Contabilidade mórbida
O atendimento a vítimas de ferimentos por armas de fogo sempre foi rotina nas salas de emergência dos hospitais do Rio de Janeiro. A partir de meados da década de 90 e, especialmente, nos últimos seis anos, essa rotina mudou. Para pior. Ao invés de ferimentos simples causados por munição calibres 38 e 32, os profissinais que trabalham nas unidades de emergência se deparam hoje com perfurações feitas por balas de pistolas e de fuzis.
Apesar de os dados do Ministério da Saúde apontarem uma diminuição do número de internações por ferimentos causados por projéteis de armas de fogo (PAF) - em janeiro de 2001 foram registradas 175 internações no Rio de Janeiro contra 140 em janeiro de 2006 -, o número de óbitos pós-internação aumentou de 8,2% para 10,8% no mesmo período.

Para o médico Alfredo Padilha, cirurgião do Hospital Souza Aguiar, que fica no Centro do Rio, isso demonstra o aumento da letalidade das armas. "Nos últimos seis anos o perfil dos baleados mudou. Antes chegavam mais lesões por armas de pequeno calibre como revólveres 32 e 38. Hoje, a arma de confronto do policial é a pistola calibre 40 que já é uma arma de maior impacto", afirma Padilha que também é membro da Câmara Técnica de Cirurgia Geral e Trauma do Conselho de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj).
Com o aumento do uso de armas de grande velocidade como fuzis e sub-metralhadoras, a gravidade dos ferimentos aumentou tanto que diminuiu o número de pessoas que chegam com vida aos hospitais. "O índice de mortalidade do ferimento por bala de fuzil está em torno de 80% mas isso depende da área do corpo que foi atingida", explica Padilha. "Uma perfuração com bala de fuzil na cabeça ou no tórax, por exemplo, tem 100% de chance de levar ao óbito".
Um estudo com pacientes do Miguel Couto, realizado pelo então chefe do setor de cirurgia do hospital Miguel Couto, na Zona Sul do Rio, Savino Gasparini, entre 1994 e 2000, mostra que a maioria das vítimas desse tipo de armamento morre. De 22 pessoas atingidas por tiros de fuzil nesse período, apenas cinco sobreviveram.
O médico Rodrigo Gavina, diretor do Hospital Quinta D'Or, na Zona Norte do Rio, e cirurgião toráxico do Hospital Central da Polícia Militar (HCPM), concorda. "Essas armas disparam projéteis em alta velocidade, que causam uma lesão até 30 vezes maior do que o diâmetro da bala", explica Gavina, que também já trabalhou na emergência do Souza Aguiar.
E os números do Sistema Único de Saúde (SUS) confirmam isso. Em 2004, mais de 37 mil pessoas foram mortas por armas de fogo no Brasil. Desses óbitos, pouco mais de 20 mil ocorreram após a internação. Isso quer dizer que cerca de 17 mil pessoas morreram baleadas antes de chegar ao hospital.

Gavina se especializou em tratamento de politraumatizados em Israel e conta que o número de internações por PAF no Rio de Janeiro é bem maior à quantidade de atendimentos aos feridos da guerra entre árabes e israelenses. "Lembro que o número de feridos por armas de fogo que apresentamos em um mês de movimento do hospital Souza Aguiar na época equivalia a quase um ano do número de feridos no grande hospital de atendimento a pacientes traumatizados no norte de Israel", conta.
Faz sentido. Nas guerras, o índice de sobrevivência de feridos por armas de fogo é pequena por causa do tipo de armas utilizadas. "A literatura das guerras reforça que 90% dos pacientes atingidos por armas de guerra morrem no local", afirma.
Rio de Janeiro
No Rio de Janeiro, as estatísticas são semelhantes. Das mais de seis mil pessoas assassinadas no estado, pouco mais de duas mil chegaram a ser atendidas pelas unidades hospitalares de emergência.

