‘O Haiti nos ajudou a crescer’

combatedepaz_peq.jpgDepois de passar seis meses no Haiti, entre 2005 e 2006, o capitão do Exército brasileiro Luciano Moreira voltou tão cheio de vivências que precisou escrever um livro para dividi-las com a sociedade. “Combate de Paz”, da Editora Baraúna, conta o trabalho de sua tropa no processo de pacificação das favelas haitianas.

“Ajudamos ao próximo e aprendemos o quanto isso é importante, o quanto isso transforma o mundo. Todos que retornam do Haiti aprendem muito sobre a vida e sobre sua escala de valores. Nós ajudamos muito o Haiti, mas com certeza o Haiti nos ajudou muito mais a crescer”, diz Moreira, que ministra palestras corporativas sobre gestão do estresse em combate de liderança em situações extremas.

Nesta entrevista ao Comunidade Segura, o capitão fala da sua experiência no país caribenho e traça paralelos com o Rio de Janeiro. Para ele, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) são inspiradas nos chamados Pontos Fortes, estratégia em que o Exército ataca, ocupa mas não vai embora.

“É necessário ocupar o vazio de liderança existente nas favelas, onde o Estado não consegue prover o mínimo para a vida das pessoas. A questão da segurança é apenas uma condição básica para o início do processo de desenvolvimento de uma comunidade”, explica.

Ao chegar no Haiti, o que mais lhe impressionou?

A condição miserável da grande maioria da população. A falta de acesso a condições básicas de infraestrutura, como água e luz, é algo que já conhecemos no Brasil, mas de maneira generalizada como no Haiti, impressiona. A falta de comida e o difícil acesso à água tornam o lugar ainda mais inóspito.

O livro conta diversas situações que misturam emoções, como estresse, compaixão, solidão, incompreensão, medo e raiva. Os soldados são preparados para lidar com isso? 

A liderança é algo inerente à formação dos oficiais do Exército brasileiro. Na Academia Militar das Agulhas Negras, o líder aprende que, para comandar em momentos de crise, é preciso antes de tudo muita calma para não se tornar mais uma vítima do estresse.

Nas situações extremas vivenciadas no Haiti, algo muito importante e que vale ressaltar é que as ações desencadeadas em meio ao caos nada mais foram que o reflexo do que foi treinado durante os meses de preparação no Brasil. Numa missão de paz, administrar a força é uma questão muito delicada, visto que a finalidade da ocupação militar é acabar com a violência, e não gerá-la.

Como controlar uma tropa armada de forma que haja o mínimo de disparos possível?

A orientação firme e segura, emitindo ordens claras e de acordo com as regras de engajamento, bem como estabelecer as diretrizes a respeito das condutas a serem tomadas pela tropa, são pontos-chave para a execução de um trabalho condizente com a pacificação do Haiti. Potencializando estes procedimentos, os comandantes controlam o uso das armas e da força através de sua presença junto à tropa o máximo tempo possível durante todas as operações.

LucianoMoreira_peq.jpgE essa presença é suficiente para evitar desvios de conduta?

O ser humano erra. Se existem mecanismos de controle da conduta e da disciplina das pessoas, é porque elas em algum momento podem cometer erros. É da natureza humana. O soldado não é um super-herói. Ele é feito de carne e osso, e está sujeito a todas as intempéries do trabalho nas favelas que, diga-se de passagem, é extremamente difícil e arriscado. Assim, problemas disciplinares rotineiros acontecem e são resolvidos nas esferas dos comandantes intermediários.

E como são tratados os desvios de conduta?

Quando as grandes autoridades determinam uma intervenção militar, devem estar cientes que, ao colocar uma força armada dentro das favelas recheadas de bandidos armados, seus soldados não irão responder com pedras as agressões vindas de armas de fogo. É óbvio que a resposta será também com violência.

Mas existe a população no meio desta guerra, e os efeitos colaterais serão sentidos por todos. Um soldado pode errar um tiro e ferir um inocente. Mesmo tendo as melhores intenções possíveis, será julgado e provavelmente condenado militarmente. Isto não é desejável, mas a falha é algo esperado, ainda mais numa missão longa como é a do Haiti.

O que não é aceitável para as Forças Armadas é o desvio de conduta moral do militar. Elas são, por natureza, guardiãs de valores morais da sociedade, e isto se explica pois no cerne de sua finalidade (na guerra) existem duras rotinas e atividades que podem exigir até mesmo o sacrifício de vidas. Desta forma, existe um consenso geral de que desvios de conduta como corrupção, violação de direitos humanos, exploração sexual e abusos de autoridade não são aceitáveis.

Houve casos de desvios de conduta nas tropas brasileiras?

Passei seis meses no Haiti comandando um pelotão de fuzileiros e observei diversas transgressões disciplinares leves da tropa. Eles foram orientados e alguns foram punidos disciplinarmente. Tudo dentro da normalidade da vida e da atividade militar. Em nenhum momento tomei conhecimento de desvios de conduta mais sérios por parte de nossos soldados. Caso ocorresse, era de conhecimento de todos que a punição seria o repatriamento, algo extremamente indesejável e vergonhoso para quem se preparou por seis meses durante um rígido treinamento, é voluntário e tem orgulho de participar da Minustah.

