Pablo Dreyfus, segundo Antônio Rangel Bandeira

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Perda irreparável: o desaparecimento de Pablo Dreyfus, que concebeu e editou esse boletim com competência e dedicação, em meio à sua numerosa produção. Pablo, e sua esposa Ana Carolina Rodrigues, estavam no avião da Air France, desaparecido no mar no dia 1º de junho desse ano. Argentino, ele era um dos maiores especialistas sobre controle de armas de fogo a nível internacional. Viajava para a Suíça, para a reunião anual da publicação sobre armas, o anuário Small Arms Survey, do qual era um dos editores.

Uma característica rara encontrada no trabalho desenvolvido por Pablo era sua habilidade em combinar, com perfeição, sofisticada competência e ação empírica, de forma a transformar suas idéias e análises em políticas públicas efetivas. Normalmente, nós podemos ser bons em um ou noutro campo, mas é extraordinariamente difícil ser excelente em ambas as áreas. Pablo se sentia igualmente confortável investigando o envolvimento com o tráfico de drogas dos narco-terroristas das FARC nas selvas da Colômbia, ou o contrabando de armas através dos rios na fronteira Brasil-Paraguai, assim como dando aulas nas mais prestigiosas universidades ou discursando na conferência da ONU.

A sua tese de doutorado, no Graduate Institute of International Studies, de Geneva, foi sobre tráfico de drogas: “Border Spillover: Drug Trafficking and National Security in South America¨. Os desafios, e os riscos que correu, na realização desta pesquisa de campo, levaram-no a despertar para a importância de um dos mais relevantes fatores da violência na América Latina: a proliferação das armas de fogo. Ele foi um dos pioneiros nesta nova área de pesquisa, que eclodiu em decorrência do novo fenômeno da crescente violência urbana.

Seus estudos levaram-no a concluir que o Brasil era o país em que mais pessoas morrem por arma de fogo no mundo, em números absolutos. Angustiado com o que considerava “um genocídio”, resolveu trabalhar no Viva Rio, recusando ofertas de governos de vários países. Sua vinda para o Brasil, sete anos atrás, permitiu um salto de qualidade nos estudos sobre controle de armas em nosso país. Sua colaboração foi decisiva na elaboração do Estatuto do Desarmamento, e nos argumentos que convenceram os brasileiros a entregar voluntariamente meio milhão de armas na Campanha de Desarmamento de 2004-2005. Coordenou a primeira pesquisa sobre armas de nível nacional, publicada no livro “Brasil: as Armas e as Vítimas”, revelando que circulam entre nós cerca de 17 milhões de armas, metade delas na ilegalidade.

Durante a CPI sobre o Tráfico Ilegal de Armas, do Congresso brasileiro, elaborou estudo sobre 36 mil armas apreendidas na ilegalidade, demonstrando que muitas delas tinham sido desviadas de lojas, de empresas de segurança privada e das próprias polícias. Sua análise está levando à reformulação dos mecanismos de controle interno da polícia, de quem se tornou um grande colaborador, principalmente da Secretaria de Segurança Pública do Rio e da Polícia Federal.

Professor do curso de pós-graduação em Segurança Pública para policiais, realizado pela Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (FLACSO) e Viva Rio, iria iniciar nesse segundo semestre o treinamento dos departamentos policiais estaduais de controle de armas, ensinando o uso do Manual de Rastreamento de Armas Pequenas (SENASP. 2009), que ele próprio elaborou. Seu último trabalho foi a construção, a pedido da Comissão de Segurança Pública da Câmara de Deputados e do Ministério da Justiça, de um Ranking Nacional de Controle de Armas.

Este estudo, que acaba de ser divulgado pela Subcomissão de Armas e Munições da Câmara Federal, avalia como os governos estaduais estão implementando o controle de armas e munições, quais as maiores deficiências e avanços, norteando o governo federal nos investimentos a fazer para melhor combater o tráfico ilícito de armamento.

Dreyfus colaborou com governos de diversos países na análise da proliferação de armas, apontando soluções criativas para aumentar o seu controle e diminuir as suas vítimas. Ajudou o governo de Moçambique, e a província de Buenos Aires, a mapearem as fontes de desvio e contrabando de armas, e seus estudos levaram o governo do Paraguai a reformular toda a legislação sobre o tema, provocando uma drástica redução no contrabando de armas desse país para o Brasil.

Pablo expandiu sua generosa colaboração participando de negociações internacionais para o controle de armamento, e como consultor dos governos da Bolívia, El Salvador, Haiti, Uruguai e Colômbia.  Recentemente, estivemos juntos em Angola, avaliando uma campanha de entrega de armas que já recolheu 250 mil armas, e nos preparávamos para desenvolver pesquisas sobre o armamento que, após a guerra civil, se encontra espalhado por todo o país. Ultimamente, Pablo se preocupava com o retorno da “bancada da bala”, do Congresso Nacional, que tem apresentado projetos de lei mutilando o Estatuto do Desarmamento. Antes de embarcar no vôo fatal, ainda me ligou do aeroporto, para saber de nossa próxima viagem à Brasília, exatamente para discutir com o governo e com os deputados uma forma de defender a nova lei.

Apaixonado pelo Rio, Pablo havia se casado havia apenas dois anos com a socióloga carioca Ana Carolina Rodrigues, também do Viva Rio. Ana se dedicava a projetos de prevenção da violência contra jovens e crianças das favelas do Salgueiro e Jardim Catarina. Se conheceram quando ela se dedicava a projetos de construção da paz, da Fundação Konrad Adenauer. Um casal exemplar.

Se todos perdemos um expert que ajudava o mundo a ser menos violento, nós brasileiros temos uma dívida de gratidão impagável para com este porteño, que encantava os cariocas quando cantava tangos nos momentos de nostalgia por seu país. Ninguém fez mais para as boas relações entre Brasil e Argentina.

A proibição do porte de armas por civis, e a entrega de meio milhão de armas – duas medidas que contaram com a decisiva colaboração de Dreyfus -, resultaram na redução de 18% nas mortes por arma de fogo nos últimos 5 anos no Brasil. Como aceitar a desaparição prematura de quem evitou a morte de mais de 6 mil brasileiros? Por isso choramos a morte de Pablo Dreyfus e Ana Carolina.

Uma das homenagens que podemos fazer a Pablo é a de dar continuidade à sua obra em prol da paz e da solidariedade, dentre elas a de prosseguir com a publicação do En la Mira. Seus habituais assessores, Júlio César Purcena, e Natasha de Moura, estão dispostos a não deixar essa iniciativa morrer, e contam com a colaboração dos que até aqui contribuímos com esse importante, e único, canal de informação e análise sobre a situação do controle de armas e munições na América Latina e Caribe.

 

Antônio Rangel Bandeira, Viva Rio

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