Este início de ano foi particularmente violento com relação às vítimas de armas de fogo no estado. Segundo o Instituto de Segurança Pública da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP), 207 pessoas morreram em confrontos com a polícia nos dois primeiros meses deste ano. Em 1998, 46 pessoas foram mortas no mesmo período - um aumento de 350% em dez anos.
As estatísticas do Hospital Getúlio Vargas, da Penha, subúrbio do Rio de Janeiro, confirmam isso. A média de atendimentos mensais a baleados em 2006 na unidade foi de 39. Até o dia 23 de maio, segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, 76 pessoas deram entrada com ferimentos PAF na unidade.
Isso pode ser explicado pelos confrontos entre policiais e traficantes que vêm se estendendo desde o início do mês no Complexo do Alemão, favela que fica próxima ao hospital. Segundo Alfredo Padilha, o tipo e a quantidade de feridos por PAF não depende da região onde a unidade hospitalar está situada. "O que muda o perfil do baleado é se a comunidade do entorno estiver em guerra", explica.
Rodrigo Gavina explica que o grande vilão do ferimento por PAF é a contaminação. "Isso se deve a um efeito balístico chamado de cavidade temporária. Uma vez dentro do corpo, o projétil gera uma cavidade que suga para dentro roupa, pólvora e o que mais estiver próximo ao orifício de entrada."
Qualificação dos profissionais
Mas será que os hospitais e os profissionais do Rio estão preparados para receber e tratar esse tipo de vítimas? Se depender do que os hospitais dispõem hoje, sim. Tanto Alfredo Padilha como Rodrigo Gavina afirmam que não é preciso tecnologia sofisticada para atender as vítimas de armas de fogo. O que conta realmente é a capacidade da equipe que presta o atendimento aos baleados. "Acho que uma estrutura básica bem estruturada é de grande valia em pacientes mais estáveis. Nos casos críticos, o que faz a diferença continua sendo um bom e ágil primeiro atendimento no local", explica.
"Quando falo que não precisamos de sofisticação, quero dizer que a capacidade da equipe médica em lidar com situações graves acaba sendo o diferencial neste atendimento, muito mais do que qualquer sofisticação tecnológica", completa Gavina.
Alfredo Padilha vai ainda mais longe. "O tratamento de urgência de trauma violento como os baleados não precisa de muita coisa. Banco de sangue, sutura, maca e cirurgiões. Hoje, os hospitais do Rio têm isso."
Quanto à capacitação dos profissionais que trabalham nas emergências dos hospitais fluminenses, ela é realizada nas próprias unidades. Segundo Padilha, existe um treinamento específico de múltiplos feridos para casos de acidentes aéreos, por exemplo, que sistematiza o atendimento de muitos feridos ao mesmo tempo, mas esse tipo de treinamento não cobre especificamente o trauma do baleado. "O treinamento das equipes é feito nas unidades mesmo. Hoje, a preocupação é salvar a vida do paciente. É o chamado controle de dano."
Custos altos
Os custos da violência armada são altos. O tratamento de vítimas de armas de fogo é caro e, dependendo da gravidade do ferimento, sua recuperação é lenta e pode deixar seqüelas. Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2004, os gastos com problemas de saúde relacionados à violência no Brasil chegam a 1,9% do Produto Interno Bruto Nacional (PIB) - cerca de R$ 30 milhões naquele ano.
Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) usados na pesquisa do Viva Rio/Iser "Brasil: as armas e as vítimas", mostram que a saúde pública gastou em 2002 entre R$ 130 milhões e R$ 140 milhões para tratar de feridos por armas de fogo.
De acordo com a pesquisa, as lesões por arma de fogo são mais letais, tem um tempo de internação maior e custam mais. O estudo mostra que cada internação custa, em média, R$ 5.564. "Ao se comparar custos de internação, chega-se à conclusão que as internações por PAF custaram 16,45% mais que as internações por acidente de trânsito", afirma o texto.
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por Luciana Phebo
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Incrivel
Incrivel mesmo!
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