Saúde contra a epidemia de violência

Mais de 200 experiências bem sucedidas de prevenção da violência com a promoção da saúde em todas as regiões no Brasil estão sendo analisadas pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass). O objetivo é compilar as idéias e transformá-las em políticas públicas a serem patrocinadas pelo Ministério da Saúde e replicadas país afora. De acordo com o Conass, a violência sobrecarrega o sistema de saúde e custa cerca de R$ 4 bilhões, ao ano, para as três esferas de governo

seminario1.jpgAs iniciativas, realizadas por governos estaduais e municipais, muitas vezes envolvendo ONGs e outras pastas, como a Educação, foram apresentadas nos seminários regionais “Violência: uma epidemia silenciosa”. Durante o último, do Sudeste, realizado no Rio nos dias 28 e 29, foram apresentadas 34 experiências implementadas em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais.

Apoiados pelo Ministério da Saúde, o Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems), a Organização Panamericana da Saúde (Opas) e diversos escritórios da ONU, os seminários culminarão num encontro nacional, em Porto Alegre, nos dias 26 e 27 de março, quando serão consolidadas conclusões e propostas.

O resultado do seminário nacional, a ser publicado em livro, será o primeiro passo para a inclusão da violência como um problema de saúde pública na agenda de prioridades do Sistema Único de Saúde (SUS).

O foco técnico está dirigido a quatro eixos: violência auto-infligida (suicídios); violência/acidentes no trânsito; violência interpessoal (agressões/homicídios); e violência interpessoal (doméstica ou comunitária) e envolvendo gênero (contra a mulher) e grupos etários mais vulneráveis (criança, adolescente e idoso).

De acordo com o presidente do Conass, Osmar Terra (foto abaixo à esquerda), a violência tem origens históricas e sociais e diversos fatores causais, o que faz com que o seu enfrentamento demande a articulação de diversos setores e instituições do poder público e da sociedade. “É preciso mudar a cultura. Não se pode achar que só a repressão e a ação da polícia serão suficientes para conter a violência”, afirmou durante o evento no Rio.

Durante a abertura do encontro, o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, disse que a violência não é assunto de uma pasta só. “Operações policiais são necessárias, mas o trabalho maior é de promoção da vida”, afirmou.

Osmar terra, presidente do ConassPara Osmar Terra, a violência deve ser encarada também como uma questão de saúde pública tanto pelas suas causas – como o abandono na primeira infância, a doença mental e o alcoolismo – quanto pelas conseqüências - mortes, lesões, incapacidades e alterações emocionais que aumentam as demandas das áreas de urgência, emergência e reabilitação, além da prevenção, com vigilância e promoção da saúde.

Terra disse que a Saúde mão visa a entrar diretamente no âmbito da Segurança Pública, mas deseja trabalhar em rede com ela, de forma integrada, para diminuir o número dos casos de violência. Ele também recomendou a criação de parcerias com grandes meios de comunicação para oferecer serviços a comunidades.

“Podemos reduzir os números de suicídios, homicídios e acidentes de trânsito causados por problemas mentais, alcoolismo e drogas. Podemos trabalhar no desenvolvimento infantil, principalmente na primeira infância, que é crítica na questão da violência. Estudos mostram que crianças maltratadas e negligenciadas nos primeiros 18 meses de vida têm uma tendência muito maior a ter comportamento violento na adolescência e na idade adulta”, disse.

O médico chamou atenção para o fato de que 6% das crianças nas escolas hoje têm déficit de atenção e hiperatividade, que gera impulsividade. “Se essas crianças não forem acompanhadas e tratadas de maneira adequada, terão uma tendência grande a serem adolescentes violentos”, alertou.

Ele defendeu ainda a promoção da mediação de conflitos para reduzir a violência em escolas. “Como já se faz em vários lugares no mundo, devemos educar os meninos a resolverem os conflitos sem violência e criar líderes estudantis nas salas de aula que trabalhem como mediadores”, sugeriu.

O presidente do Conass também destacou a importância de se educar a família e citou um estudo feito no Rio Grande do Sul que mostra que os 26 mil apenados do estado saíram de 10 mil famílias. “O problema não é só de ordem social. Não são todos os pobres que são violentos. É preciso mapear os casos com dados da Saúde, da Segurança, dos presídios e focalizar as ações em áreas de maior risco”, afirmou. Ele acrescentou que até hoje não existe avaliação sobre os fatores de risco que levam à reincidência da violência juvenil.

