Autodidatas do rock

A banda Missionários do Rock nasceu em terreno infértil: um presídio no Rio de Janeiro. Do Complexo Penitenciário Frei Caneca, implodido há um ano, saíram os Missionários do Rock, que há oito anos faz música dentro e fora das grades.

Paulo Giovani, vocalista, está em liberdade condicional desde agosto e no primeiromission_edit.jpg show após a conquista do direito, que aconteceu no Teatro Odisséia, na Lapa, fala da importância da música enquanto esteve preso. “Se eu não acreditasse na música e na banda, estaria fazendo coisas erradas. Nossa ideologia é fazer algo pelo sistema penitenciário e contra a violência fora dele”, afirma. O show serviu para arrecadar fundos para a Caravana Liberdade e Expressão, que leva música e literatura para presídios e casas de custódia no Rio de Janeiro.

Paulo passou 14 anos no Frei Caneca, acusado de latrocínio. Com 34 anos, ele se espanta com a mudança no perfil dos que entram no sistema penitenciário, segundo ele cada vez mais novos. “Quando entrei, com 19 anos, eu era um dos poucos dessa idade. Hoje eles são a maioria dos que chegam e os moleques novos são inconseqüentes, chegam na embriaguez do sucesso. Na maioria das vezes os mais jovens são descontrolados, por serem muito jovens mesmo”, lamenta.

Um banquinho e um violão

Os Missionários do Rock nasceram da força de vontade dos detentos. Sem equipamento de som, instrumentos, aulas de música ou ambiente propício, André Cabral (guitarra), Paulo Giovani (vocal) e Luciano Wanderley (baixo) se reuniram para “levar um som.” Depois de um festival de música no próprio Frei Caneca, os integrantes da banda decidiram levar a sério o que estavam fazendo e começaram a divulgar o trabalho.

“Nunca tinha feito um som na vida. Comecei a fazer voz e violão com o André e tocávamos muito Legião Urbana, nossa maior influência. A partir daí começamos a criar arranjos e a banda foi ganhando sua própria forma”, conta Paulo.

A banda perdeu Luciano, que morreu em setembro de 2004, executado junto com o traficante de drogas José Carlos dos Reis, o Escadinha, mas cresceu e ganhou novos integrantes.

ricardo_melo_edit_fim.jpgO atual baterista da banda, Ricardo Melo (foto), que também é bacharel em Direito e ajuda seus companheiros de música com questões legais, conta que foram os amigos e Arthur Nogueira, produtor da banda, que tornaram o sonho dos Missionários possível.

“A ajuda de fora viabilizou a banda, contribuiu para que os músicos pudessem ter uma estrutura mínima”, lembra. “Ganhar a confiança da administração do presídio foi também essencial para que a banda continuasse seu caminho.”

Em um universo cheio de tristezas a relatar, os Missionários escolheram a poesia. Com um rock romântico e letras que falam das coisas simples da vida como namoro, saudade, cotidiano, é impossível não se surpreender com as letras da banda. “A culpa é de Nietzsche e Carlos Drummond de Andrade”, brinca Ricardo.

Fotos de Ciça Bertoche retiradas do site http://www.avecreeew.blogspot.com/ 

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Dentro do cárcere, a cultura liberta a mente

Comentários

É motivo para muita

É motivo para muita comemoração o êxito no processo de ressocialização do apenado. O veio romântico musical é apenas um dos diversos talentos que se encontram encarcerados no País. Uma política cultural de emancipação poderia libertar mentes e almas que se encontram por trás das grades do Sistema Penal. Ainda é possível acreditar que o ser humano pode mudar para melhor! Mas para isso, o Sistema Penal precisa olhar cada detento à luz da dignidade humana.

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