A mídia na berlinda
Jornalistas, editores, repórteres investigativos, blogueiros, profissionais da mídia em geral. Suas decisões sobre como relatar eventos de violência afetam o que o público vê ou lê. O espectador pode ou não achar que seus questionamentos estão sendo esclarecidos, ou que as suas experiências estão sendo levadas a sério. Como falar com o público sobre a violência foi o tema de um seminário internacional realizado nos dias 26 e 27 de março, no Rio de Janeiro.
Sob vários aspectos, a cidade do Rio oferece desafios semelhantes aos de outros lugares mundo afora. As manchetes de crime giram em torno de homicídios, confrontos entre traficantes bem armados e vários tipos de estratégias de policiamento. Tudo isso ocorre enquanto cerca de um terço da população – os moradores das favelas – sentem-se à sombra da grande mídia. As discussões do seminário foram do uso de fontes policiais a novas ferramentas midiáticas para uma maior inclusão social.
"A mídia enfrenta problemas similares quando a violência gera notícias em áreas de exclusão social", diz Michel LaBreque (foto), um jornalista canadense cujos anos de cobertura da América Latina incluem o assassinato – em 2002 – do repórter Tim Lopes, da Globo. "No Canadá, essas áreas concentram grupos multiétnicos de imigrantes, enquanto que, no Brasil, são as favelas, onde também moram migrantes", acrescenta. Um exemplo desses problemas foi a cobertura dos distúrbios em Montréal Nord, no Canadá, quando o adolescente hondurenho Frederico Villanueva foi morto por policiais, em agosto de 2008.
"Você poderia pensar que a insegurança não é uma questão no Canadá, mas é sim. Como nós, como profissionais da notícia, retratamos os bairros onde o crime acontece? A nossa cobertura é justa com os residentes? Levando isso para um outro nível: como a nossa cobertura da violência afeta a maneira como retratamos outros países? Devemos nos perguntar tudo isso", diz LaBreque, da Radio Canada.
"Como um correspondente estrangeiro, é muito mais fácil vender uma matéria sobre violência no Brasil do que sobe qualquer outro assunto. Devemos encontrar um equilíbrio entre o clichê e a realidade. O mesmo vale para o Canadá. Quando olhamos para a segurança no nosso país, vivemos um paradoxo", diz.
De acordo com LaBrecque, a taxa de homicídio canadense está abaixo de 2 por 100 mil – o nível mais baixo em 40 anos, e aproximadamente metade da taxa do vizinho Estados Unidos. Ainda assim, os canadenses dizem achar que o país se tornou mais violento. "Ainda que, estatisticamente, não seja um país perigoso, novas formas de violência estão surgindo", afirma LaBrecque, citando, como exemplo, protestos contra a brutalidade policial em Montréal que foram manchete duas semanas antes.
Na opinião do canadense, a grande mídia tende a associar imigrantes à violência, e os enxerga como apoiadores do terrorismo – jovens negros, em particular, são também associados a gangues", explica. "Quando eu entrevistei o rapper MV Bill há alguns anos, ele tinha reclamações similares: 'É claro que há crime aqui onde moro, mas também há uma vida normal, e há centenas de outras coisas interessantes'. Nós, a mídia, precisamos mostrar essa complexidade", aponta.
Exclusão social e divórcio da mídia
Foi precisamente para mostrar complexidade que Maurice Segura, escritor e jornalista canadense, convenceu o jornal de Montréal L’Actualité a permitir que ele entrasse em Montréal Nord – cena dos distúrbios – e criasse um blog sobre a vida do lugar vista de dentro.
"As pessoas parecem confundir jornalismo alternativo com a promoção de idéias de comunidade. Jornalismo alternativo pode ser feito em favelas e comunidades, mas trata-se de coisas diferentes. Pode a grande mídia cobrir as áreas de exclusão social? Eu acho que sim. Usei o blog Montréal Nord para dar voz àquela comunidade que, naquele momento, era vista praticamente como um gueto", afirma.
