Comunidade em Natal é exemplo de integração das igrejas contra a violência

A sensível redução da criminalidade na comunidade de Bom Pastor, uma das mais violentas de Natal, é um exemplo de que a participação efetiva da comunidade na segurança pública e, em especial, a interlocução das igrejas entre si e com a polícia, traz resultados rápidos.

O envolvimento comunitário e de organizações religiosas na questão da segurança pública na capital do Rio Grande do Norte começou em 2005, com as campanhas pelo desarmamento e depois pelo “Sim” à proibição da venda de armas de fogo para civis. Graças à articulação de mais de 20 igrejas evangélicas, diversas paróquias católicas, a arquidiocese, ONGs, movimentos e organizações da sociedade civil, 500 armas foram recolhidas em apenas três dias.

Após as campanhas, a articulação entre instituições religiosas e a sociedade civil continuou, agora com foco na tríade justiça, segurança e paz.

Mobilizada, a comunidade de Bom Pastor, de 20 mil habitantes, chegou a reunir 3 mil pessoas numa manifestação denominada de Grito pela Paz. Como conseqüência, foi criado, na paróquia local, um fórum de segurança pública, formado por diversas instituições, incluindo escolas, igrejas e a polícia. Além disso, foi instaurada a polícia comunitária, que conta com oito policiais treinados em curso especializado. A partir de um diagnóstico feito pela própria comunidade, foi determinado um foco de ação em zonas de risco e onde o tráfico exerce maior influência, resultando numa nítida redução da pressão da violência.

De acordo com Leandro Silva, coordenador do Comitê pelo Desarmamento de Natal e assessor da vice-governadoria do estado, a grande conquista foi a construção de canais de diálogo que não existiam entre instituições que promovem os direitos humanos e a área de segurança pública. “Criou-se uma relação muito interessante, onde as partes buscam, conjuntamente, um modelo de segurança pública que contemple prevenção e articulação comunitária”, observa.

Entre as dificuldades, ele destaca, por parte das igrejas, uma certa resistência à idéia de que sua função não é apenas pregar o evangelho e orar. Mas, segundo Silva, que é evangélico, isso está mudando. “Está aumentando, nas igrejas, a consciência da responsabilidade social e política. Como diz a Bíblia, são as ‘boas obras’”, diz. Ele afirma ainda que também está mudando a crença de que evangélicos são anti-católicos e não deveriam participar de ações sociais. “Hoje a integração entre as igrejas é muito boa, especialmente quando o tema em discussão é segurança pública e desarmamento. É o chamado ‘ecumenismo de ação’ transformado em prática”, completa.

Por parte da polícia, ainda se sente, de acordo com Silva, uma mentalidade essencialmente voltada para a repressão. Outro problema é a excessiva rotatividade dos policiais, o que dificulta a adaptação na base, mas ajustes já estão sendo propostos e são recebidos com abertura pelo comando da Polícia.

Um exemplo de ação bem sucedida na Comunidade Bom Pastor é o Proerd – Programa de Resistência às Drogas e à Violência, que traz policiais militares para as turmas de 4ª série das escolas. Nessas visitas, o policial conquista a simpatia dos alunos mostrando-se acessível e lúdico, e assim consegue passar a mensagem de prevenção à violência.

Nesse sentido, Silva destaca o empenho do vice-governador Antonio Jacome, advogado e pastor evangélico, que sistematizou o diálogo entre as igrejas e a Secretaria de Segurança Pública, tornando-o constante e permanente. “O que queremos agora é sedimentar essa rede para ampliar a ação a outras comunidades”, afirma Silva.

 

Para ele, a Caravana Comunidade Segura, que visitará Natal em 28 e 29 de julho, representa uma oportunidade para esta ampliação. “A Caravana será um passo muito importante, porque teremos a oportunidade de fazer uma avaliação do que já foi feito e aprender com organizações como o Viva Rio e o Sou da Paz sobre experiências já realizadas. Isso nos ajudará a traçar rumos tanto para a comunidade Bom Pastor quanto para outras na cidade”, avalia.

 

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Comentários

Uma boa idéia a ser copiada para Brasilia

Maria Lemle - gostaria de parabenizá-la pela excelente matéria. Também sou evangélico - além de policial militar em Brasília - que atualmente trabalha com policiamento comunitário - e como estamos buscando alternativas para aproximação com a comunidade, vemos em sua matéria algo digno de ser copiado. Graças a Deus em Brasília já temos uma aproximação muito boa com a Igreja (principalmente a evangélica) - falta-nos porém potencializar ações em conjunto com a Igreja que reflitam em mais segurança para a nossa comunidade. Parabéns - a matéria é original e bem inspiradora - Sgt Salustiano.

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