Tráfico faz explodir a violência no México

ENTREVISTA / Maureen Meyer e Roger Atwood

Ao menos 1.400 pessoas morreram no México desde janeiro de 2007 como conseqüência da violência gerada pelo narcotráfico, de acordo com o Escritório de Washington para Assuntos Latino-Americanos (Wola, na sigla en inglês). O relatório “Reformando as classes: a narcoviolência e a necessidade de reforma policial no México” (arquivo PDF), divulgado no fim de junho, revela que estes números superam os índices de 2006 e 2005, e adverte sobre um reflexo desta violência na fronteira com os Estados Unidos.

Para falar sobre a situação no México, o Comunidade Segura conversou por e-mail com Maureen Meyer e Roger Atwood, responsáveis pelo estudo da Wola. Eles explicam como o tráfico de drogas para os Estados Unidos e o tráfico de armas deste país para o México influenciam no agravamento da violência, que chegou a tal ponto que levou o governo de Felipe Calderón a ordenar operações conjuntas das Forças Armadas e da polícia nos estados considerados mais afetados pelo crime organizado.

Como classificariam a violência no México?

É preciso que se faça uma distinção entre a violência relacionada à delinqüência comum, que continua sendo uma preocupação da maioria da população, e a violência relacionada ao narcotráfico e o crime organizado, que aumentou nos últimos anos e que ganha maior cobertura nos meios de comunicação.

Como se explica que a violência tenha chegado ao ponto que chegou?

No que diz respeito à narcoviolência, há várias razões, incluindo as disputas entre os diferentes cartéis pelo controle das rotas de drogas para os EUA e de mercados locais de venda no México, além de disputas pelo poder dentro de cartéis distintos, após a captura de diversos chefes de cartéis nos últimos anos e a extradição de alguns para os EUA.

Qual é o papel do governo neste contexto?

A narcoviolência é também uma reação às operações implantadas pelo governo federal contra o narcotráfico. As operações anti-narcóticos podem piorar a violência sofrida pela população civil em curto prazo, e é vital que as autoridades levem isso em conta. Ou seja, as operações podem ter muitas justificativas, mas as autoridades e a polícia têm que estar preparadas para o fato de que podem causar um sério aumento na violência em geral, pelo menos a curto prazo.

A situação pode se agravar?

Enquanto houver luta pelo controle de hegemonia do mercado de drogas para os EUA e pelo controle das rotas para o país, o mais provável é que a violência vá continuar e possa piorar. Isto também está relacionado às ações do governo mexicano já que a detenção de membros dos cartéis também cria um vazio de poder e resulta em mais lutas violentas internas para ocupar estes postos de poder. 

Quais são as saídas para este cenário?

Enquanto houver demanda por drogas, sempre se buscarão maneiras de satisfazê-la. Ao mesmo tempo, enquanto o mercado permanecer ilegal, a violência e a corrupção continuarão sendo as vias principais de operação deste negócio lucrativo. O desafio é ver como reduzir o nível de violência e o dano que o tráfico de drogas causa à população.

Que ações poderiam ser tomadas?

A implementação de reformas nos sistemas de polícia e de Justiça poderia ajudar no enfrentamento de alguns dos problemas que facilitaram o tráfico de drogas e a violência no país. As autoridades mexicanas estimam que cerca de 70% das armas usadas pelo crime organizado vêm dos EUA. Por isso, há uma necessidade de se fortalecer as regulamentação das vendas de armas nos EUA para dificultar que sejam traficadas ilegalmente ao México.

Quais são os reflexos desta violência nos EUA? Ela já é sentida?

Os lugares mais afetados pela violência relacionada ao narcotráfico no México e o crime organizado têm sido os estados fronteiriços, como Arizona, Novo México e Texas.  Alguns dos recentes enfrentamentos entre os policiais e militares mexicanos e os cartéis de droga aconteceram em lugares próximos à fronteira com os EUA, como é o caso de Cananea en Sonora, a cerca de 50 quilômetros da fronteira com o Arizona. Também há notícias nos jornais sobre a existência de membros de diferentes carttéis em algumas cidades como Dallas.

Quais as conseqüências disso?

Uma conseqüência do aumento das medidas de segurança na fronteira com os EUA é que agora elementos do crime organizado se envolveram com o traslado de imigrantes ao país. Há casos no estado do Arizona de enfrentamentos entre um bando de coiotes (ou polleros) com um grupo de imigrantes e com outro grupo que quer seqüestrar os inmigrantes para pedir recompensa pela sua libertade. Estes enfrentamentos têm provocado tiroteios em cidades neste estado.

No Brasil também se discute a utilização do uso das Forças Armadas para conter a violência urbana. Como acham que isso deveria ser feito?

Acreditamos que no caso de México a decisão do presidente Calderón de envolver as Forças Armadas nas operações conjuntas foi compreensível, dado o nível de violência que há no país. Mesmo assim, como afirmamos no nosso documento sobre reforma policial no México, o uso das Forças Armadas para estas tarefas não deve substituir a longo prazo as reformas necessárias para fortalecer a Policía Civil. Os sistemas de Justiça e de polícia têm que funcionar para combater estes problemas.

Você acham que legalizar a droga pode eliminar a violência e a corrupção do narcotráfico? Como seria feita esta transição? E as pessoas e armamento que ficariam "sem função"?

Como organização, não tomamos posição sobre a legalização ou não da droga. Uma mudança dessa magnitude na política de narcóticos parece remota neste momento, ao menos nos Estados Unidos. A idéia de que algum tipo de legalização levaria a uma redução na corrupção e na delinqüência pode ser factível, já que a proibição de certas drogas claramente estimula a delinqüência. Mas as conseqüências reais dependeriam dos detalhes, do nível de regulação do governo, da existência ou não de um mercado negro e muitos outros fatores. 

(Traduzido por Marina Lemle)

Em outros sites:

Relatório “Reformando as classes: a narcoviolência e a necessidade de reforma policial no México” (arquivo PDF)

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