A polícia brasileira tem fama de violenta. A cada ano, organizações nacionais e internacionais divulgam estudos que apontam sistemáticas violações de direitos humanos pelas instituições policiais no Brasil. De acordo com o relatório de 2007 da organização Human Rights Watch, “a violência policial – incluindo o uso excessivo da força, execuções extrajudiciais, a tortura e outras formas de maus-tratos – persiste como um dos problemas mais sérios de direitos humanos no Brasil”.
De janeiro a setembro, foram mortas, em média, quatro pessoas por dia no estado do Rio (dados do Instituto de Segurança Pública), num total de 961 autos de resistência (quando o policial atira porque o suspeito resistiu) – número 19% maior do que no mesmo período do ano passado. E isso porque a estatística só conta os registros das Delegacias Legais, as únicas totalmente informatizadas. Ao mesmo tempo em que aumentaram as mortes, diminuíram as prisões – uma queda de 23% em relação a 2006.
Os atos de violência cometidos por policiais mostrados em “Elite da Tropa” não são, portanto, propriamente uma novidade. As cenas de tortura policial e extermínio que o filme de José Padilha mostrou trouxeram à tona uma aparente aprovação do público à tortura e outras violações de direitos humanos. Além do escárnio dentro do cinema, não é difícil encontrar manifestações de apoio aos métodos do Batalhão de Operações Especiais (Bope) retratados na tela grande.
Criminalização das minorias
Para Vera Malaguti Batista, socióloga e secretária-geral do Instituto Carioca de Criminologia (ICC), a aprovação da tortura e outras violências como métodos de combate ao crime pode ser observada sob uma perspectiva histórica. “Como diz o Joel Rufino dos Santos, dos mais de 500 anos de nossa história, apenas 100 foram sem escravidão”, cita.
Passados cinco séculos, a questão dos direitos humanos no Brasil ainda passa por um momento delicado, afirma Cecília Coimbra, presidente do Grupo Tortura Nunca Mais. Mesmo depois de iniciativas como a emenda constitucional n°45/2004 – que leva para a esfera federal os crimes contra os direitos humanos – e a criação do Comitê Nacional de Prevenção da Tortura. “Existem idéias muito boas, mas que, lamentavelmente, a gente não vê acontecerem na prática”, afirma. Cecília diz que o momento histórico atual é de generalização de uma doutrina de “tolerância zero”, de criminalizar as minorias.
Para ela, portanto, não é por acaso que as violações aos direitos humanos se perpetuem no Brasil. “Todo mundo sabe que existe tortura; todo mundo sabe onde se tortura; todo mundo sabe quem tortura. Por que isso não muda? Porque não há vontade política para tanto”, afirma. No entanto, ela ressalva que não são apenas as autoridades que negligenciam a questão. “Infelizmente, a reação de uma parte do público ao ‘Tropa de Elite’ demonstra que a tortura tem apoio desses setores”, lamenta.
Vera Malaguti acredita que o crescente medo e saturação da violência por parte da classe média contribuem para essa naturalização da truculência. “O medo construído se encarrega de neutralizar os escrúpulos; foi assim com a Inquisição e com o nazismo; tem sido assim nas rígidas hierarquias sociais do nosso continente”, compara.
"Tropa de Elite elogia a violência"
A socióloga acredita que “Tropa de Elite” nada faz para mudar esse pensamento. Ela considera, pelo contrário, o filme um elogio à violência. "Adota-se a mesma forma de criar uma pretensa neutralidade narrativa ao mesmo tempo em que se tem nas cenas de violência a sua principal mercadoria. As cenas mais chocantes do filme têm músicas e técnicas de cinema que produzem um ‘gozo’ com o sofrimento do outro, além da teoria do único caminho possível, que é a tônica da cobertura da grande mídia e do filme”, afirma.
Não é só ela que pensa assim, e quem discorda também não está sozinho. Desde a primeira exibição pública do filme – no dia 20 de setembro – o debate anda quente. Dois dias após a estréia, o jornalista Arnaldo Bloch escreveu em sua coluna no O Globo que o diretor do filme “assumiu, de maneira sistemática, acrítica e quase pedagógica” o ponto de vista dos torturadores. Logo foi respondido pelo também jornalista Artur Xexéo. “O chocante é a platéia”, escreveu ele. Semana passada, o Grupo Tortura Nunca Mais também entrou na discussão, afirmando que o filme banaliza e fortalece a tortura e o extermínio.
