'Violência é só violência'
ENTREVISTA/ Erinma Bell

"A violência é somente violência, e nós a vemos exatamente assim", afirma Erinma Bell, diretora da ONG Carisma e ativista da luta contra a violência armada e contra o estereótipo negativo que domina os jovens negros da comunidade Moss Side, na cidade de Manchester, Inglaterra. "Uma coisa que descobrimos é que ninguém nasce mau."
A abordagem e a preocupação de Erinma Bell em relação à violência armada a levou - e a seu marido Raymond - a fundar a Carisma, Aliança Comunitária pela Renovação, cujo slogan é "a vida pode mudar para os jovens". Nos últimos cinco anos a organização liderou marchas pela paz, oficinas em escolas locais e ajudou a criar parcerias onde antes existia desconfiança. "Havia falta de confiança na polícia e muitos homicídios ficavam sem ser solucionados, o que contribuía para fortalecer os estereótipos negativos nas comunidades às quais a polícia deveria servir. Isso mudou, agora eles atendem aos chamados mesmo quando não há emergência."
Citada no livro "Heróis de todo dia", criado pelo primeiro ministro britânico Gordon Brown, lançado em julho deste ano, Bell também viu a Carisma receber o Prêmio da Rainha pelos Serviços Voluntários. Mas, apesar dos prêmios, dos vários patrocinadores e financiadores, o ativismo na Carisma é voluntário, uma batalha travada desde sua fundação. A organização é comandada pelos membros da comunidade que, como Bell, têm filhos adolescentes e, em particular, garotos. "Nós defendemos os nossos tanto quanto os outros e queremos alertar para o perigo de se envolver com a violência armada", afirmou Bell, em entrevista exclusiva ao Comunidade Segura.
Como é viver em numa comunidade afetada pela violência armada?
Para falar a verdade, apesar de termos um problema com a questão da violência armada, a maioria de nós tem uma rotina normal e segura. Nós nos preocupamos com a violência e vivemos com um certo medo, mas eu não sinto que eu ou um dos meus seremos os próximos. Nós não nos identificamos com as armas nem as vemos como um ícone da moda.
O que as pessoas devem fazer para preservar suas comunidades?
Como pessoas de bem, nós temos que lutar contra a violência armada e contra o crime mesmo que sejam nossos vizinhos, amigos ou familiares que estejam cometendo esses crimes. Nosso papel é encorajar uns aos outros a nos mobilizar e falar sobre o crime.
Como é a relação da polícia com a comunidade?
Há cinco anos, eu estava preocupada com a falta de confiança que as pessas tinham na polícia local e a falta de um trabalho de parceria. Não existia confiança ou respeito mútuo. As pessoas não acreditavam na polícia e isso resultou numa falta de comunicação com os policiais sobre crimes graves, o que, por sua vez, levou a muitos homicídios ficarem sem solução.
E como a polícia encarava a comunidade?
A polícia sentia receio de entrar nas nossas comunidades por causa da violência armada e acabou se formando estereótipos negativos sobre as comunidades em que a polícia deveria supostamente estar servindo. Tudo isso me preocupava.
Existe um canal formal para trazer a comunidade mais para perto da polícia?
O governo estimulou a polícia a formar os Grupos de Conselheiros Independentes (Independent Advisory Groups - IAGs). Os grupos são formados a partir da escolha de membros da comunidade e da polícia onde a comunidade age como crítica em relação à forma de policiamento da comunidade. Como Carisma, nós encorajamos os membros da comundade a participar dos IAGs e precebemos que a relação entra a polícia e a comunidade melhorou bastante. A polícia hoje freqüenta a comunidade o tempo todo, não somente quando há uma emergência. Isso é ótimo.
O seu trabalho na Carisma mudou a forma como a senhora encara a violência?
A violência é simplesmente violência e é assim que nós a enxergamos. É um ato injusto exercido por uma pessoa em relação a outra. Uma coisa que percebemos é que ninguém nasce mau. Nenhum jovem acorda um dia de manhã e decide que vai pegar uma arma e matar alguém. São as circunstâncias e o meio que cerca esses jovens que os levam a cometer atos violentos. Além disso, são os adultos que ensinam esses jovens a ser o que são. Como adultos, somos modelo para nossos filhos. Portanto, eles não podem ser completamente culpados pelos crimes que cometem.