Terra defendeu ainda a criação da lei de financiamento da saúde para garantir mais verbas à área. Segundo ele, o governo brasileiro investe US$ 300 por ano por pessoa em saúde, o que representa a metade do investido na Argentina e dez vezes menos que os valores do Canadá e dos EUA.

"Causas externas" em segundo lugar das causas de morte

Representante da Secretaria de Vigilância à saúde do Ministério da Saúde, Débora Malta informou que ocorrem 27 mil mortes por “causas externas” no Brasil por ano, e que em alguns lugares este fator ocupa o segundo ou terceiro lugar entre as causas de óbito. Ela disse que já existem 130 núcleos de prevenção da violência no Brasil e diversas experiências de gestão local para conter mortes evitáveis e afirmou que ações articuladas, em rede, são efetivas para a redução das causas.

Fernando Rocabaldo, da Opas, defendeu mais investimentos em políticas intersetoriais. “Se os problemas são de ordem social, as soluções também devem ser. A saúde deve agir sobre determinantes sociais”, afirmou.

O secretário de Saúde do Rio de Janeiro, Sérgio Cortes, pediu uma “grande intervenção social no país, concreta, que saia dos planos”, contando com a participação de especialistas de várias áreas de forma integrada.

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Intitulada “Violência: uma epidemia silenciosa”, a edição número 15 do Conass Documenta, publicação do Conass (arquivo PDF), traz estatísticas recentes do problema. O Brasil apresentou uma taxa bruta de mortalidade por homicídios de 25,8 óbitos por 100 mil habitantes em 2005.

Considerando-se somente o número absoluto de óbitos informados ao Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde (que correspondem à “ponta do iceberg”, uma vez que o número de pessoas vitimadas, muitas vezes com seqüelas, é muito maior), houve em 2005 um total de 47.578 óbitos por homicídio, 35.994 mortes pela violência no trânsito e 8.550 suicídios (número provavelmente subestimado). Estes números correspondem a aproximadamente 130 óbitos por homicídio, 99 por acidentes de trânsito e 23 por suicídio a cada dia. A soma destes números, 252 óbitos diários, é superior às mortes causadas por um acidente de avião.

Ainda segundo o levantamento, a maior taxa de mortalidade está concentrada na faixa etária que vai de 20 a 39 anos, com 47,9 óbitos por 100 mil habitantes desta mesma faixa. A taxa observada entre adolescentes de 15 a 19 anos foi de 38,7 homicídios por 100 mil. A maioria destes óbitos foi causada por disparo de armas de fogo: 33.419 óbitos, ou 69% do total. Em seguida vêm os homicídios por arma branca (objetos cortantes ou penetrantes), com 7.392 mortes (16%), e objetos contundentes, com 2.208 (5%).

De acordo com o "Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros 2008", lançado pela Rede de Informação Tecnológica Latino Americana (Ritla) em parceria com o Instituto Sangari, o Ministério da Saúde e o Ministério da Justiça, entre 1979 e 2003, morreram mais de 550 mil pessoas vítimas de armas de fogo. "A partir de 2003, as taxas começam a cair ano a ano. Se entre 2003 e 2004 a queda foi de 5,5%, no ano seguinte foi de 2,8%, e em 2006, de 1,8%."

Ainda segundo o estudo, elaborado pelo pesquisador Julio Jacobo Waiselfisz, a taxa brasileira de mortes por armas de fogo é de 19,3 óbitos em 100 mil habitantes. O trabalho analisa a mortalidade causada por homicídios em geral, com foco especial nos homicídios juvenis, por acidentes de transporte e por armas de fogo.

Saiba mais:

Íntegra do levantamento "Violência: uma epidemia silenciosa" (arquivo em PDF)

Íntegra do "Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros 2008" (arquivo em PDF)

Violência como uma questão de saúde

Artigo de Luciana Phebo

Em outros sites:

Conass

Comentários

Após ler o conteudo de

Após ler o conteudo de violência e saúde, gostaria de parabenizar o Dr Osmar por tratar a violência como um problema de saúde publica.                                                                        Resido próximo a tres comunidades carentes e tenho contato com as crianças destas comunidades, tenho ouvido e visto este tema a cada dia com o relato dado por elas. Sei que o governo tem feito o máximo para eliminar esta violencia, más os integrantes da comunidade precisam de uma oportunidade para mudar este quadro, muitos tem vontade de mudar a sua história e buscam através do carinho do dialogo que temos para tentar modificar o quadro familiar. Estamos nos esforçando para ajudar o governo a mudar esta história.   

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