“Noventa e cinco por cento de todo o trabalho de ativistas de direitos humanos é paz negativa. Quero falar é sobre construção da paz, paz positiva, educação para transformação.” O recado é de Peter Lucas, fotógrafo e professor de Direitos Humanos na Universidade de Nova York, que está desenvolvendo um currículo sobre armas pequenas para ensino médio para um projeto de educação online da ONU, o UN Cyber School Bus.
Peter Lucas tem um interesse de longo tempo pelo Brasil, por ser a terra de Paulo Freire, “o santo patrono da paz positiva”, e pela Turquia, onde trabalha para a Fundação de História (Tarih Vafki), em Istambul, fazendo análises do material didático nacional e estudando violações dos direitos humanos.
Lucas – em voga no Rio pela curadoria da exposição “A última hora do verão”, com fotos de Ipanema nos anos 60 compradas num camelô - conversou com o Comunidade Segura sobre construção da paz e segurança humana. Para ele, as ferramentas certas para educação são capazes de mudar o mais rebelde dos adolescentes. Ideais nobres e técnicas simples combinam-se ao otimismo de Lucas – vide, por exemplo, o exercício do chocolate.
De onde vem o conceito de segurança humana?
É um conceito relativamente novo, que nasceu nos anos 90, nos grupos de trabalho da ONU. Ele veio depois e em seguimento aos grandes paradigmas da segurança da cena política do século passado, refletindo a raíz dos movimentos dos anos 60 e 70 contra o colonialismo, por direitos civis, da mulher, de gays e lésbicas, índios...
Então ela substitui abordagens antigas de segurança?
Não, é um novo ângulo mais abrangente e profundo do que a abordagem padrão da segurança. O movimento das mulheres é importante porque as trouxe para um campo em que o pensamento era dominado por um patriarcado, e esses atores falharam. Mas há espaço para outros pontos de vista estabelecidos também. Por exempo, no filme “Farenheit 911”, de Michael Moore, que encara tópicos de segurança como resultado de conflitos entre certos grupos, como a dinastia Bush e a monarquia saudita competindo em escala global pelo capital econômico. É um ponto de vista crítico marxista, mas ainda válido e necessário.
A ONU adotou a construção da paz (peace building) como um dos objetivos da manutenção da paz (peace keeping) e do fazer paz (peace making). Você pode explicar quais são as conseqüências disso?
Uma coisa que deve ficar clara é que para a comunidade de direitos humanos as três coisas são muito distintas. Manutenção da paz (peace keeping) significa mandar forças de segurança para controlar e prevenir conflitos. Fazer paz (peace making) engloba negociações, acordos, tratados etc. A construção da paz (peace building) é um assunto completamente diferente, não é uma questão de informação e conscientização, significa prover os meios e a capacitação necessária para se gerar uma cultura de paz. Significa a capacidade de mobilização pessoal. E também amor, cuidado, empatia e depende de um elemento fundamental: educação. Noventa e cinco por cento de todo o nosso trabalho como ativistas e defensores dos direitos humanos é paz negativa. Quero falar é sobre construção da paz, paz positiva, educação para transformação.
Você pode explicar o que fazem os 95%? O que é paz negativa?
O que fazemos a serviço dos direitos humanos tem muitos aspectos. Um é a identificação do problema. Atos violentos podem ser cometidos contra um grupo rotineiramente sem que alguém o aponte como um problema, como trabalho infantil, até que seja identificado. Depois a questão é regulamentada com normas, como a Convenção de Direitos das Crianças. O próximo passo é a representação, isto é, criar um filme sobre o problema, envolver a mídia etc. Finalmente você tem respostas que chegam de várias formas, você pode estar construindo um abrigo, criando um programa de mediação, desarmamento ou até provendo iluminação pública e pavimentação das ruas. Tudo isso é paz negativa, é uma reação, e é muito importante. Mas não estamos falando de um mundo que seja conectado com a paz: isso só vem através da educação, na linha do Paulo Freire.
Como Paulo Freire o influenciou?
Paulo Freire é o santo patrono da paz positiva, ele tem uma influência revolucionária na educação e na visão que nós temos da educação como trabalhadores dos direitos humanos. O trabalho dele tem mais influência sobre a educação informal do que sobre a formal, que tende a despolitizar o conhecimento. Nós vamos na outra direção. Queremos ver os seres humanos desenvolverem empatia, amor e a habilidade de se automobilizar, ser crítico e resolver problemas. É uma questão de ver o copo meio cheio. Os sindicatos novaiorquinos, por exemplo, usam Paulo Freire em seus cursos voltados para imigrantes. Eles estão imbuídos do espírito transformador dele.
Como você lidaria com um grupo de adolescentes imersos na cultura da violência?
Posso entrar em qualquer sala de aula, pegar qualquer grupo de crianças duronas e fazer uma mudança. Temos técnicas para isso. Veja, por exemplo, o exercício do chocolate. Sem entrar em muito detalhe, uma sala de aula é dividida em grupos de três que tem que disputar barras de chocolate caras que você joga no chão. Os times que conseguem a primeira barra fazem as regras. Inevitavelmente, um time ganha todas as barras e os jovens se sentam para comê-las bem na frente dos colegas. Então eu coloco a questão: o que é chocolate? Quem faz chocolate? Daí a descobrir sobre trabalho infantil é um passo, porque essa indústria é uma das que mais explora esse tipo de trabalho. É uma rede de conseqüências em que queremos que eles sejam participantes ativos.
(Traduzido por Marina Lemle)
Em outros sites:
Cyber school bus, projeto educativo da ONU
Tarih Vafki, a Fundação de História da Turquia
Peter Lucas contribui para a Revista Patio online.








Comentários
Construção da Paz
Querida prima, Anna Margarida.
Parabéns pela sua coragem pararealizaroseu trabalho.
Cleide
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