Desde o início da polêmica, o diretor José Padilha e outros membros da equipe de “Tropa de Elite” deram inúmeras entrevistas e declarações negando que a obra prega a violência policial. Segundo Padilha, a tortura é denunciada e não exaltada, e o objetivo é justamente provocar o debate.
Contudo, para Vera Malaguti, adotar um discurso técnico e neutro não adianta. “A reação do público mostrou que quando o assunto é violência e segurança pública, a ambigüidade conduz ao extermínio. Temos que nos posicionar sem medo da opinião pública”, acredita.
Duas cidades, dois discursos
“Ih, esculachou o moleque!” e outros comentários com entonações sarcásticas são ouvidas na platéia. Num cinema da Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, o estudante de cinema Raphael Amorim, 23 anos, ficou chocado com a reação da platéia ao filme. “Onde eu assisti, a reação foi até pequena, perto do que ouço por aí, como urros de aceitação e comemoração. Mas o pior mesmo foi ouvir risos durante as cenas de tortura; é algo que torna tudo bem mais nojento”, conta. Para ele, é desesperador ver no filme uma polícia “com tendências psicopatas”, e, na platéia, uma sociedade que aprova tudo isso.
Dagmilson Gomes, um engenheiro carioca de 58 anos, é uma dessas pessoas. Ao ser perguntado sobre como reagiu às cenas de tortura do filme, responde com naturalidade: “Normal, acho que deveria ser sempre assim mesmo. Afinal, a bandidagem faz coisa pior, e se não for assim, eles não vão respeitar a polícia. Eles devem temer a polícia”, diz. Ele acha que a criminalidade deve ser tratada exatamente como é no filme, “e daí pra pior. Porque o momento atual é de guerra”, explica.
Do outro lado da “guerra” citada pelo engenheiro – dentro das favelas –, a imagem de herói da polícia cai por terra. Adriana, 17 anos, moradora da Rocinha, faz questão de insultar o Bope – a tropa de elite da PM – repetidas vezes, e relembra: “Um dia eu estava curtindo o baile numa boa e tive que sair correndo desesperada; eles chegaram atirando, sem a menor noção”.
Exceções – como o estudante de cinema – à parte, as respostas das pessoas entrevistadas para essa reportagem foram muito parecidas: quanto mais “distante” das favelas era a realidade do entrevistado, maior a aprovação da brutalidade policial.
Para Rafael Silva, que tem 21 anos e é auxiliar de escritório, aplaude o Bope quem não sofre na pele a violência. “Essas pessoas não sabem o que é o ‘caveirão’ chegando na sua rua e aterrorizando todo mundo”, diz.
Saiba mais:
Elogio da tropa ou esculacho da elite?
Em outros sites
‘From burning buses to caveirões’: the search for human security (em português)
Capítulo sobre o Brasil no relatório de 2007 da Human Rights Watch
Em artigo ao Globo, Wagner Moura diz que 'Tropa de elite' não é fascista
Cobertura do blog Repórter de Crime, de Jorge Antônio Barros, sobre o filme e o Bope
Vídeo do debate realizado pelo “Repórter de Crime” sobre o filme e o Bope, no blog do Bope
Candidatos ao Bope elogiam 'Tropa de Elite' (O Dia)
E Tropa de Elite chegou aos jornais - Carla Rodrigues
Tropa de Elite: Fascista, não! - José Luís dos Santos
Globo.com: Rodrigo Pimentel, roteirista de 'Tropa de Elite', revela bastidores do filme
Tropa de Elite, pirataria e quem financia o tráfico - Pedro Dória
Balanço das Incidências Criminais e Administrativas no Estado do Rio de Janeiro - ISP








Comentários
O nome é Lyana e não
O nome é Lyana e não Layla. Sr. João, já que é tão bem dotado de ideais moralistas, poderia ler o artigo e criar sua própria opinião. Afinal o link "comentários" possui esta finalidade básica.
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