de segurança, passando pelas campanhas de TV, rádio e internet e o apoio da igreja.
Maria Aparecida Mota, Bernardo Sorj, Maurício Lissovsky, Sérgio Muylaert, Christina Vital da Cunha, Gláucio Soares e Flávio Conrado dão a sua visão do que representou o referendo para a democracia brasileira e analisam como uma sociedade que participou ativamente da campanha de desarmamento disse "não" à proibição do comércio de armas e optou pelo direito de ter armas em casa.
No dia 23 de outubro de 2005, pouco menos de 100 milhões de brasileiros e brasileiras foram às urnas para decidir se o comércio de armas para civis seria proibido ou não no país no primeiro referendo da história da República. A julgar pela participação da população na Campanha de Entrega Voluntária de Armas que, durante um ano e meio, recolheu quase 500 mil armas de fogo, o "sim" à proibição estava com a vitória garantida. Não foi o que se viu no fim do dia quando saiu o resultado das urnas.
O "não" à proibição teve 64% dos votos enquanto o "sim" levou 36%. O resultado da votação mostrou que a maioria da população não é a favor da proibição da venda de armas de fogo aos civis. Mas mostrou também, que cerca de 33 milhões de pessoas acham que o cidadão comum não deve comprar armas em lojas. E elas devem ter motivos para isso.
Maurício Lissovsky, doutor em comunicação, analisou as estratégias de marketing político adotadas pelas duas frentes no artigo A campanha na tevê e a desventura do Sim que era Não. Para ele, um dos fatores que prejudicaram a campanha do ‘sim’ foi tratar a decisão de se votar pela proibição da venda de armas como se fosse uma continuação da campanha de desarmamento. “A campanha do ‘sim’ não foi capaz de perceber a disjunção entre o referendo e as campanhas anteriores em favor do desarmamento”. “Seu principal erro estratégico foi ignorar que o apoio popular ao desarmamento não poderia ser automaticamente transformado em voto ‘sim’”, completa.
A antropóloga Christina Vital da Cunha coordenou 39 grupos focais em quatro capitais do Brasil para elaborar o artigo Referendo das armas: propaganda televisiva e percepções da população em que analisa o impacto das campanhas de televisão na opinião da população. Christina concorda com Lissovsky. Para ela, desarmamento e ‘sim’ não eram a mesma coisa. “Para a população, proibir a venda no mercado legal não era a solução do problema. Impedir o comércio ilegal sim. O ‘não’ soube capitanear esta confusão em seu favor”, avalia.
Já o sociólogo Bernardo Sorj, autor do artigo Internet, espaço público e marketing político: entre a promoção da comunicação e o solipsismo-moralista, examina o papel da internet utilizada como mídia pelas duas frentes envolvidas no referendo. Sorj compara a liberdade de expressão da internet à economia de mercado em que quanto “maior a liberdade, melhores serão os resultados” e argumenta que “o espaço público exige um esforço de educação, de construção de espaços coletivos e um mínimo de regulação para funcionar de forma responsável”.
Para o sociólogo, a frente que defendia a proibição da venda de armas a civis não soube aproveitar as possibilidades da internet sendo massacrada pela eficiência com que a frente do ‘não’ utilizou a internet em termos de mídia. “As ONGs no Brasil não estão preparadas para campanhas políticas em que o adversário utiliza todas as armas possíveis para desqualificar o opositor”, conclui.
Como escreve Samyra Crespo, organizadora do trabalho, na apresentação: "As cores e as emoções dessa campanha que mobilizou expressivos atores da sociedade civil brasileira, parlamentares, governo e mídia, bem como as questões dramáticas que marcaram o referendo estão descritas na série de artigos que ora publicamos e que têm por finalidade nos permitir uma avaliação".
Mas, poderia ter sido diferente? Para Lissovsky, essa é uma pergunta difícil de ser respondida, pois uma mesma mensagem pode ser entendida de formas diferentes dependendo do contexto. "Nesse caso, o contexto não era favorável e as razões do ‘sim’ contrariavam o senso comum," explica.








Comentários
A verdade é que para nada
A verdade é que para nada adiantou a vitória do não; o governo endureceu a venda de armas a civis e é quase impossivel adquirir legalmente uma arma; coisa de uma republiqueta tupiniquim
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