Mais reflexão na cobertura da segurança pública

ENTREVISTA / Barbara Walsh

barbara-walsh_final1.jpgVencedora do prêmio Pulitzer de jornalismo em 1988, Barbara Walsh faz mais do que simplesmente transmitir informações nas reportagens que escreve. Ela colabora para uma reflexão em torno de leis e ajuda comunidades a se organizarem em prol de seu elo mais fraco. Seu comprometimento com o que se chama de jornalismo social fez com que desenvolvesse habilidade especial para lidar com tópicos delicados em toda a sua complexidade. É o caso das premiadas reportagens On the verge, sobre suicídio entre jovens; Castaway children, sobre crianças com necessidade de atendimento médico especializado em saúde mental; e sua série sobre pobreza no campo The hidden faces of Poverty.

O reconhecimento do trabalho de Barbara faz dela presença freqüente em debates universitários sobre a profissão de jornalista. A série de cinco reportagens que constituem The hidden faces, sobre necessidades e reivindicações das famílias que habitam a área rural do estado de Maine, nos EUA, é um exemplo de como abordar meticulosamente um tópico complexo. A jornalista viajou milhares de quilômetros, conversou com mais de 700 famílias, médicos, oficiais de polícia, conselheiros de drogas, assistentes sociais, ativistas de questões como habitação e saúde com foco em crianças que vivem no campo e juízes, além de pesquisar mais de quatro mil páginas de documentos estaduais e federais.

A recompensa é gratificante. Esta reportagem em particular resultou em 300 ligações, e-mails e cartas, e levantou US$ 80 mil destinados a abrigos e US$30 mil para a reconstrução de uma casa sob risco de incêndio. Seu conselho aos profissionais de mídia costuma ser: "Preste atenção nos detalhes, documente o lado humano de dados, deixe seus leitores com raiva." Em viagem ao Brasil, quando visitou universidades e jornais para debates sobre o noticiário de segurança pública, Barbara conversou com o Comunidade Segura sobre seu trabalho e a visão da profissão.

O que você pode dizer sobre sua viagem ao Brasil até agora?

Tenho tido dias muito corridos, dois de meus vôos atrasaram... Mas me impressionou como jornalistas estão ávidos por aprender sobre noticiário de crime e como são talentosos e apaixonados pela profissão.

Pelo que viu nos jornais brasileiros, como nossa cobertura de segurança pública difere da feita nos EUA?

Para mim, em termos de como jornalistas trabalham o crime nos EUA e no Brasil, a maior diferença está no fato de que os brasileiros estão sob pressão de riscos maiores a suas vidas, trabalham em condições pouco seguras – têm que lidar com ameaças de morte feitas por traficantes de drogas que sequer são levados à prisão e, quando são, as prisões são também comandadas por grupos criminosos. Os repórteres são intimidados e assediados, alguns são assassinados. Nos EUA, os repórteres podem pedir a proteção da polícia quando sob ameaça. Denunciar uma ameaça pode não garantir a proteção policial, mas uma investigação sobre o caso será aberta.

Mas em termos de noticiário, quais são as diferenças?

Nos EUA, nos concentramos em cobrir o "lado humano" do crime – quando cobrimos assassinatos, por exemplo, não queremos apenas os dados, queremos saber quem são as pessoas que morrem e qual é a perda humana – in loco – não apenas as estatísticas, mas as pessoas que se relacionam com elas.

Você poderia dar um exemplo?

O exemplo do assassinato no posto de gasolina no Rio de Janeiro, quando um homem foi morto, eu tentaria abordar o caso com uma investigação sobre as últimas 24 horas da vida da vítima, por exemplo.

E quanto tempo levaria para a conclusão desta reportagem?

Pelo que ouço de repórteres brasileiros, eles trabalham com prazos apertados, apurando e escrevendo matérias no mesmo dia. Para uma reportagem como a que sugeri eu levaria uma semana e a publicaria na edição de domingo do jornal.

O que você gostaria de ver na cobertura de segurança pública norte-americana?

Maior cuidado e reflexão no noticiário sobre crime, respostas sobre a forma como a violência e a pobreza afetam as pessoas. É necessário criar um balanço, não apenas espalhar o medo, o que significa incluir os atores envolvidos em prevenção da violência. Noticiar o que está acontecendo – quantos homicídios, que tipos de assassinatos são cometidos, se são aleatórios, se são relacionados a drogas. Quando seu celular é roubado, mas você não é ferido, ainda assim você é afetado pelo crime, ele mudou você, deve ser denunciado. Desta maneira, os leitores podem entender a natureza da violência a seu redor. Você pode e deve gerar uma reflexão com uma boa reportagem. É preciso abordar os diversos aspectos do crime.

Como você lida com os preconceitos?

Todo jornalista deve ser ético, ouvir os dois lados da história. Quanto mais matérias você escreve, mais fácil fica. No início, quando se está no começo da carreira, você pensa que todos os políticos são corruptos e todos os policiais são maus. Com o tempo você percebe que nem tudo é assim preto no branco. Existem políticos honestos, bons policiais, e eles merecem sua parte na história. Se você é contra as armas, por exemplo, você deve também tomar o cuidado de incluir a perspectiva dos defensores do direito de ter armas em sua reportagem.

Como seus leitores reagem?

Leitores normalmente ligam, mandam e-mails, escrevem cartas. Algumas reportagens que escrevo provocam reações em toda a comunidade, como a do suicídio entre jovens, por exemplo, ou a das crianças com necessidade de atendimento médico especializado em saúde mental.

Há alguma reportagem em particular que gerou uma reação especial dos leitores?

Uma sobre pobreza no campo, chamada The hidden faces of porverty, para o Maine Portland Press Herald, que chegou a receber 300 ligações, e-mails e cartas. Os leitores arrecadaram US$ 80 mil em três semanas para diversos abrigos e instituições e conseguiram também levantar US$ 30 mil para doar a uma das famílias entrevistadas uma nova casa, já que a dela estava sob risco de incêndio.

Isso pode ser considerado extraordinário?

Não, não extraordinário. Quando você conta uma história bem, as pessoas se irritam, vocês deixa os leitores com raiva. Os políticos vão usar sua reportagem para levantar fundos e mudar leis. As histórias mudam vidas e leis. Como jornalista, você precisa incluir em suas histórias diferentes aspectos da situação, para que as pessoas saibam como ajudar.

Em sua opinião, repórteres de crime devem ter treinamento específico?

Acredito que repórteres de crime devem ter mentores – profissionais experientes ou até mesmo editores. Os repórteres devem procurá-los para questionar como fazem suas reportagens. Eles devem procurar ajuda quando se travam em alguma história ou ângulo dela...

Nos EUA os jornalistas precisam de diploma?

A maioria dos jornais prefere jornalistas com diploma, é interessante que se tenha um certo treinamento, mas não é uma exigência. Por exemplo, alguém pode ser formado em Direito e ser um bom escritor, e o lado positivo é que esta pessoa tem uma compreensão legal do noticiário de crime.

Traduzido por Aline Gatto Boueri

Saiba mais:

Segurança: um desafio para as redações

Em outros sites:

Castaway Children, the Hidden Face of Poverty, no site do Maine’s Press Herald (em inglês)

Mental Illness, reporting on the States's most vulnerable children (PDF) , do Harvard University's Newman Reports (em inglês)

Mais sobre a visita de Barbara Walsh ao Brasil  

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