Segura ia para lá todos os dias e logo descobriu que membros da comunidade estavam interagindo com ele no blog – dando retornos, corrigindo informações da grande mídia, escrevendo em seus próprios blogs, tornando-se repórteres locais.
De acordo com o jornalista, o divórcio da mídia com a realidade local ficou evidente em alguns episódios, como quando saíram matérias imprecisas, dizendo que os moradores do local estavam fabricando bombas.
"A comunidade de Montréal Nord estava fortemente dividida com relação à polícia, por exemplo. Não havia consenso", conta Segura. E, entre os adolescentes, ele relata, em geral, uma rejeição a todas as figuras de autoridade – desde policiais até administração da cidade, professores e diretores de escolas, e explica que isso vale também para a mídia. "Eles vêem a grande mídia como defensora dos interesses dessa esfera da sociedade", diz.
Ativo nas organizações comunitárias da área, o jornalista acredita que a aversão dos jovens se estende até a própria palavra escrita. "Criamos um programa para jovens usarem blogs como ferramentas de autoexpressão, mas não decolou. O que realmente deu certo foi filme e música. Propusemos que fizessem documentários e eles se envolveram imediatamente", conta.
Web a serviço da comunidade
Um caso de sucesso do uso da web a serviço das comunidades cujas experiências não são cobertas pela mídia é o portal Viva Favela, do Rio de Janeiro. "Em 2001, quando surgiu a idéia de relatar as histórias de dentro das favelas do Rio, as pessoas acharam que éramos malucos. Eu ainda lembro do jornalista que me perguntou como eu me sentia por publicar matérias na internet que não iam ser lidas pelas pessoas que as escreveram. Eles estavam errados naquela época, e estão errados agora", afirma Tião Santos, coordenador da ONG Viva Comunidade.
"No início, combinamos reportagem local com jornalistas editando as matérias para publicação. Isso significava às vezes pegar material manuscrito. Muitos dos nossos colaboradores já se formaram em Jornalismo e é importante que continuemos a capacitar os moradores a contar suas histórias", diz Santos.
O site tem sido amplamente saudado como uma janela singular para a cultura e história das favelas cariocas. "Ele mostra a complexidade e riqueza da vida local, que é ignorada na grande mídia", afirma Santos, ressaltando que eles foram capazes de se libertar da fórmula da mídia que torna a favela sinônimo de insegurança.
"Então, se você trabalha para a grande mídia, como você aborda comunidades afetadas pela violência mas descontentes com a mídia?", perguntou um jornalista do estado de Santa Catarina comentando que chegou a levar uma equipe de filmagem para uma comunidade para perguntar aos moradores sobre como eles viam os conflitos entre os traficantes mas ninguém quis falar.
A tênue linha entre 'conseguir' e 'ser' a notícia
"Você precisa de fato desenvolver um jeito para a coisa", responde o freelancer americano Steven Salisbury, que há anos cobre a América Latina, baseado em Bogotá, Colômbia. Ao narrar suas experiências com a abordagem de membros de forças armadas em áreas de conflito em El Salvador, Nicarágua, Guatemala e Colômbia, ele defende as premissas básicas da reportagem. "Seja honesto, não politize a notícia, procure por contradições e ponha a informação dentro do contexto. Você pode fazer perguntas difíceis em situações delicadas – só deve se certificar que o faça de forma agradável", diz Salisbury.
O norte-americano já passou por algumas "situações delicadas". Em uma delas, teve que abordar manifestantes mascarados em uma marcha. "Fale com uma voz calma, olhe-os nos olhos, tente fazer um contato humano – isso ajuda bastante". Outro exemplo também foi ter ficado sozinho em um acampamento de forças armadas ilegais, conduzindo uma entrevista e tentando não ser manipulado para tornar-se um instrumento de propaganda.
