Texto produzido pela parceria portal Comunidade Segura e Fórum Brasileiro de Segurança Pública
Quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009. Tarde de sol em Maceió. Gabriel Caetano é assassinado com três tiros, dois atingem a cabeça. A pontaria certeira assinala para uma evidência: intenção de matar. Para a polícia, mais um acerto de contas em praça pública. Para a sociedade civil organizada, mais uma vida que poderia ter sido preservada.
Gabriel Caetano tinha 16 anos quando sentiu os disparos. Ele endossa um triste índice conquistado pela capital alagoana: Maceió é a capital brasileira com a maior concentração de homicídios juvenis. Dos 2.075 mortos entre os anos de 2004 e 2006, quase a metade, 1.017, eram jovens de 15 a 24 anos. A cidade também é a sexta do país em números absolutos: 899 pessoas foram assassinadas em 2006.
De olho nos índices do Ministério da Justiça – que publicou, em 2008, mais um Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros –, um grupo de representantes da sociedade civil resolveu se organizar e trabalhar pelo desenvolvimento de uma cultura de paz na capital. Assim surgiu o Fórum Permanente Pela Vida e Pela Paz, o ForVida, que realizou diversas ações ao longo de 2008 e já começa 2009 nas manchetes dos jornais.
No dia 13 de fevereiro deste ano, o Fórum conseguiu chamar a atenção da imprensa, de forma especial, para um local visitado diariamente pelos jornalistas: o Instituto Médico Legal (IML) de Maceió. Na rua em frente ao órgão, 2.064 pares de calçados espalhados lembravam o número de caminhos interrompidos pela violência, em Alagoas, só no ano passado, segundo os registros da Secretaria de Defesa Social. “Mais de dois mil alagoanos perderam o direito de ir e vir em 2008. A maioria de baixa renda. Queremos provocar os poderes públicos para, juntos, tentarmos achar uma solução para esse caos”, diz Elizabeth Lopes, uma das integrantes do Fórum.
Cultura de Paz
O ato público foi a primeira ação de grande visibilidade do Fórum, criado em abril de 2008, quando a Secretaria Estadual do Planejamento e do Orçamento (Seplan) convidou representantes de empresas e organizações não-governamentais (Ongs) para um discussão. A pauta principal era a chegada à Maceió do ex-prefeito de Bogotá, Antanas Mockus.
Na bagagem, o colombiano trazia idéias inovadoras para combater a violência em três áreas da capital alagoana: Benedito Bentes, Jacintinho e Vergel do Lago, bairros com maior incidência criminal e de tráfico de drogas. As estratégias que deram certo na capital da Colômbia – em 13 anos, o número de homicídios reduziu de 80 por cem mil habitantes para 23 por cem mil – foram absorvidas por líderes e organizações sociais que integram o ForVida, em Maceió.
Desde então, eles se reúnem todas as terças-feiras para elaborar e avaliar ações que estimulem a cultura da paz e da cidadania, principalmente entre jovens que vivem naquelas três áreas consideradas críticas. As ações passam por trabalhos pedagógicos em escolas públicas, caminhadas com a participação das comunidades e conscientização da imprensa.
"Trabalhamos em cima de alguns conceitos como amor, paz, ‘não-violência’, honestidade e conduta correta. Os jovens devem aprender que drogas e criminalidade são ruins não por que é contra a lei e dá cadeia, mas porque são simplesmente ruins", explica outra integrante do Fórum, Maristela Pozitano.
Mobilizações
O ForVida avalia como positivos os trabalhos realizados em Maceió, durante 2008, apesar da falta de uma estrutura física e jurídica. Entre os projetos com maior poder de mobilização, Maristela destaca o “Troca de heróis”, no qual estudantes de escolas públicas foram estimulados a estudar a história de pacificadores mundiais. “Esses meninos e meninas vivem bombardeados com violência, que vem de todos os lados. Muitos nem sabem que existe um outro lado. E Gandhi e Luther King mostraram que existe um lado bom”, afirma.
