Nem todos os homens são iguais
Despertar homens jovens para um novo ideal de masculinidade que promova a eqüidade de gênero, valorize os cuidados com a saúde, a paternidade e o respeito à mulher. Esse é o objetivo do Porgrama H, desenvolvido pela ONG brasileira Promundo e aplicado em 15 países espalhados pelo globo, entre eles, Brasil, México, Bolívia, Colômbia, Jamaica, Peru, Índia, Tanzânia e, mais recentemente, na região dos Bálcãs, na Europa.
O Programa H foi concebido inicialmente para as realidades do Brasil e do México, mas sua metodologia acabou sendo adaptada para outros países como Índia e Tanzânia. “O Programa H nasceu com o pensamento de que sua metodologia pudesse ser levada em escala e reproduzida em qualquer local, quaisquer grupos e quantidade de pessoas, em diferentes idiomas”, explica Gary Barker, diretor-executivo do Promundo e um dos idealizadores do Programa H.
Segundo Barker, comportamentos machistas aumentam a exposição dos homens a situações de risco, conflitos armados, a adoção de comportamentos agressivos e de violência contra a mulher. As mortes violentas, seja em situação de conflito armado ou não, por exemplo, estão sempre relacionadas a homens jovens. De acordo com o Mapa da Violêcia 2006, os jovens são as maiores vítimas da violência armada, sendo que o Brasil ocupa a terceira posição entre 84 países em número de homicídios de homens entre 15 e 24 anos.
O Programa H incentiva homens jovens a questionar esses padrões de gênero rígidos e refletir sobre os custos para homens e mulheres de uma masculinidade violenta. “Faltando espaço e outros valores e atributos que dêem o sentido de ser homem, ser violento passa a ser uma forma de expressão, de dominação”, afirma.
Mas muitos homens já questionam os modelos mais rígidos e violentos de masculinidade. E são exatamente eles a peça fundamental para o sucesso do programa. De acordo com Barker, cerca de 30% dos homens – independente de classe social ou lcomunidade – acreditam numa versão de homem tradicional, rígido, às vezes violento.
O restante, ou seja, 70% dos homens, não usam ou não acreditam na violência como melhor forma de resolver conflitos. O Programa H vai buscar justamente os homens que se encaixam nesse tipo de perfil dentro das comunidades para liderar a implementação do projeto e atrair outros jovens.
O programa
O programa tem quatro componentes: trabalho em grupo, campanhas, redes comunitárias e avaliação de impacto. O trabalho em grupo é realizado sob a forma de oficinas e workshops onde o modelo tradicional de masculindade é questionada e repensada pelos jovens. Uma das atividades realizadas nessas oficinas é o “varal da violência”, em que os participantes escrevem em um papel algum tipo de violência que usaram ou viram e penduram em um varal. Depois, todos lêem o que todos escreveram.
“Normalmente”, afirma Barker, “eles percebem que as violências que os colegas cometeram são mais ou menos as mesmas que eles próprios cometeram ou vivenciaram e isso os faz refletir sobre a validade dessas violências”. O Promundo desenvolveu também um manual educativo e alguns vídeos para a realização das dinâmicas em grupo.
Outro componente são as campanhas que são concebidas, criadas e produzidas junto com os homens e jovens que participam dos grupos de trabalho. Exemplos de campanhas são a "Hora H", sobre ouso de preservativos, veiculada no Brasil; e a "JPeg" (Jovens pela Eqüidade de Gênero) sobre a construção da igualdade dentro do casal, veiculada na Índia e no México. O Promundo também assessora campanhas em Uganda e nos Bálcãs e é parceiro de várias ONGs na Campanha do Laço Branco. Em todas as campanhas, segundo Barker, o questionamento é sempre apresentado de forma positiva, nunca impositiva.
Os outros dois componentes são a formação de redes e os relatórios de avaliação de impacto que são aplicados antes, durante, depois da realização das oficinas e, sempre que possível, retomado após um período de seis meses a um ano. Segundo Gary Barker, os resultados já são sentidos logo após o fim do programa mas consolidados algum tempo depois. “Em termos de atitude vemos uma mudança significativa que é perene. Em algumas comunidades, essa mudança é ainda mais forte um ano depois, pois eles têm mais tempo para amadurecer e pôr em prática os conceitos”, explica.
