Honra, respeito e água para Bel Air

Quando se pensa nas necessidades mais imediatas de uma área onde há altos índices de bel_air.jpgviolência, o senso comum costuma empurrar para soluções ligadas diretamente ao problema, como um policiamento ostensivo mais efetivo, capacitação de forças de segurança pública, fortalecimento de lideranças locais, entre outros. Em Bel Air, bairro da área central de Porto Príncipe, capital do Haiti, a população precisa de água.

A área já teve forte presença de gangues e chegou a ser considerada pela ONU como “zona vermelha”, ou seja, onde até mesmo os integrantes das Forças de Paz (batizada como Minustah no país) têm dificuldades de acesso. Hoje, após três anos de intervenção no Haiti, Bel Air passou a ser considerada uma “zona amarela”, onde é possível transitar, ainda que inspire cuidados a quem não é morador local. 

Apesar de o sistema de classificação da ONU demonstrar avanços na contenção da violência, o diretor-executivo da ONG Viva Rio, Rubem César Fernandes, acredita que ele possa provocar uma “profecia auto-cumprida”. “Determinar que certa área oferece risco de vida a quem a visita inibe investimentos e afasta freqüentadores, o que acaba fazendo com que ela permaneça ocupada por grupos violentos.”

Mas Bel Air escapou ao estigma. Desde janeiro de 2007, um projeto chamado Honra e Respeito por Bel Air, nome inspirado numa saudação haitiana, leva esperança ao promover ações culturais e apoio técnico à prospecção de água no bairro. Com apoio da ONU, o projeto reúne especialistas brasileiros e haitianos, o governo da Noruega, a ONG Viva Rio e associações de moradores locais.

banheiro_belair.jpg“O projeto ajuda a garantir a paz no local, o que apenas uma ocupação militar não conseguiria”, afirma André Cribb, pesquisador da Embrapa Agroindústria de Alimentos e colaborador do Honra e Respeito por Bel Air. Segundo ele, a existência de água potável tem influência direta na redução dos índices de violência, pois faz da escola um ambiente mais saudável e retira das mãos de comerciantes informais a oferta de água para a população.

“Atualmente não existe reservatório de água, pois esta chega ao bairro uma vez por semana e os 70 mil moradores têm uma hora para guardá-la. Com isso, os banheiros dos centros de ensino têm aspecto insuportável e é necessário comprar água em outros bairros, o que eleva o preço”, diz Cribb.

Segundo o pesquisador, a dificuldade de acesso à água tem explicações geográficas e sociais. Bel Air é um bairro alto e habitado por população de baixa renda. A combinação resulta em dificuldade de encontrar água potável na região e pouco esforço das autoridades haitianas em tratá-la quando encontrada.

Por conta das múltiplas deficiências no atendimento aos moradores locais, o projeto Honra e Respeito por Bel Air trabalha com três frentes diferentes: além da questão da água, o projeto prevê ações voltadas para o protagonismo feminino e promoção de melhorias na saúde pública como estratégia de segurança. “O objetivo é montar uma rede de mulheres gestoras da água, que possam se tornar também agentes comunitárias de saúde”, explica Rubem Cesar Fernandes. “Com isso, esperamos também reduzir os índices de violência doméstica, pois sem segurança não é possível fazer nada.”

Sem água também não. É por isso que, além de eventos pontuais voltados para a cultura,belair_prospeccao.jpg o projeto tem dado atenção maior ao abastecimento das casas. Para isso, são usadas duas estratégias técnicas. “Utilizamos aparelhos específicos que medem a densidade da água no subsolo. A partir do resultado, fazemos a prospecção para avaliar melhor. Dependendo do que for encontrado, podemos fazer um poço de água potável ou retirá-la para tratamento”, explica Cribb. O projeto prevê também construção de cisternas para armazenar água da chuva, mais facilmente tratável que a salobra, muito encontrada no bairro.

O conjunto de ações, independente do rótulo dado pela ONU, devolveu Bel Air ao povo de Porto Príncipe. “Antes não havia circulação de ônibus no bairro por conta da violência, o que causava um imbróglio no trânsito, já que Bel Air fica justamente no centro da capital”, conta Fernandes. Em agosto de 2005, um desfile de tap-tap (ônibus coloridos usados no transporte público do Haiti) anunciou que, além de água, a região quer e pode receber visitas.

Em outros sites:

Honra e Respeito por Bel Air

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