Muita gente questiona a presença militar estrangeira no Haiti, considerando-a  uma intervenção autoritária. Como o senhor responde a esse posicionamento?

Presença militar sempre será relacionada a autoritarismo, até porque quem detém a força e a palavra possui muito mais poder de barganha do que quem só detém a palavra. É assim com os EUA e com outras potências militares e isto pode ter sido relacionado com a tropa brasileira também. É algo natural. Apesar disso, os resultados que o Brasil conseguiu no Haiti foram fantásticos e respeitados em todo o mundo.

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Qual é o segredo do sucesso da missão de paz brasileira no Haiti?

Durante o processo de pacificação, comandantes de diversos países visitaram as bases brasileiras para tentar descobrir qual era o segredo de nosso sucesso. Logo, a forma de atuar tornou-se referência internacional em combate urbano.

Acredito que uma das principais razões para isso é a eficiente interação que o povo brasileiro é capaz de fazer com o povo haitiano. Mesmo nas operações militares, as opiniões dos haitianos eram ouvidas e levadas em consideração.

Não houve autoritarismo?

Autoritarismo implicaria a tomada de decisões sem a consulta e participação das autoridades haitianas, o que definitivamente não ocorre no Haiti. Tanto no campo político quanto no campo das operações militares nas favelas, os haitianos não só são ouvidos como tomam grande parte das decisões.

A ONU auxilia o governo onde ele ainda não possui condições de manter-se. Como exemplo, remeto a quando o Palácio Nacional do Governo era um ponto vulnerável na região central de Porto Príncipe. Havia tropa estrangeira ocupando o palácio para assegurar condições de trabalho aos políticos. Assim que o presidente sentiu-se seguro, solicitou e, de imediato, foram retirados os militares.

No livro, o senhor critica o posicionamento de jornalistas preocupados com violações de direitos humanos de civis haitianos por forças militares estrangeiras. Qual seria o papel da mídia?

Desde o fim do regime militar, existe uma preocupação constante por parte das Forças Armadas em estreitar os laços de relacionamento com a imprensa. A censura, a repressão e outras políticas do passado hoje não encontram espaço nem mesmo no meio militar. Existem nos Batalhões de Força de Paz seções criadas para receber os profissionais da imprensa da melhor maneira possível, independente do conteúdo de suas reportagens.

Assim sendo, eu não poderia criticar a imprensa defensora dos direitos humanos pois acredito firmemente na liberdade de pensamento e no desenvolvimento da humanidade através da solidariedade e da ajuda ao próximo. Fui ao Haiti para defender os direitos humanos, e sou a favor de todos que pensam assim.

Não tenho dúvidas que o papel da imprensa nos dias de hoje é de importância incalculável para a sociedade. Além da função de informar, a mídia tem o dever de divulgar, esclarecer, fiscalizar, investigar. Ela tem grande influência na formação da opinião pública, e por isso, é detentora de um dever social para com a verdade, na construção de um mundo melhor.

Mas no livro o senhor faz uma crítica contundente a alguns profissionais. Por quê?

No Haiti, durante o processo de pacificação das favelas, verificamos alguns profissionais mal intencionados, que vinham de longe esperando encontrar histórias de violação dos direitos humanos por parte da tropa brasileira. Talvez com interesses políticos, ou interesses meramente comerciais. Como não encontravam, tratavam de criar notícias ou distorcer informações para vendê-las às agências internacionais.

Minha crítica não é direcionada à imprensa profissional e séria como foi o caso da mídia brasileira. Esta, eu tive prazer em ajudar e orgulho ao acompanhar os resultados das matérias. Critico sim, e diretamente, algumas pessoas e grupos comprometidos com interesses financeiros e individuais, bem diferentes da fidelidade com a informação, verdade e expressão individual que desejamos e precisamos na imprensa.

Combate_de_Paz_LMoreira.jpgO senhor compara a situação do Haiti à da segurança pública brasileira, especificamente nas favelas do Rio, referindo-se a uma situação de guerra. É possível comparar as UPPs à ocupação militar no Haiti?

As UPPs já são o reflexo das doutrinas de combate instituídas no Haiti pelas tropas brasileiras, os chamados Pontos Fortes. Neles, a tropa não combate e vai embora; ela ataca, ocupa e não sai mais da favela. Não basta apenas atacar o crime organizado, é necessário ocupar o vazio de liderança existente nas favelas, onde o Estado não consegue prover o mínimo para a vida das pessoas.

Se não há Estado nem autoridade, os criminosos serão os detentores da força por meio das armas e da violência. Eles determinarão as leis do local. Logo, é preciso que algo mais forte que os bandidos esteja presente para reprimir esta violência e fazer o governo presente e dono daquele solo. Em pouco tempo, qualquer favela, por mais violenta que seja, é pacificada.

