Haiti, um desafio à humanidade

Pedro Évora *

Nesta semana, em Nova Iorque, estará acontecendo uma importante reunião na ONU que iniciará a traçar o futuro do Haiti. Trata-se do “encontro dos doadores”. Um foro dos principais países envolvidos na reconstrução do país destruído pelo terremoto de 12 de janeiro, onde o Brasil, junto aos Estados Unidos e a União Européia, preside a seção.

O que está em jogo não é apenas a gestão dos bilhões de dólares direcionados ao país, nem apenas as diretrizes para reconstrução de Porto Príncipe, mas também as estratégias e conceitos e nortearão as ações para a totalidade do território haitiano.

Desembarquei em porto príncipe em 30 de janeiro, logo após os terremoto, para trabalhar em projetos emergenciais para a Minustah (nome dado às forças da ONU em Porto Príncipe). A constatação da fragilidade de tudo que nos cerca, inclusive o próprio chão, é transformadora. O Haiti teve todas as suas estruturas destruídas; suas infraestrtuturas, suas principais construções, suas instituições e muitos de seus símbolos.

O cenário atual é composto por condicionantes radicais. Nas infra estruturas, há ausência de redes de energia, de água, esgoto, transportes e alimentos. Há ausência de portos, mercado, setor produtivo e de serviços. Ausência de rede escolar, de saúde pública mas sobretudo de instituições capazes de levar a cabo um projeto de reestruturação.  Um país com recursos naturais escassos, ameaças de furacões, fortes chuvas e terremotos.

A comunidade internacional e as Nações Unidas estão postas em cheque pois precisam despir suas questões ideológicas para enfrentar este desafio. Trata-se de um desafio à humanidade, que tem aí a oportunidade de mostrar seu potencial de mobilização, transformação e solidariedade.

A palavra que talvez melhor defina este desafio é Re-Invenção. Reinvenção dos padrões de urbanização e organização que experimentamos até agora no mundo.

Estima-se um déficit habitacional de centenas de milhares de casas. O problema de acomodação da população deve passar pelo desenvolvimento de novas soluções construtivas que possuam essencialmente três fatores: sejam tecnologicamente avançadas, para responder às condicionantes naturais, sejam acessíveis e reprodutíveis industrialmente, para que possam dar conta da escala da urgência do problema e que sejam culturalmente apropriáveis, para que possam ser implantadas pelo próprio povo haitiano.

Muito já está sendo discutido para solução destes problemas, mas o debate sobre os espaços da cidade e sobre o planejamento em escala regional serão os únicos capazes de articular os diferentes campos e transformá-los em projeto.

A partir da constatação da fragilidade das infraestruturas remanescentes nas áreas mais centrais, se discute o conceito de descentralização e manutenção de populações no campo. É a hipótese do desadensamento da cidade como forma de promover uma outra relação dos haitianos com a ocupação do solo, que implica em gastos elevados na implantação de redes de conexão destes novos assentamentos às áreas produtivas.

Balancear densidades ocupacionais no centro e fora dele para que se possa ao mesmo tempo preservar aspectos simbólicos fundamentais à sociedade, mesmo que estes estejam ocultos sob os entulhos e ao mesmo tempo promover outras relações com a terra.

O centro da cidade foi sem dúvida a área mais afetada da cidade. Os bairros centrais de Porto Príncipe encontram-se em escombros e soterrados por entulho. Sua reconstrução implica inicialmente em uma estratégia de limpeza, identificação de terrenos vazios e eleição dos projetos que melhor se adequarão à cada parte.

Haiti pode se transformar em um expressivo caso de reciclagem generalizada. Não apenas das idéias de cidade e urbanização mas também de todo lixo e destroços acumulados pelas ruas.

O entulho passa portanto a poder ser visto como matéria prima para a reconstrução do país. Podendo ser transformado em material para aterros, contenção de encostas, alvenaria e até concreto. Os plásticos, como garrafas pet e embalagens podem ser transformados em painéis de fechamento e telhas de cobertura das casas.

