'Cada sociedade tem a polícia que merece'

“Os dados mostram que o que deveria ser segurança pública acaba sendo guerra”. Referindo-se ao número de mortos em “auto de resistência” entre janeiro e junho deste ano no Rio de Janeiro – 694 civis e 16 policiais -, a coordenadora de projetos do Instituto de Segurança Pública (ISP) do estado, Lana Lage, condena as incursões violentas da polícia nas comunidades dominadas por traficantes. A pesquisadora afirma que a expressão “guerra contra o crime” é perigosa, porque iguala a polícia aos infratores.

Lana.jpgDe acordo com Lana, entretanto, a violência policial reflete um desejo da sociedade. Levantamentos feitos por ela no Globo Online mostram que a grande maioria das cartas enviadas por leitores é favorável ao fortalecimento da polícia de confronto.

“Cada sociedade tem a polícia que merece”, concluiu a historiadora, após discorrer sobre o caráter repressor histórico da polícia no Brasil num debate promovido segunda-feira (22), pela Revista de História da Biblioteca Nacional na própria Biblioteca, no Rio.

“As violações não são só praticadas pela polícia, que exerce violência física e letal, mas por todas as instituições, da escola ao hospital, que são discriminatórias e autoritárias”, completou.

No mesmo evento, o coronel reformado da PM Jorge da Silva, ex-secretário estadual de Direitos Humanos, criticou o que chamou de “política de terra arrasada” e a sua demanda pela sociedade.

“Ao ser reconhecido numa casa de shows após uma incursão policial numa comunidade pobre que deixou 19 mortos, o secretário de segurança foi aplaudido pelo público. Como se pode comemorar a morte de dezenas de brasileiros?”, questionou. Ele acrescentou que é um atentado lógico achar que acabando-se com os traficantes acabam com o tráfico, como se não existisse uma fila de jovens para substituir os mortos.

Violência e corrupção policial: irmãs siamesas

jorgedasilva1.jpgSubcomandante-geral da PM entre 1991 e 1994 e presidente do ISP de 2000 a 2002, Jorge da Silva disse que inibir a corrupção e a violência é o grande desafio dos dirigentes policiais. Segundo ele, uma polícia violenta é necessariamente corrupta. "Violência e corrupção policial são irmãs siamesas”, frisou.

Ele defende a conscientização dos policiais e dirigentes de que o Estado não pode agir com ódio. Isso só será possível, diz, com um treinamento forte, para que o policial compreenda que quanto mais raiva mais risco, tanto para ele quanto para os outros.

Vitimização policial

De acordo com Jorge da Silva, quem adota práticas desastradas coloca policiais em risco e exerce uma violência simbólica do Estado contra seus próprios agentes. A seu ver, a alternativa a esse modo de agir é o uso de inteligência policial.

“Os procedimentos adotados levam necessariamente a mortes, mas falam de inteligência. Inteligência com o uso de fuzil e metralhadora? Então burro sou eu”, ironizou.

O militar acrescentou que não se melhora a segurança com o reforço dos instrumentos repressivos e criticou o fato de o governo cortar verbas da educação para investir mais na segurança. A seu ver, o foco está errado.

Ele defendeu como alternativa o conceito de “segurança humana” da ONU, que tem foco no ser humano, e não no patrimônio, e o de paz positiva, construída através de um movimento de integração da sociedade que leve a relacionamentos pacíficos entre as pessoas. Ele acredita que assim haverá menos mortes, “desde que o valor de todos os seres humanos seja o mesmo”.

Novas etnias

Para o coronel, que é cientista político com pós-doutorado em Antropologia Política e Jurídica e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), a sociedade está formando novas etnias: uma de pessoas de comunidades pobres - sejam brancas, negras ou nordestinas - e outra, com identidade branca, que aplaude as mortes.

Questionado pela platéia sobre qual seria a etnia dos policiais, Jorge da Silva foi direto: “Policial que se identifica com o poder tem identidade branca. Um preto retinto embranquece quando bota a farda e a carteira de policial.”

O coronel, que é negro, explicou que, na sua visão, etnia não tem a ver com cor, mas com condições sociais: “Branco que mora na favela é negro. Negro que mora em apartamento e tem televisão de 34 polegadas é branco.”

Para ele, o modelo oligárquico permanece na cabeça das pessoas que se consideram barões, príncipes e princesas, enquanto os outros seriam seus vassalos. “A República no Brasil ainda não foi proclamada. Temos duas etnias e o que está acontecendo é um efeito bumerangue dessa irracionalidade”, disse.

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Comentários

Violência e Corrupção Policial

Finalmente, li um comentário racional. Ã? fato q ambos estão interligados, onde a corrupção policial fortalece o tráfico e por conseqüência o tráfico prolifera pela força e poder adquirido. Qto a sociedade brasileira é preciso haver acima de td uma mobilização organizada onde teria uma intervenção no País em um só objetivo de mudar para caminhar, nossos filhos, netos, famílias ñ terão seqüência de vida desta forma. Enquanto a população ñ se conscientizar que o PODER Ã? DO POVO, nada mudará, afinal nada mudou vamos mudar. Essas incursões são de repressão e rebeldes sem causa, por isso pergunto: "Como essas armas chegaram à comunidade" ? E as fronteiras ? Ã? preciso atacar a causa e ñ o efeito. Forte abraço à tds, por um Brasil consciente.

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