Mas a questão da segurança é apenas uma condição básica para o início do processo de desenvolvimento de uma comunidade. O ideal é que não seja necessário tropa armada na favela, que se desenvolvam projetos para que o povo possa caminhar sozinho, com progresso e longe da violência. 

No Haiti, as Forças Armadas têm importante papel na reconstrução do país. Poderia contar um pouco desse trabalho humanitário?

Em todas as operações militares, o Brasil opta por estabelecer ações cívico-sociais. Seria a “responsabilidade social da guerra”, onde procura-se otimizar os resultados das ações militares através do estreitamento do relacionamento entre a tropa e a população. Onde existe tropa brasileira, existe atendimento médico, ajuda na educação, reconstrução, limpeza das ruas etc.

Para se ter uma ideia, quando o Brasil ocupou a favela de Bel Air, as ruas eram intransitáveis devido às montanhas de lixo que bloqueavam tudo. Foram levados tratores da engenharia de combate e centenas de militares que limparam tudo. Dois objetivos foram conquistados: para a tropa, abriram-se as vias de acesso para os blindados, enquanto para a população, as ruas foram abertas à circulação de pessoas e veículos.

No bairro de Cite Militaire não havia energia elétrica. A tropa proveu postes de iluminação por todo o bairro. Para a tropa, iluminou-se o teatro de operações, enquanto a população teve acesso à luz em suas residências. É fundamental, até mesmo para a aceitação da intervenção estrangeira, o desenvolvimento de projetos de desenvolvimento no Haiti. Como há uma grande carência de recursos de toda natureza, a ajuda das Forças Armadas é fundamental para os haitianos.

A experiência como tropa de paz no Haiti pode inspirar novas atribuições não-bélicas ao Exército brasileiro em seu próprio país?

A destinação das Forças Armadas é a preparação para o combate, para a defesa dos interesses do país. Isto jamais deve ser colocado em segundo plano. As atribuições não-bélicas, porém, não podem ser desprezadas. No Brasil, as tropas realizam um trabalho constante e muitas vezes silente por todo o território nacional.

Existem tropas que ficam internadas pelo interior provendo assistência médica e odontológica em locais inóspitos; tropas constroem milhares de quilômetros de estradas e pistas de pouso em locais de difícil acesso; tropas são deslocadas para locais atingidos por catástrofes naturais; até mesmo os familiares dos militares tornam-se professores e ajudam na educação em locais afastados. 

O senhor foi embora com a sensação de dever cumprido? O que essa experiência lhe acrescentou?

Acredito que sim, cumprimos nosso dever. Eu e meus soldados trabalhamos muito, como jamais trabalhamos em nossas vidas. Enfrentamos violentos combates e duras jornadas em apoios humanitários. Apesar do cansaço dos seis meses sem finais de semana ou feriados, retornamos com a certeza de que fizemos a diferença.

Nós permitimos que milhões de pessoas restabelecessem a confiança nos ideais democráticos de seu país, quando asseguramos o sucesso do processo eleitoral do Haiti. Ajudamos ao próximo e aprendemos o quanto isso é importante, o quanto isso transforma o mundo. Todos que retornam do Haiti aprendem muito sobre a vida e sobre sua escala de valores. Acredito que nós ajudamos muito o Haiti, mas com certeza o Haiti nos ajudou muito mais a crescer.

O que o motivou a escrever um livro?

Quando retornei, me senti uma pessoa com uma vivência diferente do normal, e ao mesmo tempo, senti um orgulho muito grande do que eu e meus subordinados havíamos feito no Haiti. Assim, decidi registrar essas histórias para que pudéssemos repassar para a sociedade como foi difícil e gratificante o trabalho dos brasileiros no processo de pacificação das favelas. A paz no Haiti não é apenas uma vitória das Forças Armadas. É uma vitória do povo brasileiro, pois é devido às suas características de tolerância e adaptabilidade que a missão tornou-se o sucesso que é hoje.

Comentários

O orgulho de quem faz e a responsabilidade de quem manda fazer

Ao lermos as histórias do livro e a entrevista com o autor também sentimos orgulho do trabalho patriótico e humanitário de nosso exército. Após o terremoto, ainda mais, com perdas humanas irreparáveis de combatente brasileiros e personalidades como Zilda Arns.

Ficam alguns breves comentários e questionamentos, no entanto. Nosso auxílio pacificador-humanitário no Haití visou, dentre outras razões, promover ações políticas e econômicas, relacionadas a inserção do Brasil na Organização das Nações Unidas, a busca de um marketing internacional etc... Até quando manteremos o trabalho no Haití? O quanto estamos nos empenhando em mobilizar "politicamente" outras nações a manter o auxílio e a presença da ONU no Haití? O que o Brasil tem feito com relação a outros países em situação similar ao Haití? O que será depois que as forças militares saírem daquele país? Certamente a resposta a estas e outras questões extrapolam as esferas militares. Espero que possam ser abordadas em futuras matérias.

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