Quais são as maiores dificuldades do seu trabalho?
A maior dificuldade no nosso trabalho é a falta de orçamento de longo prazo - gerado por nós mesmos ou via financiamento do governo ou outra organização pública ou privada. Outra dificuldade é conquistar pessoas comprometidas em trabalhar conosco. Se nós pudéssemos pagar essas pessoas provavelmente elas ficariam. Mas o que eu mais gosto é que entre os nossos membros temos adolescentes, principalmente meninos, e isso nos faz ir em frente. Porque nós queremos defender os nossos tanto quanto os outros dos perigos de se envolver com a violência armada.
Qual é a importância de ver seu trabalho reconhecido pelo governo?
Nosso maior reconhecimento este ano foi o fato de termos recebido o Prêmio da Rainha por Serviços Voluntários (The Queen’s Award for Voluntary Service). Isso é importante para nós pois significa que temos o selo real de aprovação pelo trabalho que temos realizado e continuaremos a relizar.
Eu também fui condecorada pelo primeiro ministro Gordon Brown como uma das "Heroínas de todo dia da Inglaterra" (Britain’s Everyday Heroes) e me encontrei com ele em Londres durante o lançamento do livro em julho.
O que significa ter seu perfil no livro do ministro Heróis de todo dia?
No livro, o ministro afirmou: "O que mais me causou impacto em relação a Erinma foi a forma como ela canalizou sua raiva e suas preocupações sobre a vida em Moss Side, não para o medo, mas para o trabalho, oferecendo visões alternativas para os jovens da sua comunidade e mostrando a eles que sua vida poderia ser diferente."
E disse mais: "Erinma é um poderoso modelo na sua comunidade em muitos aspectos. A forma como ela vive é importante para conquistar o que está tentando assim como os diversos projetos e campanhas em que trabalha."
A que outras organizações a senhora está associada? A Carisma é uma organização religiosa?
Apesar de a maioria das pessoas envolvidas na coordenação ser cristã, a Carisma não é uma organização religiosa pois queremos que ela sirva a toda comunidade. Nós temos algumas organizações associadas. Por exemplo, a Territorial Army nos incluiu na lista de organizações que recebem doações deles, o que significa que eles repassam 30% de tudo o que recebem como financiamento para nós.
O Conselho Municipal de Manchester apóia tudo que fazemos. Junto com a polícia, eles nos ajudam e, na maior parte das vezes, financeiramente. Mais recentemente, recebemos apoio da Granada Television, da Co-operation Foundation, da John Lewis Superstore, da Universidade de Manchester, do Museu de Manchester e da Agêcia de Saúde Negra que concordaram em se associar a nós. Nós também trabalhamos em parceria com a Universidade de Salford.
O seu trabalho se articula em redes, atinge outros grupos?
Além de todos os parceiros que mencionei, nós trabalhamos com muitos grupos locais como, por exemplo, Mães contra a violência, Estados Unidos de Wythenshawe e os Pastores das ruas de Manchester. Nós também nos associamos a grupos que têm atuação nacional com base em Nottingham, Liverpool, Birmingham e Newcastle.
O que a senhora diria para as pessoas que vivem em situação semelhante em outros lugares do mundo?
Eu diria que eles precisam perceber que é normal uma minoria causar problemas. A maioria das pessoas que vive em comunidades ou áreas urbanas são bons cidadãos - obedecedores da lei. Mas, ao mesmo tempo, nós temos que lembrar as palavras de Edmund Burke: "Para que o mal triunfe, basta que as pessoas de bem não façam nada".
Como a senhora vê o futuro?
O futuro é promissor. Eu vejo a minha comunidade e Manchester como um lugar onde respeitamos uns aos outros e onde os jovens se amem pelo que são. Um lugar onde cada um ensina ao outro e todos assumem a responsabilidade pelas suas ações e também por tudo a que expusemos nossos jovens.
Saiba mais:
Contra a violência e o preconceito, Carisma
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