Muito mais policiais morrem em folga
Mais de 80% dos policiais mortos este ano e durante o ano de 2006 estavam de folga. De acordo com a Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro, dos 76 policiais mortos em 2007 até o dia 14 de agosto, 62 estavam de folga e 14 em serviço. Em 2006, dos 152 policiais militares que morreram, 123 estavam em folga e 29 em serviço. No ano anterior, a proporção foi semelhante: dos 137 policiais mortos, 112 estavam de folga e 25 em serviço. Já em 2004, o número de mortos em serviço foi bem maior: 52, do total de 167, representando mais de 31%.
Os números absolutos do Instituto de Segurança Pública (ISP) sobre policiais mortos são diferentes dos da PM, mas as proporções entre mortos em folga e em serviço são similares, como se verifica nos gráficos retirados do Boletim mensal de monitoramento e análise de dezembro de 2006. A série histórica de policiais militares mortos em serviço apresentou uma tendência de crescimento de 2000 a 2004, seguida de queda no ano de 2005. Enquanto em 2004, 50 policiais militares morreram durante o serviço, no ano de 2006 ocorreram 27 mortes, representando uma redução percentual de 46%. Entretanto, ao se comparar os anos de 2005 e 2006, observou-se um aumento de 12,5% no total de policiais mortos em serviço.

Em relação aos policiais militares mortos em folga, a tendência de queda começa em 2003, mantém-se estável nos anos de 2004 e 2005, e apresenta um pequeno aumento em 2006. Nos anos de 2004 e 2005 ocorreram 111 mortes, em 2006 morreram 117 policiais militares em folga, o que representou um aumento de 5,4%.
A circunstância de morte de 55,6% dos policiais militares mortos em serviço durante 2006 foi o confronto armado. A ação de marginais, situação em que não há tempo para reação do policial, ocasionou a morte de 37% desses homens. Acidentes de trânsito mataram 3,7% policiais.
Já a circunstância da morte da maioria dos policiais militares mortos durante o período de folga no em 2006 foi a ação de marginais, com 58,1% do total. Acidentes de trânsito vitimaram 12%. Roubo em coletivos ocasionaram a morte de 2,6% e outras circunstâncias totalizaram 27,4% das mortes em folga.

