Comitês estaduais na luta contra o tráfico de pessoas
Diariamente, no mundo todo, pessoas são coagidas ou iludidas e viram objetos nas mãos de comerciantes inescrupulosos. Traficadas dentro e fora dos seus países, são usadas para trabalho escravo, exploração sexual, adoção ilegal, comércio de órgãos e até rituais religiosos, entre outros crimes.
A ONU estima que 2,5 milhões de pessoas no mundo são vítimas de tráfico de seres humanos. Segundo o Relatório Mundial do Tráfico de Pessoas do Escreitório das Nações Unidas para Driogas e Crimes (UNODC, 2006), cerca de 54% das vítimas são mulheres e 44% crianças. No Brasil, a Pesquisa sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para Fins de Exploração Sexual Comercial (Pestraf, 2002) identificou 241 rotas do tráfico, sendo 141 internacionais.
Como as características dos casos variam muito, o trabalho de prevenção e combate ao tráfico de pessoas exige um esforço articulado entre as organizações governamentais e não governamentais que lidam com as diversas facetas da questão em âmbitos regional, nacional e internacional.
MS: rotas, casos e pioneirismo
Pioneiro no país, o Comitê de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas Mato Grosso do Sul (Cetrap/MS) vem servindo de exemplo para iniciativas em outros estados. Ele foi criado em 2002 para articular uma rede de ONGs, órgãos públicos estaduais e federais e as polícias.
De acordo com Estela Márcia Escandola, diretora-presidente do Instituto Brasileiro de Inovações Pró-Sociedade Saudável Centro-Oeste (Ibiss-CO), organização integrante do Comitê, o Mato Grosso do Sul é rota dos mais variados tipos de tráfico de pessoas.
A assistente social lista alguns casos: mulheres bolivianas que entram pelo Paraguai com destino a São Paulo, onde serão exploradas sexualmente; homens chineses que vêm da Bolívia e são levados a São Paulo para trabalhar como escravos na indústria têxtil; homens pernambucanos aliciados para trabalho escravo em destilarias no MS; crianças de cidades do entorno de MS levadas para a colheita de maconha no Paraguai; adoções ilegais.
“Há até casos de pessoas que seriam usadas em rituais religiosos e que quando são encontradas e salvas ficam contra nós, porque estão convencidas de que aquilo seria bom para elas”, conta. Por serem casos tão diversos, Estela destaca a importância do estudo de casos, e está buscando investimentos para isso. A Escola de Conselhos da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul é a mais nova integrante do Comitê.
Estela explica que o Comitê não é executivo. O objetivo é a articulação dos parceiros para a realização de ações coletivas e a divulgação das ações promovidas por cada organização com financiamento próprio. “Há vários olhares. O Ibiss foca nas crianças e mulheres, o Ministério Público do Trabalho no trabalho escravo em destilarias e carvoarias e a Polícia Federal descobre as rotas. A expertise de cada instituição é fundamental para o Comitê poder discutir todas as formas de tráfico”, diz.
São Paulo tem comitê, escritório e seminário
São Paulo também vem fortalecendo a sua rede e desenvolvendo o potencial executivo. Em 2006, foi criado o Escritório Paulista de Prevenção e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, o primeiro no país. O órgão resulta de uma ação conjunta da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo, do Governo Federal e parceiros - Consulado dos Estados Unidos da América, Serviço da Mulher Marginalizada (SMM) e Associação Brasileira de Defesa da Mulher, da Infância e da Juventude (Asbrad).
De acordo com a coordenadora Anália Ribeiro, o Escritório exerce a função de secretaria executiva do Comitê Paulista de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e dedica-se à realização de campanhas, cursos, palestras e seminários que gerem reflexão e sensibilização para criação de políticas públicas locais, nacionais e internacionais. Também é objetivo do escritório, segundo Anália, a formação de uma rede sólida de prevenção, atendimento e repressão ao crime, agregando novos membros. Hoje a rede envolve 30 instituições públicas, privadas e do terceiro setor.
Um grande desafio a ser superado é o aumento da demanda por atendimento. Já foram atendidas cerca de 263 vítimas num total de 26 casos relacionados ao tráfico para fins de exploração sexual e trabalho escravo. O Escritório organizou um plantão para oferecer suporte às blitz realizadas pelas polícias Civil, Federal e Interpol e presta assistência às vítimas. Para melhorar o trabalho, o escritório precisa, no momento, de uma viatura com motorista, uma câmara fotográfica para registro das ocorrências e um pen-drive para cópia dos depoimentos nas delegacias, entre outros itens.
Entre 15 e 17 de outubro, o Comitê Paulista de Prevenção e Enfrentamento ao Tráfico de Seres Humanos e a Escola Superior do Ministério Público da União promovem o seminário Tráfico de seres humanos: desafios e perspectivas no enfrentamento. O evento reúne no Ministério Público Federal em São Paulo entidades de combate e prevenção ao tráfico, entidades de direitos humanos, membros do Ministério Público, secretários de Justiça e estudiosos do tema, entre outros.Veja a programação (arquivo PDF).