No geral, as áreas que mostraram mais mudanças foram a questão da paternidade, Aids, uso de preservativo e procura de serviços de saúde. Com relação à violência contra a mulher, de acordo com Barker, os resultados são menos aparentes, mas também existem.
Em uma das comunidades avaliadas pelo Promundo no Rio de Janeiro, o uso de camisinha entre os jovens após a participação no programa aumentou de 58% para 87%. Em relação à vida familiar, a pesquisa mostrou também que o percentual de homens que apoiavam a afirmação de que “o papel mais importante de uma mulher é cuidar da casa e cozinhar” caiu de 41% no pré-teste para 29% depois do programa.
Em entrevistas realizadas após as oficinas, os jovens relataram como sua participação os tinha ajudado no questionamento sobre masculinidade. Um deles disse: "... eu aprendi a conversar mais com a minha namorada. Agora eu me preocupo mais com ela...é importante saber o que as outras pessoas querem, escutá-las. Antes (das oficinas), eu me preocupava apenas comigo mesmo".
Índia
Mas foi na Índia, de acordo com os estudos de avaliação de impacto, que os resultados foram mais significativos. Naquele país, segundo Barker, o domínio dos homens sobre as mulheres é muito forte e o grau de violência contra as mulheres é muito alto, por isso o impacto é mais dramático.
O trabalho na Índia fica a cargo da ONG Coro For Literacy, em parceria com o Population Council. O programa, batizado de Yaari-dosti que quer dizer vínculo entre homens em hindu, começou com uma pesquisa feita com homens jovens de comunidades de baixa renda em Mumbai. Segundo Ravi Verma, do Population Council, o obejtivo da pesquisa era avaliar a construção da masculinidade e suas ligações com a violência. “Nós nos deparamos com as similaridades dos resultados encontrados em diversas culturas; culturas que estão separadas umas das outras como Brasil e Índia. Assim começou a convergência com o Programa H”, conta Verma.
O programa está sendo implementado em três comunidades de baixa renda em Mumbai e em áreas rurais na região de Uttar Pradesh. Até agora, cerca de 2.300 homens jovens e 750 mulheres jovens participaram dos grupos educativos e 100 mil pessoas foram expostas às campanhas comunitárias.
“Aqueles que participaram do programa se mostraram mais dispostos a confrontar seus colegas nos casos em que testemunharam violência sexual e também ficaram mais atentos às práticas sexuais seguras do que aqueles que não participaram das reuniões em grupos”, conta Verma.
No México o programa foi encampado pelo governo e o Programa H virou material oficial do Ministério da Saúde mexicano. Foram impressas 10 mil cópias do material com o selo do governo.
Segundo Gerardo Ayala, da ONG mexicana Salud y Genero, a metodologia está sendo aplicada por profissionais da saúde que trabalham com jovens em seis estados - Chiapas, Baja Califórnia Sur, Sonora, Distrito Federal, Veracruz e Querétaro - e já atingiu cerca de 10 mil jovens. "A forma como temos difundido e implementado o Programa H no México é muito diversa e pretende ser massiva. Temos aproveitado o trabalho e a experiência prévia de saúde e gênero desenvolvida no país", explica.
Nos anos 70 as mulheres queimaram sutiãs e começaram a questionar o seu papel na sociedade. Será que já não é hora de os homens reverem seus ideais de masculinidade e se darem ao direito de realizar tarefas consideradas “femininas”, como cuidar dos filhos? Para muitos, sim. “O masculino também é complexo e não dá para dizer que todos os homens são iguais”, conclui Gary Barker.
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Comentários
Nem todos os homens são iguais
Achei o programa interessantÃssimo, uma abordagem maravilhosa incidindo em um ponto essencial: a educação e dos homens. De regra, verifica-se trabalhos com as mulheres, meninas e não com os homens. PARABÃ?NS.
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