Jornalismo pela infância na Argentina
"O jornalismo tem uma função social, a responsabilidade de promover os direitos e é uma poderosa ferramenta de mudança", acredita Eduardo de Miguel, editor do relatório "Infância e adolescência na imprensa argentina - Monitoramento 2006", publicado pelo Programa Capítulo Infância de Jornalismo Social (Capítulo Infancia de Periodismo Social), uma associação que promove uma abordagem mais equitativa do setor social nos meios de comunicação da Argentina.
A pesquisa, que analisou mais de 30 mil notícias publicadas por 19 jornais nacionais e provincianos, inclui análises, quadros, opiniões de especialistas e reflexões de profissionais de imprensa que participam da construção das notícias sobre meninos, meninas e adolescentes.
"O objetivo do Capítulo Infância de Jornalismo Social e de seus parceiros estratégicos - entre eles, Unicef, Fundação Arcor, Fundação C&A e Petrobras - e de toda a Rede Andi América Latina, é que os jornalistas e os meios de comunicação consigam realizar cada vez mais e melhores coberturas sobre meninos, meninas e adolescentes e contribuam para colocar os direitos da criança no centro da agenda nacional, afirma de Miguel.
A metodologia, desenvolvida pela Agência de Notícias pelos Direitos da Criança (Andi Brasil) e ampliada pela Rede Andi América Latina - integrada pela associação Jornalismo Social junto com outros 12 países da região -, propõe um monitoramento diário das notícias de veículos nacionais, provincianos ou regionais, classificadas sistematicamente por temas, fontes de informação, tipo de texto, faixa etária envolvida, políticas públicas e legislação, e enfoque de solução ou denúncia, entre outros ítens.
"Os dados recolhidos são cruzados por um programa da rede, orientado por manuais operacionais próprios. As conclusões e os resultados estatísticos mais importantes são publicados anualmente," explica.
Agenda de temas ainda é limitada
O monitoramento anual - terceiro da série - de veículos nacionais e provincianos - que inclui também uma análise das capas dos principais noticiários locais, entre eles, Clarín, La Nación, Página 12, La Voz del Interior (Córdoba) e La Capital (Rosario) - revela que muitos meios e profissionais estão incluindo mais e de uma forma melhor a questão da infância na sua tarefa diária de informar, tendo aumentado a quantidade de publicações sobre este setor 3,2% em 2006 e 7,5% entre 2004 e 2006. Além disso, o uso de termos pejorativos - principalmente "menor" - diminuiu 12,9% em 2004 e 9,1% em 2006.
Em relação a estes avanços, a análise revela que a agenda de temas ainda é limitada. Quase metade da cobertura sobre infância e adolescência está concentrada em dois temas: violência (27,3%) e educação (19,3%). Temas como meio ambiente, internação, situação penal e mortalidade infantil não ultrapassaram 1% das notícias em todo o ano.
Além disso, percebe-se que persiste um desequilíbrio no uso das fontes de informação. Com relação à violência, por exemplo, a polícia foi a fonte mais citada (19,9%) e as notícias são dadas sem que sejam mostrados o contexto e as diversas explicações para o fenômeno.
Com relação à educação, houve uma forte cobertura acerca do debate sobre a nova Lei de Eduação, mas com pequena diversidade de vozes, especialmente das próprias crianças, o que mostra que sua opinião continua sendo subestimada nas notícias que falam deles mesmos (3,8%). Também se observa um aumento na quantidade de textos em que as fotnes não eram citadas (21,5%).
Desafio profissional
Para mudar esse quadro, o Capítulo Infância aposta em uma maior aproximação entre a sociedade civil, o Estado e os meios de comunicação. Com este objetivo, o programa realiza seminários de capacitação e ações de mobilização com jornalistas e organizações civis para incentivá-los e fazer com que os temas tratados, com uma agenda mais variada, reflitam mais amplamente a realidade de meninos e meninas. E que se variem as fontes de informação, hoje concentradas no poder público e com pequena participação das próprias crianças e adolescentes.
"É um desafio basicamente profissional que vai além do tema infância e adolescência. Mas, neste caso, o contexto impõe a compreensão de que a cobertura desses temas e problemas exige certo conhecimento especializado. O que nos traz a necessidade de compreender a violência em realção a meninos e meninas como um fenômeno, com causas, inlcusive as previsíveis, mas que vai além da lógica jornalística que aborda o assunto diariamente, mas com uma visão policial mais do que social", observa Eduardo de Miguel.
Seguindo a tradição da Rede Andi, todos os anos a instituição elege o Jornalista Amigo da Criança, profissionais que demonstraram sua capacidade e vontade de promover os direitos das crianças em seu trabalho. "Essa é uma forma prática que temos de multiplicar nas redações de jornais, rádios e televisões os jornalistas que promovam os direitos da infância e da adolescência", avalia.
A nota de divulgação do estudo comenta que no meio de um ano eleitoral na Argentina, este é um instrumento importante para destacar o poder da imprensa em associar diariamente a situação da infância com decisões políticas estratégicas, incluindo orçamentárias. "Os meios de comunicação são parte da sociedade e podem reforçar muitos estereótipos, mas seu poder supõe uma responsabilidade diferente para incentivar mudanças sob a ótica de direitos humanos e de diálogo democrático", conclui de Miguel.
Em outros sites:
Relatório infância e dolescência na imprensa argentina 2006 (em espanhol)
Capítulo Infância (Jornalismo Social) (em espanhol)
Rede Andi América Latina (em espanhol)








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