(Não) Fale Conosco

pm404_p.jpgObjeto não encontrado, erro 404. O mais antigo, o mais fatal. Quem trabalha com internet sabe que acontece nas melhores famílias. Mas é muito chato ser pego no erro, bem sei.

Pois, acreditem, dei esse flagrante no site da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro na terça-feira, 18 de setembro. Uma semana depois, dia 26, o erro continuava lá. Primeiro cliquei na opção Relações Públicas no menu. 404. Tentei Assessoria de Imprensa. Mesma coisa. Clique Denúncia, idem. Enfim, captei a mensagem: “Não fale conosco”.

O incrível é o simbolismo do fato. Porque, como repórter que cobre segurança pública, tenho essa experiência em outras mídias também: telefone, e-mail... A impressão é que não há ninguém do outro lado. Recados telefônicos não são retornados, e-mails ficam sem resposta. O site da PMERJ está em construção há um tempo inadmissível para a internet, o que indica que não é visto como um serviço de comunicação ao qual o cidadão tem direito.

Tentei falar com o assessor de imprensa chefe e adivinhem o que (não) aconteceu...

Telefone do Museu da PM

Essa atitude – ou falta de - não é exclusividade da PM do Rio: acontece em órgãos públicos em todo o Brasil. Algumas áreas funcionam melhor do que as outras, mas a Segurança não está entre elas, e nem a Justiça. A falta de transparência histórica ainda prevalece sobre as teorias e discursos de integração com a sociedade.

No caso da PMERJ, há expectativa de mudanças. Segundo o tenente-coronel Antonio Carlos Carballo Blanco, que está à frente da Assessoria Técnica de Assuntos Especiais da PMERJ, existe realmente a necessidade de se reformular o site da PM do Rio e isso ocorrerá num futuro próximo. "Temos planos de criar novas ferramentas de relacionamento que vão permitir uma aproximação da polícia com a comunidade. Hoje, temos um serviço de atendimento ao cidadão que é feito pelo telefone e por um treiler volante, mas queremos levar isso para a internet, permitindo, inclusive, que o cidadão faça denúncias pelo site", conta.

Carballo informa também que, entre outras novidades, o site da PM do Rio terá uma biblioteca virtual com todo o acervo da Polícia Militar acessível à população. Mas o projeto ainda está no início e não há um cronograma estabelecido. É esperar para conferir.

Já na Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro (Seseg) – que, nesse governo, assim como outros órgãos estaduais, mudou de sigla e de endereço na internet - o esforço de mudanças já começou. Recentemente, o site foi reformulado e melhorou muito, em design e conteúdo.

Mas, apesar da profissionalização, um ponto ainda acusa certo descaso: o e-mail usado pela assessoria de imprensa é um Gmail, isto é, um e-mail do Google, e não do órgão oficial. Diz-se que é porque funciona melhor. Acredito. Mas o poder público tem que entender que internet é coisa séria: o cidadão comum, o líder comunitário, o pesquisador, o jornalista, todo mundo tem direito a um e-mail timbrado, com assinatura e endereço oficial @seseg.rj.gov.br. E o sistema tem que funcionar, isso é básico hoje em dia.

Conversei a respeito dos sites da segurança pública com o jornalista Jorge Antonio Barros, editor adjunto da editoria Rio do jornal O Globo e autor do blog Repórter do Crime no Globo Online. Ele contou que, para fazer um levantamento, mandou um e-mail para todas as secretarias de Segurança Pública que tinham site perguntando sobre a divulgação online das estatísticas da criminalidade. Só uma respondeu e poucas no Brasil o fazem.

Primeira máquina de escrever da PMPara Barros, esse primitivismo digital não é uma falha exclusiva das secretarias de Segurança, mas sim uma falta de visão dos governantes sobre e-gov, o governo que por meio eletrônico presta serviços ao cidadão. “Não se leva a sério essa questão. Falta uma política eficiente de internet”, critica. No caso das polícias, ele acredita que o problema é agravado pela forte centralização das informações, já que todos têm medo de falar.

Barros elogiou a melhora do site da Seseg, que vem divulgando as estatísticas na medida em que ficam prontas, e valorizou o fato de a nova página dar bastante destaque aos canais de denúncia e reclamação, que os sites das polícias muitas vezes escondem.

Mané Java

Vida dura essa de repórter, voltei à saga de navegar pela segurança pública online no Brasil.