A matriz energética para a cozinha haitiana é o carvão, portanto, todo o esgoto pode ser acondicionado e transformado em gás de cozinha através de tanques biodigestores e as águas das chuvas devem ser coletadas e utilizadas em escala comunal para agricultura familiar e regional para abastecimento.

O Haiti não possui um código de obras que norteie suas construções. Este terá que ser escrito.

Terremotos acontecerão novamente e furacões, muito em breve. As Nações Unidas tratam o assunto sob o lema ‘Building Back Better” (construir novamente melhor) portanto é importante atentarmos para o que consideramos melhor.

Os programas de reconstrução do Haiti deverão estar cruzados com programas sociais equivalentes, capazes de incorporar a informalidade e a força da população como ativo, para que este novos códigos se entrelacem à sociedade e façam sentido à população.

Desde os itens para construção civil, à inteligência logística, governança e projetos, o Brasil tem condições hoje de fornecer toda a tecnologia necessária para ajudar na reconstrução do Haiti.

Como nos ensina o provérbio, problemas simples devem ser encarados com a máxima atenção enquanto questões complexas devem ser resolvidas pela simplicidade.

A implicação desta simplicidade está na consciência de que não existirá uma solução única para tudo mas sim um sistema de respostas que possa dar conta de cada setor dos problemas ao longo do tempo.

* Arquiteto, professor de projeto na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, conselheiro do Instituto dos Arquitetos do Brasil e sócio em Rua Arquitetos (www.rualab.com).

Comentários

Proposição

Oi querido professor, eu li cuidadosamento as suas letras, gostei muito.
Pense também na minha proposta
O Haiti nesse momento é um país que vive de muitas doações de toda a humanidade. É um grande gesto de solidariedade. Aonde vão esses dinheiros? O que estão fazendo com esses dinheiros? O que pretendem fazer? Agora com $5, 3 bilhões, é muita coisa, né
No meu ver ou entender, a única solução do Haiti: é uma questão de conscienciatização(sensibilização) tanto nacional como internacional; senão o Haiti resterá o mesmo. E o segundo elemento é a responsabilidade de cada haitiano; sobretudo, o Estado em questão.
Com todas essas doações ninguém dos responsáveis nacionais diz: que Haiti que nós queremos. Só todo mundo fla de "reconstrução do Haiti. Reconstrução, sim. mas como fazê-la?
Na minha opinião, deveria ser assim:
Primeira proposta: mudar a capital do país. A capital poderia ser no Norte do país( Cap-Haitien), ou no Sul do país(Les Cayes)como sede política do país.
Segundo, caso não mudem a capital, um problema de industrialização em todas as cidades ou províncias do país. Assim, não haverá tantos movimentos de tantas pessoas buscando uma vida melhor na capital. Porto Príncipe é praticamente o único lugar que oferece a vinda e inda de pessoas à procura de uma boa vida de sobrevivência.
Todo mundo fala que o Haiti precisa pelo menos 20, 25, 30 anos para a reconstrução da capital. Até também 60 anos, dizem. Por isso, no meu entender, seria melhor ainda reconstruir uma nova capital; ou seja a elaboração de um programa para o desenvolvimento dos outros departamentos.
Assim, poderíamos dizer: eis aqui, o Haiti que nós queremos. Senão, não estaremos fazendo nada, nada, nada
Para ser mais claro, penso eu, o governo haitiano deveria aprovar um programa para o país que se oferece para reconstruir o país ( Estados Unidos). Et também, eles iam dizer, aqui está o meu programa para vocês. Desses dois programas, os dois países em questãoiam se comprometer para enfim, elaborar o programa definitivo para a reconstrução do país.

Autor do comentário: Pierre Dieucel

Podem entrar no meu blog e deixar comentários em alguns escritos: O Haiti superstar, Haiti malgré tout(Haiti a pesar de tudo), Haiti c´est l´heure!acorda( Haiti é hora! acorda)e outros. Podem deixar os comentários em: francês, espanhol, português, crioulo ou inglês.
Eis aqui: http://dieucel.blogspot.com/2010/03/haiti-cest-lheure.html?zx=b2976e64d2...

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