Oito mortos no limbo entre os bancos de dados
Enquanto a PM registra 152 policiais mortos em 2006, o Instituto de Segurança Pública (ISP), órgão de pesquisa da Secretaria de Segurança Pública, contabilizou 144, segundo o boletim de dezembro de 2006, que traz os totais do ano. Quando questionada sobre a diferença, a assessoria do ISP recomenda utilizar nos números da PM.
A disparidade pode ser atribuída em parte ao fato de quem nem todos os policiais morrem imediatamente após o ferimento, entrando nas estatísticas da PM posteriormente, quando as tabelas do ISP já estão fechadas. Mas esta é uma conclusão da reportagem.
Suicídios mascarados
Algumas pesquisas já foram feitas na tentativa de se entender que motivos levam às mortes de policiais em folga. No estudo "Informações e Vigilância Epidemiológica para a Segurança do Policial Militar do Estado do Rio de Janeiro", elaborado pelo Viva Rio em 2005 com dados de 1995 a 2005, são estudados três tipos de mortes comuns a policiais: acidente de trânsito e atropelamento; auto-lesão acidental por arma de fogo; e roubo a coletivo (ônibus, trem, van). Os resultados deste e outros estudos foram apresentado à CPI sobre a morte de policiais da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro pelas antropólogas Jacqueline Muniz e Haydée Caruso. Jacqueline enfatizou que a PM perde, por ano, de 2% a 3% do seu efetivo.
A pesquisadora revelou que um dado que costuma ser mascarado como auto-lesão acidental é o número de suicídios, que seria seis vezes maior na PM do que no resto da população. Segundo ela, a informação é omitida para que as famílias não percam o acesso aos benefícios. Ainda de acordo com Jacqueline, o alto índice de acidentes de carro estaria relacionado ao abuso de álcool e psicotrópicos para se manter acordado e alerta. No caso do roubo a coletivo, o problema seria a reação solitária do policial, com desfecho trágico para ele.
No artigo "Policial, risco como profissão: morbimortalidade vinculada ao trabalho", publicado em 2005 na revista Ciência e Saúde Coletiva, as pesquisadoras Maria Cecília de S. Minayo e Edinilsa Ramos de Souza, do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli, da Escola Nacional de Saúde Pública (Claves/Ensp), da Fiocruz, afirmam que as principais causas de morte, lesões e traumas de policiais se devem a agressões e a acidentes de trânsito, o que coincide com a vitimização dos demais trabalhadores do Brasil hoje. Porém, essas causas ocorrem com freqüência muito maior em agentes de segurança do Rio de Janeiro, e em especial policiais militares.
Comparativamente, a Polícia Militar apresenta taxas de mortalidade por violência 3,65 vezes maiores do que a da população masculina da cidade do Rio de Janeiro e 7,2 vezes a da população geral da cidade. Comparando-se com o Brasil, as taxas são 7,17 vezes as da população masculina e 13,34 vezes as da população geral. O risco de morte entre policiais militares é também maior do que entre os agentes dos outros órgãos de segurança: chega a ser 6,44 vezes o da Guarda Municipal e 1,72 vezes o da Polícia Civil.
As internações hospitalares por acidentes e violências também são bem mais freqüentes entre policiais do que no restante da população. A taxa de morbidade hospitalar da Polícia Militar em 2000 foi 92,9 vezes maior que a da população geral da cidade e 27,3 vezes a da população masculina do Brasil. Foi ainda duas vezes maior do que a taxa da Guarda Municipal.
De acordo com as pesquisadoras, um elevado percentual de policiais tem um segundo emprego na área de segurança privada (de banco, patrimonial, de grupos, de pessoas), continuando assim a usar o tempo livre com atividades de risco elevado. Outro motivo se deve à presença dos policiais, como cidadãos, em cenas de conflitos em bairros, em bares e em transportes quando, por via de sua função, acabam se envolvendo. Muitos, também, são vítimas de emboscadas de delinqüentes.
Para as especialistas, as conclusões do estudo indicam a necessidade de estudos e de propostas de ação efetivas que tornem os trabalhadores da segurança pública menos vulneráveis. "A maioria das medidas para diminuir a vitimização passa por propostas de modernização dos seus processos de trabalho, das estratégias de sua atuação e dos equipamentos de produção dos serviços. Mas referem-se também a políticas que promovam a diminuição da criminalidade e a mudanças na cultura de oposição entre policiais e cidadãos", afirmam.
Para Edinilsa Ramos, é preciso melhorar as estratégias de proteção e prevenção aos riscos e agressões, através de treinamento e capacitação profissional. "Quando em folga, o policial precisaria se envolver menos em atividades que põem em risco sua vida, como, por exemplo, trabalhar como segurança privada, o que é bastante comum, e infelizmente o coloca isolado e em risco de sofrer agressões muitas vezes fatais", acrescenta.
Saiba mais:
Mortos pela profissão – Reportagem no site Viva Favela.
"Policial, risco como profissão: morbimortalidade vinculada ao trabalho" - Artigo publicado na revista Ciência e Saúde Coletiva.
Boletim mensal de monitoramento e análise do ISP – Dez/2006 - Dados sobre mortes de policiais. Arquivo PDF.








Comentários
policiais mortos na folga
A minha opinião é a seguinte, os policiais são assassinados nas folgas, é porque os salários são baixo,vão se dedicar ao segundo emprego para que se tenha uma vida mais humana.
morte de policiais
todas as autoridades competentes, fecham os olhos para este assunto mais podem apostar que quando a criminalidade vitimar um deles ou um de seus familiares, estas autoridades vão acordar, espero que não seja tarde demais como está acontecendo no estado do rio de janeiro.
Agradecimento
Gostaria de agradecer pela reportagem publicada. Trabalho atualmente na elaboração de um relatório sobre suicídio entre policiais e, de fato, o tema é um tabu. As publicações nacionais sobre o tema são escassas e as instituições infelizmente ainda não estão dispostas a liberar os dados. Sem dúvida, iniciativas como essa são o primeiro passo para o enfrentamento da questão.
Para os interessados, sugiro também a dissertação da policial militar de Minas Gerais Geralda Eloisa Gonçalves Nogueira, “ANÁLISE DE TENTATIVAS DE AUTO-EXTERMÍNIO ENTRE POLICIAIS MILITARES: UM ESTUDO EM SAÚDE MENTAL E TRABALHO”, defendida do PPG de Psicologia da UFMG em 2005.
Atenciosamente,
Laura Zacher
suicídio de policiais - monografia
Olá,
o suicídio entre policiais é o tema do meu trabalho de monografia, mas estou encontrando dificuldades para obter dados e publicações sobre o tema. Se puderem me enviar alguma coisa, fico grata. Gostaria até mesmo da dissertação da policial militar de Minas Gerais, pois não estou encontrando-a na internet.
Desde já, obrigada.
Theresa Raquel
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