Cidadãos cariocas mapeiam crime em seus bairros

Apelido: SerHumanoPessoa - 28/8/2007 - 9:57

Voltando a falar do Méier... corre na boca miúda que o Méier (os dois lados da linha do trem: Rua Getulio e o Lins) está sendo invadido pelas milícias.

Deixa eu adivinhar... O Comandante do Méier nem está sabendo de nada?!?! Adivinhei???

Pois é... mas o povo, que anda nas ruas, anda de carro, de ônibus e é assaltado todos os dias, que ouve de suas casas o tiroteio (que é cada vez mais comum), tudo sabe e tudo vê.

Menos a força policial, que devia nos proteger. eles não. Eles nem sabiam que tinha assalto no Méier.

Será que ninguém faz B.O. por essas bandas??

Apesar do tom furioso, o comentário acima faz parte de um movimento pela paz: a campanha "Envie os mapas de crime de sua área", promovida pelo jornalista Jorge Antonio Barros, autor do blog Repórter de Crime, no Globo Online, e editor adjunto da Editoria Rio do jornal O Globo.

A campanha comprova duas coisas: a eficácia da web 2.0 – aquela em que os usuários constróem juntos a inteligência - e a viabilidade da segurança cidadã, que tem como base a participação comunitária no planejamento e garantia da paz urbana.

Barros contou ao Comunidade Segura que em apenas três dias foram enviados 128 e-mails e a audiência do blog quintuplicou. "Os leitores enviam e-mails com queixas e indicações de lugares perigosos no bairro onde moram ou trabalham. Eu listo todos os problemas, acrescento informações sobre a região e embrulho para presente", explica.

O jornalista disse que a idéia nasceu praticamente junto com o blog há dois anos, mas ainda não tinha nome. "Eu publicava as ‘Queixas do povo’, com reclamações de locais inseguros. Mas um dia recebi um e-mail de um leitor da Tijuca e resolvi publicar como mini-mapa de crime. A intenção foi responder também a um leitor da Tijuca que entrou no blog e me perturbou muito, negando que o bairro estivesse mais policiado, como eu havia escrito. Eu fiz o mapa pensando em agradar a esse cidadão, mas acabei agradando todos os leitores", conta.

Os mapas que repercutiram mais foram, nesta ordem, Méier, Ipanema, Tijuca, Vila Isabel e Grajaú (confira as regiões na imagens abaixo, retiradas do Portal Geo, da Prefeitura).

Tijuca, Vila Isabel e Grajaú

mapa_tijuca.jpg

Mesmo com tanta audiência e participação, Barros diz que quer mais: "O município do Rio tem mais de 150 bairros e este blog só conseguiu até agora mapear os locais de crime em apenas 13 bairros", afirma em sua página. Ele avisa que a campanha acaba nesta semana e que estão em andamento os mapas de Lagoa, Humaitá, Bonsucesso e Ilha do Governador, além de um pacote da Zona Norte. O jornalista ressalta que recebeu todo apoio do Globo Online na campanha.

X-9???

De acordo com Barros, mais do que informar às autoridades policiais, que já têm seus mapas de crime baseados nas estatísticas de registros de ocorrência, a proposta da campanha é mobilizar a sociedade para o problema, levar as pessoas a refletirem sobre a necessidade de cuidar do espaço público e trocarem informações que contribuam para melhorar os níveis de segurança em seus bairros.

"Infelizmente as pessoas estão céticas, mas parecem acreditar apenas que a solução para o problema da violência virá dos poderes constituídos", lamenta. Ele contou no blog que, num grupo de amigos, ouviu a seguinte provocação: "Eu não mando mapa de crime nenhum porque não sou X-9". A expressão, no jargão policial, quer dizer informante, alcagüete, delator.

Mas Barros contesta: "Os bandidos sabem que X-9 na verdade é o apelido dado a quem circulou entre os criminosos, comeu no mesmo prato e depois foi contar tudo para a polícia. Isso, sim, é delação e traição. Quem estiver de mãos limpas tem que fazer o seu papel, que é denunciar o crime, seus métodos e áreas de atuação, para que a sociedade toda exija maior produtividade, metas e resultados para os planos de ação da polícia", escreve, com todas as letras.

Ipanema

mapa_ipanema.jpg

Barros lamenta que só os delegados e comandantes de batalhão tenham acesso aos dados de crime dos bairros. Segundo ele, a Secretaria de Segurança está trabalhando em um geoprocessamento mais eficaz de incidência criminal online com base no registro de ocorrências policiais das delegacias e batalhões, e que seja acompanhado até mesmo pelos cidadãos.

Para ele, o mapa ideal seria aquele que unisse o da polícia com o da sociedade, devido ao alto índice de subnotificação. "Por isso, os mapas de crime do cidadão são de grande utilidade, embora pareçam uma idéia simples. Acredito que esse tipo de iniciativa pode ajudar a criar uma nova geração de mapas de violência, que seria o resultado da sobreposição dos mapas com queixas e os mapas oficiais", argumenta.

Secretário de Segurança e comandante da polícia apóiam

Apoio moral à iniciativa não falta. Na última sexta-feira (24), num evento no batalhão do Méier, o jornalista obteve, pessoalmente, do secretário de Segurança, José Beltrame, e do comandante-geral da PM, coronel Ubiratan, manifestações de apoio incondicional à campanha. Segundo Barros, o coronel Ubiratan ressaltou a importância da participação da sociedade fornecendo informações à polícia, mas frisou que essas informações devem ser as mais precisas possíveis, sem exageros.

O comandante do Batalhão do Méier, tenente-coronel Marco Alexandre, também manifestou a Barros seu interesse pelas informações do mapa do Méier, mas observou que algumas informações são antigas ou distorcidas.

Ao Comunidade Segura, ele contou estar reportando os pontos indicados no mapa do Méier para levantamento, mas explicou que alguns dos problemas apontados já foram sanados e que outras informações são falsas. Mesmo assim, o oficial diz ter certeza que os mapas só ajudam em seu trabalho. "Sempre falo nos Cafés Comunitários que comando só se faz com informação tanto do público interno quanto externo. O olho da polícia não é como o do morador. Ele pode ajudar a mudar a forma de policiamento", disse, acrescentando que uma das medidas a serem tomadas no Méier é a volta do policiamento a pé - as duplas de policiais conhecidas como "Cosme e Damião".

Méier

mapa_meier.jpg

Barros ainda recebeu apoio do promotor de Justiça Eduardo Campos. Para o promotor, a participação popular é fundamental para que a polícia atue com mais eficácia na luta contra o crime.

Clique aqui para saber como fazer um mapa de crime de sua área.

Saiba mais:

Polícia e comunidade: palavra de ordem, integração

Em outros sites:

Repórter de Crime

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