Por um jornalismo que promova os direitos humanos
ENTREVISTA / Marco Lara Klahr
"Um jornalismo profissional que favoreça o respeito aos direitos humanos, o Estado Democrático de Direito, a cultura da legalidade e a paz, só será possível transformando as rotinas de produção industrial das notícias e profissionalizando os jornalistas que as escrevem". É o que prega Marco Lara Klahr, coordenador do projeto Mídia e Violência do Instituto para a Segurança e Democracia (Insyde) do México.
Em entrevista ao Comunidade Segura, Klahr explica como funciona o projeto, que promove práticas que estimulam processos de profissionalização de executivos e jornalistas de empresas de mídia no que se refere a conteúdos sobre segurança pública e justiça penal, com valores democráticos e respeito aos direitos humanos.
Como nasceu o projeto Mídia e Violência do Insyde?
O projeto surgiu em 2004 poucos meses depois da fundação do Insyde. Eu e Ernesto López Portillo Vargas (diretor executivo da organização) o criamos depois de uma série de reuniões onde refletimos sobre como a mídia trata os fatos ligados a segurança pública, justiça penal, violência e outros temas nos quais está implicada a noção de direitos humanos.
Qual foi a abordagem adotada?
Desde o início, concordamos que não se tratava de reafirmar o olhar "midiafóbico" que caracteriza as organizações da sociedade civil quando analisam o comportamento dos meios de comunicação e seus conteúdos. Nosso objetivo foi estudar, problematizar, documentar, sistematizar e difundir o tema - que chamamos de forma genérica de mídia e violência -, assim como criar ferramentas de caráter metodológico e técnico aplicáveis na produção de conteúdos informativos, treinando os jornalistas para usá-los (diretores, editores e repórteres).
Quais são os fundamentos em que o projeto se baseia?
No tocante ao jornalismo propriamente dito, nosso projeto se inspira em três correntes de grande alcance global: o jornalismo cívico, o jornalismo de paz, e o chamado new journalism.
Esses paradigmas jornalísticos aportam um conjunto de delimitações conceituais, técnicas e éticas que conseguimos resumir e converter em pautas viáveis. Quanto ao âmbito normativo, defendemos o exercício de um jornalismo tranversal e que respeite a promoção das garantias constitucionais, dos direitos humanos e do direito internacional humanitário (no caso de conflitos armados internos ou internacionais).
Na visão do Insyde, o que determina um bom jornalismo?
Basicamente propomos um jornalismo profissional que favoreça o respeito aos direitos humanos, o Estado Democrático de Direito, a cultura da legalidade e a paz, e que só será possível transformando as rotinas de produção industrial das notícias e profissionalizando os jornalistas que as escrevem. Também acredito na nossa contribuição para transformar a cultura de consumo noticioso dos cidadãos.
Como o projeto contribui?
O projeto está dividido em quatro linhas de ação:
a) Mesas onde acadêmicos, ativistas sociais e jornalistas trocam experiências (já realizamos quatro);
b) Seminários dirigidos principalmente a jornalistas que cobrem segurança pública, justiça penal e polícia (realizamos sete encontros e vamos fazer mais três ainda este ano);
c) A coleção "Mídia e violência" que tem três volumes: "Segurança pública, notícias e a construção do medo", "Repórteres de polícia" e o mais recente "Proposta ibero-americana de jornalismo policial", coordeandos por Ernesto López Portillo Vargas e eu;
d) Conferências direcionadas a estudantes de jornalismo ou de comunicação, jornalistas, grupos da sociedade civil, acadêmicos, policiais, profissionais de comunicação. Já realizamos mais de 100 conferências em países como Holanda, Brasil, Peru, América Central, Estados Unidos e por todo o México;
e) Entrevistas em veículos de comunicação para falar sobre o tema. Já demos mais de 100 entrevistas no México, América Central e do Sul e Estados Unidos.
Como tem sido a recepção por parte da mídia e da sociedade em relação às publicações do projeto?
Criou-se uma expectativa muito maior em relação ao terceiro volume porque falamos no assunto durante os três últimos anos. Os jornalistas estão agora muito mais receptivos do que no início. Prova disso é que o terceiro livro apenas começou a circular e já realizamos várias apresentações por todo o país depois do lançamento na Cidade do México. Estamos recebendo diversos pedidos de doação de exemplares e novas apresentações. Tudo isto é sinal de que estamos no caminho certo, eu suponho.
Como é feita a distribuição deste material e para qual público?
Graças ao nosso ativismo, conseguimos distribuir milhares de exemplares da coleção a jornalistas e estudantes de jornalismo, acadêmicos, ativistas sociais e servidores públicos no México, Estados Unidos, Canadá, América Central, Peru e Holanda.
Poderia falar um pouco sobre o conteúdo das publicações?
O primeiro volume do "Mídia e violência" contém um conjunto de reflexões sobre a maneira como se constrói a notícia e reúne as questões levantadas na primeira mesa de segurança pública e meios de comunicação, da qual participaram jornalistas, acadêmicos e ativistas sociais, que são os próprios autores dos ensaios.
O volume 2 reúne as questões da segunda mesa, para a qual foram convidados repórteres mexicanos de várias gerações e com visões diferentes sobre o exercício da profissão para debater o problema e os desafios que enfrentam. Em particular, oferece um conjunto de pautas para um jornalismo profissional originadas nas próprias intervenções da mesa.
O "Mídia e violência 3" traz ensaios de jornalistas conceituados com trajetória acadêmica na Argentina, Brasil, Colômbia, El Salvador, Espanha e México. Cada autor propôs um tema sobre o qual exista uma discussão em curso em seu país. Graças a um protocolo estabelecido pelo Insyde e assinado por todos os autores, os textos têm uma uniformidade. São amenos mas também obedecem a um rigor metodológico e terminam sugerindo pautas. Esse volume tem apresentação de Ginger Thompson, uma grande repórter investigativa do The New York Times.
Saiba mais:
Jornalismo pela infância na Argentina
Mídia de El Salvador unida contra a violência
Em outros sites:
Mídia e Violência - Insyde (em espanhol)






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