Cocaína mais barata e mais pura expõe fracasso de política anti-drogas dos EUA
Em 2003, uma grama de cocaína pura valia US$ 210 nas ruas dos Estados Unidos, mas agora essa mesma quantidade poder ser comprada por US$ 135. Mais oferta ou menos demanda? Ou há mais cocaína circulando nas ruas do país ou a demanda pelo alcalóide está caindo a níveis nunca vistos antes.
Essas são as explicações possíveis a uma situação que disparou o alerta em Washington: segundo dados de organismos oficiais, o preço da cocaína vendida nos Estados Unidos caiu 36% nos últimos quatro anos apesar de a pureza da droga ter aumentado de 60% em 2003 para 72% no ano passado.
“Os dois indicadores são chave para se avaliar a efetividade da luta contra as drogas, pois são um reflexo da disponibilidade dos narcóticos no mercado norte-americano”, afirma John Walsh, do Washington Office for Latin America (Wola, uma organização da sociedade civil voltada para a defesa dos direitos humanos na América Latina).
Autor do relatório “Unindo os pontos: a atualização (relutante) do Gabinete de Política Nacional de Controle de Drogas sobre o preço e a pureza da cocaína” (Connecting the Dots: ONDCP's (Reluctant) Update on Cocaine Price and Purity), Walsh revela as cifras que até agora não haviam sido divulgadas pela Casa Branca e que questionam a eficácia de uma política anti-drogas que prioriza o combate à oferta em vez de controlar a demanda.
Segundo o estudo, desde 1997 os Estados Unidos gastaram US$ 31 bilhões em interdição e controle de cultivos, dos quais US$ 5,4 bilhões foram destinados a combater plantações e cartéis colombianos - fonte de quase 90% da cocaína que entra no país - desde que o Plano Colômbia teve início em 2000. Os resultados não são nada animadores.
Relutância e manipulação
Em novembro de 2005 o diretor do ONDCP, John Walters, baseou-se no aumento do preço da cocaína para anunciar com orgulho que os trabalhos de interdição e erradicação estavam funcionando. O que não foi informado é que este aumento devia-se a uma pequena flutuação, que foi logo revertida seguindo a tendência dos últimos 25 anos, que indica estabilidade na oferta do alcalóide. Diferente de seu pronunciamento anterior, Walters não alardeou estes fatos.
Para John Walsh, a única explicação possível para o fenômeno, diferente da que defende o Plano Colômbia como fator de redução na oferta, seria uma diminuição na demanda. Mas isso não aconteceu. "A demanda se estabilizou em 2000 e desde então não há estatísticas que demonstrem sua queda", assegura.
Realmente, o último Censo Nacional sobre uso de Drogas e Saúde, usado pela Casa Branca para determinar o uso da cocaína entre consumidores ocasionais entre adolescentes, a demanda se manteve mais-ou-menos estável desde 1999.
"Caso existissem dados que demonstrassem a redução no consumo, a Casa Branca os divulgaria rapidamente", abserva Walsh. "Porém, as provas disponíveis indicam que a redução nos preços é motivada em grande parte por uma volumosa e contínua oferta de cocaína, em lugar de uma diminuição ou colapso na demanda", aponta.
Oferta x demanda = e a saúde?
As novas estimativas de preço e pureza da cocaína oferecem mais amostras de que a insistência norte-americana na erradicação forçosa da droga - com o Plano Colômbia como peça central, mais visível e onerosa - não foram bem sucedidas na intenção de afetar a oferta de drogas no país.
"Os números deixam claro que é extremamente difícil aumentar os preços em qualquer faixa de tempo", diz Walsh. Para o especialista, é importante reconhecer que a redução da oferta é uma estratégia a longo prazo e que é virtualmente impossível enquanto existir uma forte demanda pela droga.
"Precisamos direcionar o esforço para controle da oferta a uma perspectiva adequada. Ainda que, na melhor das hipóteses, diminua a disponibilidade da cocaína para venda, isso tangencia o verdadeiro problema, que é a questão da demanda e das conseqüências adversas do consumo da droga", conclui.
Saiba mais:
Drogas e violência na América Latina: uma equação mal resolvida
Em outros sites
Seção sobre Política de Drogas de Wola








Comentários
Enviar novo comentário