Plano Colômbia em xeque
ENTREVISTA/John Walsh
O Plano Colômbia, a estratégia anti-drogas que começou em 2000 durante os governos de Bill Clinton (Estados Unidos) e Andrés Pastrana (Colômbia), está em xeque. A meta inicial era reduzir em 50% a oferta de cocaína até o fim de 2005. Mas, sete anos e US$ 10 milhões depois, os resultados não são nada animadores. O preço da cocaína nos Estados Unidos, um dos principais consumidores do alcalóide latino-americano, caiu 36% nos últimos quatro anos.
"A queda do preço é mais resultado de uma oferta robusta do que de uma redução da demanda", explica John Walsh, chefe da seção de política de drogas do Washington Office for Latin America (Wola), em entrevista ao Comunidade Segura. Walsh é autor do relatório "Unindo os pontos: a atualização (relutante) do Gabinete de Política Nacional de Controle de Drogas (ONDCO, sigla em inglês) sobre o preço e a pureza da cocaína" (Connecting the Dots: ONDCP's (Reluctant) Update on Cocaine Price and Purity).
A segunda fase do plano, chamada de "consolidação" pelo governo colombiano, começará em 2008 e se estenderá até 2013, mas depende da aprovação do Congresso norte-americano, dominado atualmente pelos democratas, que se mostram favoráveis à manutenção da ajuda militar para combater o narcotráfico e os grupos armados ilegais na Colômbia.
Dos cerca de US$ 10 bilhões que foram orçados para essa estratégia, os Estados Unidos já liberaram cerca de US$ 4,7 bilhões, responsáveis por colocar a Colômbia em quinto lugar em ajuda norte-americana, atrás de Israel, Egito, Afeganistão e Paquistão. De acordo com o governo colombiano, dos US$ 700 milhões que os Estados Unidos investem na Colômbia por ano, US$ 580 milhões se destinam ao componente militar e outros US$ 120 milhões a programas sociais.
O informe da Wola menciona que as "evidências disponíveis indicam que os preços em queda e a pureza em alta da cocaína são provocados por uma oferta robusta e contínua do alcalóide e não por um colapso na demanda". Como o senhor explica isso?
Uma vez que os preços são uma função da oferta e da demanda, a diminuição dos preços da cocaína pode ser resultado de uma queda na demanda - assim como preços em alta podem ser resultado de uma demanda crescente e/ou oferta reduzida. No entanto, os dados disponíveis indicam que o consumo de cocaína nos Estados Unidos se manteve estável, então, os preços em queda são mais resultado de uma oferta robusta do que da redução na demanda.
A meta inicial do Plano Colômbia era reduzir em 50% a oferta de cocaína até o fim de 2005. Sete anos depois, os resultados não são os esperados. Quais são as razões para que o Plano Colômbia não esteja funcionando e por que a Casa Branca insiste nele?
A Casa Branca previu que o Plano Colômbia resultaria numa redução considerável da oferta de cocaína, e aposta firmemente numa política de controle da oferta. Mas os fatores que promovem o cultivo de coca e que permitem o narcotráfico - pobreza rural, presença fraca do Estado, impunidade, conflito armado e um mercado lucrativo para a cocaína - se mantêm, por isso não é surpresa que a cocaína e o narcotráfico continuem a abastecer as ruas.
Qual é a probabilidade de o Plano Colômbia ser declarado um fracasso e o Congresso dos Estados Unidos cortar o financiamento?
O Congresso não deve reduzir a ajuda à Colômbia, mas os democratas podem usar sua força majoritária para alterar a composição do pacote dando mais ênfase à ajuda socio-econômica que nos anos anteriores. No que diz respeito às controvérsias sobre a eficácia das pulverizações, os políticos não querem ser considerados complacentes com as drogas, por isso, é improvável que os fundos destinados ao Plano Colômbia sejam cortados.
De acordo com o jornal colombiano El Tiempo calcula-se que as plantações de coca para 2006 tenham sido reduzidas em 10%. Como se explica esse resultado se não houve diminuição da oferta?
Os números mais recentes que relacionam o preço à pureza da cocaína disponíveis são de outubro de 2006. Então, é possível que os preços nos EUA tenham caído ao mesmo tempo que os cultivos de coca foram reduzidos. Mas as cifras sobre as plantações são questionáveis e provavelmente subestimam a produção. O preço em queda nos Estados Unidos sugere que foi produzida muito mais cocaína do que os números oficiais indicam.
Qual é a posição da Wola em relação a uma possível solução para a questão da cocaína tanto em países produtores como nos países consumidores?
Em relação à produção, não existem soluções rápidas, como foi demonstrado na prática pelas fumigações e outros esforços de erradicação. O progresso sustentável para reduzir a produção de cocaína requer o estabelecimento de modos de vida diferentes, especialmente para as famílias rurais, com a presença eficaz e segura do Estado. Além disso, são necessárias políticas de desenvolvimento agrário e projetos coordenados com as comunidades afetadas. Isto requer uma estratégia de longo prazo, não há como fazer diferente.
Ao mesmo tempo, deve-se reconhecer que reduzir a oferta é virtualmente impossível uma vez que existe uma grande demanda por cocaína. Então, o esforço maior deve concentrar-se na redução do consumo de drogas através de programas de prevenção e tratamento para os usuários.
Se o ritmo de pulverizações das plantações do Plano Colômbia vem aumentando a cada ano desde 2000, como se explica a queda dos preços e o aumento da pureza da cocaína? O que está acontecendo com os milhões de dólares gastos no programa?
Primeiro, provavelmente há muito mais coca sendo plantada do que o indicado pelos números oficiais, o que quer dizer que mais cocaína está sendo produzida. Segundo, aqueles que cultivam e os que traficam adaptaram suas atividades às fumigações, protegendo as plantações, replantando e melhorando o processo de refinamento, o que quer dizer que a produção de cocaína por hectare de coca plantada aumentou. Terceiro, a conexão entre a erradicação e os preços é muito tênue, já que os preços são estabelecidos depois que a cocaína entrou no país.
A matéria-prima bruta, que são as folhas de coca, são um recurso renovável que constituem uma fração mínima do preço final. Por isso, erradicar a coca na realidade causa um impacto mínimo nas organizações do narcotráfico e na sua capacidade para produzir e traficar cocaína. O mesmo não se pode dizer em relação ao efeito nas comunidades rurais, que são as maiores prejudicadas por esta política.
Traduzido por Shelley de Botton
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Em outros sites:
Relatório "Unindo os pontos: a atualização (relutante) do Gabinete de Política Nacional de Controle de Drogas (ONDCO, sigla em inglês) sobre o preço e a pureza da cocaína" (Connecting the Dots: ONDCP's (Reluctant) Update on Cocaine Price and Purity).








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