Falar de legalização das drogas parece não ser mais um problema. A expressão ‘sair do armário’ foi utilizada por Ignácio Cano, do Laboratório de Análise da Violência (LAV), durante o seminário Descriminalização das Drogas e Direitos Humanos, promovido pela Secretaria de Direitos Humanos de Niterói na Universidade Federal Fluminense (UFF) na última semana. O pesquisador afirma não ter mais problemas em assumir posicionamento favorável à legalização das drogas.
Defendida abertamente pelo governador do estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e mencionada como estratégia de redução da violência, a legalização das drogas ainda é assunto que engatinha, mas se apresenta como uma via possível no Brasil.
Segundo Cano, ainda que já se fale do tema, há um longo caminho a ser percorrido para que se transforme em política pública. “O Brasil é signatário de tratados internacionais de combate às drogas que não permitem uma mudança na lei. Ainda assim, é possível adaptar medidas adotadas, por exemplo, pela Holanda, que criou uma norma administrativa que torna flexível a legislação sobre drogas sem ferir acordos internacionais”, diz.
Para Luciana Boiteux, doutora em Direito Penal pela Universidade de São Paulo (USP) e membro do conselho consultivo da Rede Brasileira de Redução de Danos e Direitos Humanos (Reduc), a atual política de drogas brasileira reforça o modelo de criminalização da pobreza ao não diferenciar o pequeno traficante – que, no caso do Rio de Janeiro, fica nas favelas - do grande traficante. “É uma forma de manter o controle penal sobre a miséria”, afirma a advogada, que alerta para o fato de que 53% dos presos estão nessa condição por conta de crimes ligados a drogas.
Repressão
A lógica de repressão em nível local não é uma idéia original. Internacionalmente, a estratégia é parecida. Como no caso do Plano Colômbia, são os países da América do Sul os que mais sofrem as conseqüências da guerra contra as drogas.
Segundo o Relatório Mundial de Drogas 2007 (pdf) do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crimes (UNODC), 50% das apreensões foram feitas em países da América Latina e Caribe, enquanto América do Norte e Europa Central representam 28% e 14% das apreensões, respectivamente.
Rogério Rocco, advogado e mestre em Direito da Cidade, afirma que, historicamente, a preocupação com o uso de drogas surge quando a violência associada à venda atinge aos ricos. “O tema ganhou notoriedade mundial quando os conflitos relacionados ao tráfico extrapolaram as fronteiras de áreas pobres”, avalia.
No Brasil, a história é parecida. Até 1938, quando o Decreto-lei 891 finaliza um processo paulatino de criminalização das drogas, o uso era mal visto entre os ricos, mas considerado crime quando flagrado em guetos e bairros populares da capital federal, na época o Rio de Janeiro.
O agravante é que o processo histórico desencadeou uma associação explosiva entre o tráfico de drogas e o tráfico de armas. “Legalizar as drogas não reduziria imediatamente os índices de violência, mas tiraria do poder do tráfico recursos importantes para a compra de armas, por exemplo”, analisa Cano.
Balança comercial das drogas
Para o pesquisador, é contraditório que ninguém se escandalize com o lucro da indústria das armas, mas sim com o do tráfico de drogas. “Parece que matar outras pessoas não tem problema, mas matar a si mesmo sim”, ironiza.
Se é verdade que a ilegalidade das drogas impede contabilizar de forma precisa os lucros provenientes de sua venda, o relatório de 2005 do UNODC estima que o tráfico mundial de drogas movimente cerca de US$ 380 bilhões por ano.
Segundo dados do Small Arms Survey, os países que mais importam armas no mundo chegam a gastar, cada um, US$ 100 milhões ao ano, e nesta conta não entram as transferências ilegais.
Com moderação
Luciana Boiteux, no entanto, defende um modelo no qual as drogas não estão necessariamente associadas à morte. “É preciso trabalhar com um ideal de moderação e não de abstinência. Quanto mais tiramos o foco do controle penal, mais o desviamos para o da saúde pública”, afirma.
Cano reforça o coro: “Nem todo consumo é necessariamente negativo e a abstinência não é sempre a melhor estratégia”, diz, com o argumento de que é possível também fazer o uso lúdico da droga.
Segundo Leonardo Brandão, subsecretário de Direitos Humanos de Niterói, a legalização das drogas poderia romper com a espiral de violência que, no caso do município, se concentra nas áreas onde está o grosso do comércio de drogas: as favelas. “A atuação da polícia nas comunidades de Niterói é pautada por uma série de estereótipos agregados à questão das drogas”, afirma. “Acredito que a legalização, com a reversão dos lucros para políticas públicas, poderia prevenir em nível local a corrupção policial e a violência.”
Saiba mais:
Drogas e violência na América Latina: uma equação mal resolvida
Em outros sites:
Small Arms Survey (em inglês)
Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime








Comentários
bem, o tema tem sido um
bem, o tema tem sido um grande tabu a demasiado tempo..e legalizar a droga nao implica chegar a decadencia mas sim prevenir mais mortes, evitar mais presos e violencia. tudo em excesso faz mal, tabaco, alcool, chocolate, gorduras, cannabis, cocaina portanto acho qe s houvesse um controlo mensal, anual ou ate mesmo semanal do consumo de droga tudo ia correr "bem". no entanto, nunca esqecer as penas aos nao cumpridores da lei qe se estipulasse
Enviar novo comentário