Pernambuco conta seus mortos
O Mapa da Violência 2007, divulgado em fevereiro pela Organização dos Estados Iberoamericanos (OEI), provou com números: Pernambuco é o estado mais violento do Brasil. Segundo os dados do mapa, a taxa de homicídios em 2004 foi de 50,7 por 100 mil habitantes. Levando-se em conta uma população de cerca de 8 milhões de habitantes, os dados apontam uma média de 11 pessoas assassinadas a cada dia, número que coloca o estado em primeiro lugar no catastrófico ranking.
Ainda assim, os números alarmantes podem não refletir com exatidão a realidade. No ar desde maio de 2007, o blog independente PE Body Count aponta hoje 1.203 homicídios no estado, o que reflete uma média aproximada de 12 mortes por dia desde que o site começou a fazer a contabilidade. “Ainda que os índices de violência sejam altos, temos certeza de que existe subnotificação. Queremos mostrar a dimensão real da violência aqui”, afirma Eduardo Machado, jornalista e um dos idealizadores do blog.
Machado integra uma equipe de cinco jornalistas que atualizam diariamente os números da violência no estado a partir de informações fornecidas por uma rede de fontes, confrontadas com as estatísticas divulgadas por órgãos oficiais.
O site não está vinculado a nenhum veículo de informação. Machado frisa que é apartidário, sem fins lucrativos e que o apoio financeiro que recebem ajuda a bancar despesas básicas, como telefone, internet, imprescindíveis para a apuração detalhada dos incidentes relatados pelas fontes.
A inspiração veio de contadores semelhantes, como o Rio Body Count, que aponta os homicídios na cidade do Rio de Janeiro, e o Iraq Body Count, que também faz a triste estatística do conflito no país. Mas a equipe do contador pernambucano vai além: como jornalistas, os autores do blog não apenas reportam as informações que chegam até eles, mas verificam os fatos e produzem material opinativo sobre segurança pública no estado. “Nem tudo que vem de nossas fontes se torna uma verdade. São pontos de partida para checarmos e confirmarmos os fatos com as fontes oficiais”, explica Machado.
O PE Body Count não é apenas um blog de jornalistas que contam mortos. O site tem parceria com o Instituto Carlos Escobar (Iace), organização da sociedade civil que reivindica mais planejamento estratégico na redução dos índices de violência em Pernambuco. “O Iace catalisou o sentimento da população, a indignação com os índices de violência. Fazemos pressão por melhorias nas políticas públicas, mas buscamos alternativas para a segurança”, diz José Carlos Escobar, presidente do instituto. “Não queremos fazer apenas denúncias, mas também proposições”, esclarece.
Apesar da seriedade do projeto e do cuidado com a veracidade das denúncias, iniciativas semelhantes ao contador pernambucano costumam ser alvo de críticas por parte do órgãos oficiais de produção de estatística. Mas Machado não poupa palavras em retribuí-las. “Transparência nunca foi o forte de nosso governo atual, nem do anterior. O blog permite que os dados fiquem disponíveis online e para quem quiser acessá-los”, afirma.
Escobar enfatiza que a iniciativa também contribui ao trazer os dados com maior agilidade que qualquer outro meio: jornais ou planilhas produzidas por governos. “Há dificuldade em disponibilizar os dados em tempo real, o que o PE Body Count faz. Apesar de algumas divergências em torno dos números, hoje em dia vemos que estão mais próximos dos que são fornecidos pela Secretaria de Defesa Social (SDS)”, afirma o presidente do Iace.
Apesar da contestação de dados, os fatos mostram que a sociedade civil organizada e a produção independente de dados surte efeito. Segundo Machado, a pressão feita pelo blog já causou a demissão da gerente de estatísticas da SDS. “Certa vez a secretaria divulgou que uma morte havia sido ocasionada por atropelamento. Verificamos e descobrimos que a vítima havia sido atropelada por três tiros”, ironiza o jornalista.
O blog prepara agora uma nova forma de produzir conteúdo independente e confiável. A seção “Eu, vítima”, que entra em funcionamento em breve, pretende disponibilizar espaço para que cidadãos possam relatar situações de violência que tenham presenciado. “Muitas vezes a subnotificação acontece porque as pessoas deixam de dar queixa por conta da morosidade da polícia. Com isso queremos provar que existe subnotificação”, afirma.
Saiba mais:
Ações integradas e participação da sociedade
Em outros sites:
Mapa da violência 2007 (pdf)
Secretaria de Defesa Socal de Pernambuco






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