No primeiro ano de existência, o ForVida conseguiu também mobilizar a população em três caminhadas por Maceió, duas delas nos bairros do Benedito Bentes e Jacintinho. E, com o apoio de alguns órgãos estaduais, capacitou professores da rede pública de ensino e policiais do Batalhão de Polícia Escolar, que participaram de palestras sobre os direitos humanos na escola.
Perspectivas
Para 2009, os projetos são mais ambiciosos, como provou a exposição dos calçados em frente ao IML da cidade. Já no início de março, os integrantes do Fórum se reúnem com a Seplan para elaborar e aprovar um plano de ações. Além da continuidade dos trabalhos realizados no ano passado, estão previstas, por exemplo, oficinas com empresas de comunicação, que devem começar em abril. As oficinas pretendem discutir com empresários e jornalistas o culto à violência, veiculado na imprensa. Segundo Maristela Pozitano, “o objetivo é diversificar as manchetes. Se não podemos acabar com o sensacionalismo, pelo menos vamos mostrar que existe gente fazendo o bem”.
O conjunto de estratégias também inclui uma articulação com órgãos do Poder Legislativo. “Os políticos no Brasil estão sempre protegidos por alguma brecha nas leis. Isso permite o desvio de recursos públicos sem que a população se revolte, pois ela acha que tudo é normal. Queremos mudar isso e vamos buscar apoio na Assembléia Legislativa e na Câmara de Vereadores”, adianta Juan Priegue Castro, representante da Seplan no Fórum.
Outra perspectiva é a instituição oficial do ForVida, que já está sendo trabalhada com a colaboração da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Seccional Alagoas. O estatuto já está elaborado, mas os integrantes preferem esperar para consolidar um grupo rigorosamente comprometido com a organização. A previsão é que isso seja realizado até o fim do primeiro semestre de 2009, quando deve começar a captação de recursos.
Prós e contras
Mas não só de palavras se promove uma revolução na consciência de comunidades atormentadas pela violência. Os integrantes do ForVida sabem que antes das drogas e das armas, existem o desemprego e diversos outros problemas sociais. É por isso que todas as ações buscam parcerias com órgãos públicos capazes de desenvolver políticas públicas paralelas, como a criação de uma clínica pública de desintoxicação, inexistente no Estado.
Uma das parceiras é a Secretaria da Mulher, Cidadania e Direitos Humanos de Alagoas, que deve iniciar, em 2009, projetos sociais voltados para áreas com grande incidência de criminalidade. “Temos dois principais projetos em andamento, que concederão ajuda de custo para jovens e mulheres de áreas críticas. Os pré-requisitos são o cumprimento de atividades extras nas escolas, para os jovens, e a participação em cursos profissionalizantes, para as mulheres”, garante a secretária Wedna Miranda.
Outras tentativas de consolidar parcerias, no entanto, foram infrutíferas. “Entramos em contato com uma secretaria que nos informou, de forma curta e grossa, que estava interessada apenas em aumentar o salário dos funcionários”, revela Maristela Pozitano. A indiferença é apenas uma das dificuldades que o Fórum vai encontrar pelo caminho rumo à paz, mas não abala o entusiasmo do grupo. “É difícil fazer um trabalho onde 80% da população depende do governo ou das atividades açucareiras. Temos consciência de que não vamos salvar o mundo, mas temos que fazer alguma coisa. As pessoas têm que sair do conformismo”, diz a integrante do ForVida.
Saiba mais:








Comentários
Projeto Mulheres da Paz
Olá, sou psicóloga e integro o Projeto Mulheres da Paz em Maceió, o mesmo é desenvolvido pela Secretaria Estadual da Mulher, da Cidadania e dos Direitos Humanos em parceria com o Pronasci e visa contemplar 300 mulheres líderes, sendo 100 dos bairros com maior índice de violência: Benedito Bentes, Vergel e Jacintinho. Gostaria de obter mais informações sobre o
ForVida para quem sabe trabalharmos em rede.
No aguardo de um contato, grata desde já,
Alessandra Medeiros
E-mail do grupo: [email protected]
Página: http://br.groups.yahoo.com/group/mulheresdapaz
Enviar novo comentário