Vozes desaquarteladas

Dos cerca de 60 blogs de policiais que existem hoje na internet brasileira, nada menos do que a metade é do Rio de Janeiro. A rede mundial de computadores parece ter sido adotada pelos profissionais do sistema de segurança pública como meio de expressar opinião, anseios, insatisfações e até críticas às suas corporações.

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Para a cientista social Sílvia Ramos, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, no Rio, essa busca por novas formas de expressão pode ser resultado da própria repressão que os profissionais sofrem dos seus comandos.

A professora, que está fazendo para a Unesco um estudo sobre o fenômeno do crescimento dos blogs de policiais na rede – a chamada "blogosfera policial" - coordenou uma mesa redonda sobre o tema durante o III Encontro Anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em Vitória, no início do mês.

Sílvia lamentou que a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro não tenha autorizado os policiais Wanderby de Medeiros e Alexandre de Sousa, ambos blogueiros pioneiros, a participarem da mesa. O major Wanderby já foi punido várias vezes pela corporação por declarações feitas em seu blog.

"É claro que nada disso é para mim agradável, mas insisto na tese de que minha condição de cidadão antecede minha qualificação militar. Acho que poderia acrescentar algo ao encontro de Vitória", lamenta o major. Para ele, os blogs são uma importante e eficaz ferramenta para a difusão da transparência das corporações.

O tenente Alexandre de Sousa é o autor do blog Diário de um PM e idealizador da Blogosfera Policial, página que indexa todos os blogs de segurança pública brasileiros. Em seu blog – que começou em 2006 -, o tenente chama a atenção para o aumento do número desses sites e para a importância que assumiram. "Quem iria imaginar que esses blogs seriam tratados como fenômeno, sendo objeto de discussão em debates sobre segurança pública e de pesquisa acadêmica?", pergunta.

Ele lamenta não ter podido participar da mesa do Fórum, mas não questiona a decisão do comando da corporação. "Compreendo perfeitamente o choque de cultura e a falta de compreensão da importância dos blogs para a própria Polícia Militar por parte dos mais antigos. Mas isso está mudando", reconhece, lembrando que representou a corporação num evento internacional de tecnologia em São Paulo. Para Sousa, a função dos blogs "é levar ao público externo o mundo policial como ele nunca viu, uma polícia do ponto de vista diferenciado, de quem está de dentro da corporação".

Danilo FerreiraPara Danillo Ferreira (foto), da PM da Bahia, que participou da mesa em Vitória, os blogs ajudam a desfazer a imagem negativa que a sociedade tem dos policiais. "Muita gente fica surpresa quando descobre que policial sabe escrever. Quebrar estereótipos é muito importante. O blog faz um trabalho de formiguinha, mas com o objetivo de mudar a impressão que as pessoas têm da polícia. E ele dá a oportunidade de o leitor se posicionar”, disse.

Ferreira, que em breve será tenente, é autor, junto com quatro colegas, do blog Abordagem Policial. Ele explica que o blog coletivo nasceu em julho de 2007, quando teve a idéia de convidar os colegas para discutir segurança pública e polícia. "Por que não policiais comentarem as ocorrências, já que são eles que têm mais contato com essa realidade?", questionou.

De acordo com Ferreira, um dos objetivos do blog é promover a interação com outros policiais e com o público em geral. Outro objetivo é abrir espaço para reivindicações da classe, com "militares militando pela garantia de direitos". O policial também faz um blog pessoal, o Café do Dom.

Prova de que a blogosfera policial pode ser utilizada em prol dos próprios profissionais é a maneira construtiva de algumas corporações lidarem com seus blogueiros. A Polícia Militar de Goiás, por exemplo, faz uso dos conhecimentos do policial Robson Niedson, criador do Blog do Stive, para o desenvolvimento da comunicação da corporação.

Robson Niedson, da PMGOGraças a Niedson (foto), a PM de Goiás é a primeira polícia da América Latina a ter um blog institucional e o comandante geral, Carlos Antônio Elias, ganhou um blog pessoal.

"Essas duas histórias, do Rio e de Goiás, mostram como as corporações reagem de formas diferentes a esse novo fenômeno. As respostas que as polícias vêm dando são heterogêneas", atestou Sílvia Ramos.

De acordo com Niedson, Stive significa companheiro, colega, vizinho. De fato, ele é mesmo camarada. Seu blog virou um verdadeiro condomínio, servindo de porta de entrada para inúmeros outros que desenvolveu e gerencia, como o da Polícia Portuária Federal. Niedson acrescentou que já existe até a “twittosfera policial”, que é a presença dos policiais dentro do sistema Twitter.