No DF, hip hop contra o tráfico de pessoas
No Distrito Federal, desde 2004 o Comitê de Enfrentamento ao Tráfico de Seres Humanos se reúne mensalmente e em 2006 foi reconhecido como organização de utilidade pública pelo governo do DF. Seus objetivos são planejar, monitorar e avaliar ações de combate ao tráfico de pessoas no DF, principalmente em relação a mobilização, articulação, prevenção, atendimento, monitoramento e avaliação. Composto por representantes do setor público e instituições de sociedade civil, o Comitê realiza palestras e seminários sobre o tema em escolas e associações de moradores, especialmente em cidades-satélites.
Segundo a coordenadora Aldayr Brasil, a maioria dos casos que o grupo tem monitorado envolve adolescentes, especialmente meninas e moças, entre 12 e 17 anos. Em quase todos os casos, o processo começa com alguém da família ou um amigo próximo. "Aliciadores chegam às vítimas prometendo dinheiro à família, pagando contas e cestas básicas. Falsificam identidades, preparam books de modelo - tudo para parecer que a pessoa vai melhorar de vida", explica a coordenadora.
Ela ressalta que a maioria das vítimas é traficada a outras cidades do Brasil ou a outros países, especialmente Espanha, Portugal, Suíça e Estados Unidos. "Vemos que meninas do Nordeste também são traficadas para o DF", disse.
Em junho de 2008, o Comitê do DF lançou o videoclipe "Não trafique", do grupo Hip Hop Proativo, de Brazlândia. O objetivo é conscientizar o público - especialmente os jovens - sobre o tráfico de pessoas. "Usamos a linguagem que o jovem entende. E as letras pegam", afirma Allison Costa Dias, do grupo de Brazlândia.
No Rio, Pronasci apoiará criação de núcleo
O estado do Rio de Janeiro foi um dos contemplados com os recursos do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci) para a implementação do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, um projeto subordinado à Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos. O núcleo funcionará na sede do Conselho Estadual de Direitos da Mulher (Cedim).
De acordo com Flavia Antunes, assessora da Secretaria, o plano de trabalho prevê ações de prevenção e conscientização e a capacitação de servidores públicos para o atendimento. Estão previstas palestras em escolas estaduais e distribuição de materiais educativos alertando sobre ofertas de emprego no exterior sem referência e indicando como proceder para fazer uma denúncia. “A idéia é que o núcleo seja um ponto de referência do governo estadual na luta contra o tráfico de pessoas”, explica.
Segundo Flávia, a Secretaria está em articulação com a Polícia Federal e com consulados de países como Espanha, Portugal e Itália para desenvolver um trabalho conjunto. Haverá também articulação com a Fundação para a Infância e Adolescência (FIA) para traçar linhas comuns de trabalho no caso de crianças e adolescentes desaparecidos.
Flávia destaca ainda como parceiros-chave os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas), que atendem crianças, adolescentes, jovens, mulheres que vivenciam situações de ameaça e violações de direitos por violência física, psicológica ou sexual, exploração sexual comercial e situação de rua, entre outras.
Ainda no mês de outubro será realizada a primeira reunião estadual que convocará os futuros parceiros do núcleo, com o intuito de criar-se um comitê estadual e uma rede permanente de apoio e atendimento a vítimas. “Esse comitê estadual contará com designações claras de ações em rede para proteger a população e atender as vítimas”, diz Flávia.
Para Luciana Campello, articuladora do Projeto Trama, a iniciativa é positiva, visto que em outros estados a formação de redes vem dando bons resultados. “Não adianta ter um único serviço de atendimento. É preciso integrar os serviços e pensar estratégias em conjunto”, defende.
O Projeto Trama é fruto de um consórcio de quatro entidades não-governamentais sediadas no Rio de Janeiro: a Organização de Direitos Humanos Projeto Legal; o Instituto Brasileiro de Inovações em Saúde Social (Ibiss); Criola (uma organização de mulheres afro-brasileiras); e a Universidade do Grande Rio (Unigranrio). O projeto atua desde 2004 no enfrentamento ao tráfico de pessoas para fins de exploração sexual.
(Com informações do UNODC)
Mais informações:
Tráfico de seres humanos: jovens são vítimas no país - Artigo de José Gregori, presidente da Comissão Municipal de Direitos Humanos de São Paulo








Comentários
INFORMAÇÃO
GOSTARIA DE SABER COMO FAÇO PRA ENTRAR EM ORGÃO OU ENTIDADES NO COMBATE AO TRÁFICO DE SERES HUMANOS, SOU POLICIAL MILITAR ATUAL EM MANAUS, QUALQUER INFORMAÇÃO ENVIAR EMAIL. AGRADEÇO.
Enviar novo comentário