Jornalistas devem usar as ferramentas à sua disposição para evitar atravessar a tênue linha entre "conseguir" e "ser" a notícia. "Quando eu estava tentando contatar os paramilitares na Colômbia, as pistas evaporavam assim que apareciam. Levei algum tempo, mas eventualmente decidi literalmente pesquisá-los na internet. Encontrei a página da Autodefensas Unidas e escrevi para eles. Alguma coisa no meu texto deve ter chamado a atenção, pois eu obtive uma resposta de Carlos Castañeda, seu líder na época", recorda. Foi o primeiro passo para uma entrevista do outro lado do país, no coração da selva.
Mas fontes amistosas também podem mudar. Durante uma entrevista com adolescentes sicarios (matadores de aluguel) na Colômbia, o ambiente azedou e eles brincaram com a idéia de matá-lo. Contudo, ser notícia na grande mídia acabou os atraindo mais. Um jornalista vivo pode contar a história deles.
Como você chama um adolescente envolvido em um crime?
A professora e chefe do departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ivana Bentes, questiona a terminologia usada na mídia. Boa parte da linguagem utilizada na grande mídia, argumenta Bentes, contribui para a criminalização da pobreza. "Por que usar o termo 'epidemia' de crime, senão para gerar insegurança?", diz.
Ivana questiona o empréstimo de termos da saúde pública, sem, no entanto, a apresentação de dados comparáveis de estudos estatísticos. A professora expressa preocupações compartilhadas pela audiência e palestrantes: no Brasil, quando um jovem de uma favela se envolve com um ato violento, e ele é chamado de "menor"; quando vem das camadas mais ricas do país, é chamado de "adolescente". Quando alguém com 14 anos e uma arma sai matando em uma escola é chamado de "homem armado" na mídia internacional, "quais são as consequências disso?", ela pergunta.
Um retorno à intimidade com os leitores
Algo que o repórter de crime e blogueiro Jorge Antônio Barros – de O Globo – pensa ser um aspecto-chave é que a mídia deve recuperar o contato que outrora teve com seus leitores.
"Houve um tempo em que as redações estavam constantemente abertas a visitas; o público ia diretamente à mesa do repórter, buscando ajuda para resolver seus problemas", lembra. Era uma época, diz Barros, na qual os jornais das grandes cidades ajudavam a transpor o abismo entre o cidadão médio e as instituições do Estado.
"Os grandes jornais ainda são sensíveis às opiniões dos leitores; olham para a seção de cartas para pensar em suas escolhas editoriais. Contudo, você pega um blog como o meu e vê um retorno à intimidade com os leitores. Você tem boas e más reações, você recebe algo dos leitores", diz Barros, comentando que muito do sucesso da série 'mapa do crime' publicada em seu blog se deveu ao fato de ter aberto um canal para pessoas desejosas de reportar crimes, mas desconfiadas da polícia.
Presidente da Associação Brasileira de Jornalistas Investigativos e colunista de O Dia, Fernando Molica acredita que, enquanto as redações perderam contato com os leitores, os jornalistas ganharam, ao longo dos últimos 50 anos, independência das fontes policiais na cobertura de crimes.
No entanto, na sua opinião, a questão fundamental não é melhorar a cobertura criminal. O objetivo agora é enxergar a violência e o crime através do prisma da segurança pública. Ele argumenta que, assim como o sobe-e-desce das taxas de desemprego e índices do PIB recebem cobertura e análise na mídia, a mesma qualidade de cobertura deveria ser dada à segurança humana.
"Assim como, no passado, as matérias dos jornais sobre preços de alimentos evoluíram para a cobertura de dados consistentes, precisamos monitorar políticas públicas, devemos informar se os objetivos na redução da violência estão sendo alcançados ou não – e por quê", ensina. O evento foi organizado pela UFRJ, pelo Consulado do Canadá e pelo Consulado dos Estados Unidos da América.
Fotos: Comunidade Segura








Comentários
Enviar novo comentário