 

Jornalistas ativistas

O jornalista Jorge Antônio Barros, autor do blog Repórter de Crime, no site do jornal O Globo, falou das vantagens e desvantagens de ter um blog. "O blog vai além da coluna. É uma coluna em movimento. Notas quentes entram a qualquer hora e o maior diferencial é a interatividade. O autor publica, os leitores comentam. Tem horas que dá vontade de esganar alguns leitores, mas tenho que responder", disse o jornalista, que usa seu tempo livre para atualizar o blog.

De acordo com Barros, o Repórter de Crime tem caráter opinativo e se opõe à política de confronto da polícia e à criminalização da pobreza. Além de debates sobre direitos humanos e sobre o filme Tropa de Elite, o blog inovou ao criar os Mapas do Crime, feitos com base em informações sobre áreas perigosas enviadas por leitores, e promover entrevistas exclusivas com perguntas propostas pelo público.

JAB.jpgRecentemente, o jornalista passou a publicar vídeos feitos por ele mesmo no You Tube e inserir no blog. Um exemplo são as entrevistas em vídeo que fez com os demais palestrantes e o registro do delegado carioca Vinicius George protestando contra o veto à participação dos blogueiros do Rio no Forum.

Eduardo Machado, um dos quatro jornalistas autores do blog PE BodyCount, que contabiliza os mortos da violência no estado, disse que a proposta inicial, a exemplo do Iraque Body Count, era apenas publicar as listas de mortos, já que as estatísticas não são confiáveis.

Mas os autores perceberam que o maior número de homicídios era de pessoas pobres, e que como os pobres não acessam internet, a informação não estava chegando a quem deveria. Tiveram então a idéia de desenhar a silhueta de corpos no chão em vermelho, com a palavra Basta, nos locais onde os homicídios ocorriam.

Fizeram 80 desenhos em um mês. “Era um custo mínimo, mas um grande esforço”, contou Machado, explicando que, como trabalhavam de dia no Jornal do Commércio, os desenhos eram feitos à noite.

eduardo_machado_peq.jpgOutra ação do PE Body Count foi a colocação de um grande contador de mortos numa rua importante de Recife. A atualização é feita por envio de mensagem de celular e o patrocínio é de uma faculdade, que colocou a sua logomarca no contador.

Os jornalistas também promovem demonstrações que causam impacto, como a colocação de cruzes na praia e de sapatos na frente de igrejas, para lembrar a quantidade de homicídios. “O objetivo é mobilizar a sociedade pernambucana. Temos pouca repercussão e poucos resultados, mas vamos continuar insistindo”, disse.

 

 

Saiba mais:

Policiais do Rio abrem o verbo na internet

Pernambuco conta seus mortos

Cidadãos cariocas mapeiam crime em seus bairros

Iniciativas da sociedade auxiliam segurança

(Não) Fale Conosco

Na Blogosfera Policial:

Blog do Stive, de Robson Niedson, da PMGO

Abordagem policial, blog coletivo de policiais da Bahia

Café do Dom, blog pessoal de Danillo Ferreira

Blog do major Wanderby

Diário de um PM, blog de Alexandre de Souza 

Blogosfera Policial, o blog dos blogs policiais brasileiros. Lista todos, por estado

Repórter de Crime, blog do jornalista Jorge Antonio Barros no Globo Online

PE Body Count, blog coletivo de jornalistas pernambucanos

Comentários

Governo do Estado do Rio de Janeiro e os descasos

Só gostaria de saber por que o Rio, como, se presencia a cada dia na mídia, o Estdado mais violento da Federação, nunca se vê um Governo de verdade, isto é, uma gestão capaz de resolver, ou ao menos de minimizar o problema da Segurança Pública?? Desde que entrei para uma Corporação integrante da Segurança Pública Fluminense, só vejo politicagens e falsas promessas de campanhas no tocante à questão salarial, a qual se revela o principal problema desse serviço público essencial; Contudo, quando os "políticos" são eleitos, simplesmente esquecem o que prometeram e governam somente com medidas eleitoreiras e com propagandas eleitorais "positivas", nada mais que isso, e ainda se acham capazes de angariarem uma nova eleição, ou até mesmo de concorrerem ao cargo de Presidente da República. Que fenômeno é este que existe no RJ?? Não consigo entender o por quê disso?? Se a Segurança é o principal problema, como pode ser assistido cotidianamente, por que não há interesses políticos para sanar o atual quadro caótico que assola o Estado?? o que há de errado com esses supostos governantes?? Seria a falta de compromisso, a falta de caráter, a corrupção ou a real incompetência?? O que seria??

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