Para ver as estatísticas no site da secretaria gaúcha, tive que baixar um programa – Java – todo em inglês. Só baixei porque já conhecia o programa e entendi que aquele linkezinho embaixo do menu à esquerda poderia me permitir acessar o sistema, já que não há tal explicação na página.

O pior é que, quando finalmente pude consultar as estatísticas, descobri que elas só me mostram os dados até dezembro de 2006, e separadamente, por mês e tipo de ocorrência, sem permitir visão de conjunto. Ora, ora...

ssp_RS.jpgMe pergunto se outros cidadãos menos habituados à internet iriam entender que para aparecer alguma coisa no quadrado na página seria preciso fazer um download. E se entendessem, será que teriam coragem ou paciência de fazê-lo? Em resumo, a secretaria não poderia facilitar o acesso do cidadãos aos dados disponibilizando-os em gráficos e tabelas facilmente visualizáveis, compreensíveis e copiáveis?

A política de comunicação desta secretaria é deveras curiosa. Aos e-mails, não respondem. No entanto, os jornalistas cadastrados no sistema de avisos de pauta recebem cerca de dez (!) mensagens por dia, com registros de delitos, apreensões e prisões em todo o estado. O clima é de “vejam, estamos trabalhando aqui no faroeste”.

Os sites da Secretaria de São Paulo e das suas polícias Militar e Civil de SP são bons em forma e conteúdo, mas não achei em nenhum deles contatos de assessoria de imprensa.

maquinafot1921.gifTentei Minas, conhecida por ter um dos sistemas de segurança pública mais avançados do país por sua gestão integrada. O site da Secretaria de Defesa Social é antiquado, merece urgentemente uma atualizada. Mas me satisfez no primeiro clique: achei, no Fale Conosco, três telefones da assessoria de comunicação, um telefone geral e um formulário de contato. Já o segundo clique foi menos satisfatório. Em Boletim de Informações Criminais, a informação mais recente é de junho de 2005.

Buscar informações ou contatos em sites de órgãos de segurança pode ser uma aporrinhação, mas a navegação não é de todo frustrante. Alguns sites trazem muitas notícias, informações sobre programas e fotos. No site da PM de São Paulo, no link A Corporação > Vultos Históricos, encontrei biografias interessantes de militares do passado, com retratos dos heróis em seus uniformes de época. No site da PM baiana, muitas fotos bonitas ilustram as matérias. 

E, por fim, o site da PMERJ também me fez um pouco feliz. Pude conhecer o acervo do Museu da Polícia Militar, de onde tirei as fotos que ilustram esse texto e que nos fazem pensar se não está na hora de mudar conceitos.

Fotos do Museu da PMERJ

Comentários

Falta de respostas

Cara repórter,“Ã? coisa tão natural o responder que até os penhascos duros respondem, e para as vozes têm ecos. Pelo contrário, é tão grande violência não responder que os que nasceram mudos fez a natureza também surdos, porque se ouvissem e não pudessem responder, rebentariam de dor.” Pe. Antonio Vieira Costumo inserir no final das mensagens eletrônicas que envio o texto acima, de autoria do grande orador Pe. Antonio Vieira. A intenção é dizer de forma subjetiva: tenham vergonha na cara. O descaso com o cidadão não acontece apenas nos lugares citados na reportagem. Tente manter contato por correio eletrônico com algum parlamentar em qualquer nível, seja federal, estadual ou municipal. Resolvi testar minha condição de cidadão, e enviei um correio eletrônico para todos os senadores e deputados federais. Recebi apenas duas respostas. Uma deputada de São Paulo, e uma senadora do Rio Grande do Sul. Tentei novamente, agora com o aviso de que o remetente solicita uma resposta de que o correio foi aberto ou lido. Todos sem exceção foram deletados. Parti então para os estaduais. Nada de resposta. Por fim os nossos vereadores. Também nada. Concluiu que como cidadão só existo na hora do voto, depois sou devidamente ignorado. Penso até em entrar na justiça solicitando a dispensa da obrigatoriedade do voto, devido ao descaso. Quem sabe assim, assutasdos, nossos parlamentares passem a dar satisfações de seus atos aos eleitores. A Internet, cara repórter, tornou-se uma verdadeira dor de cabeça para os poderosos principalmente os políticos. Ainda não é usada de forma contundente, mas logo, logo chegaremos lá.

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