Desde março, todos os produtos derivados da folha de coca estão proibidos de ocupar as prateleiras de supermercados colombianos. Por ordem do Instituto Nacional para Vigilância de Medicamentos e Alimentos (Invima), e com apoio da Direção Nacional de Entorpecentes, o mate, alguns refrigerantes, farinhas e doces de coca antes produzidos por comunidades indígenas da região do Cauca foram retirados do mercado.
"Deste modo, não apenas coloca-se em perigo a sobrevivência de duas mil
famílias que elaboram, vendem e exportam biscoitos, chás e refrigerantes de coca, mas também atenta contra a expressão moderna de um costume tradicional de populações pré-colombianas", denuncia o jornal El Tiempo em editorial do dia 15 de março.
O argumento defendido pelas autoridades do país para a proibição dos produtos é o de que seu comércio viola a Convenção Única de Entorpecentes de 1961, ainda que em junho de 2004 o próprio Invima tenha autorizado os chás de coca.
"A atitude das entidades governamentais é nitidamente incoerente em relação à aceitação prévia das qualidades da folha de coca e representa um enorme retrocesso no processo de 'dessatanização' da coca", afirma Amira Armenta, historiadora do Transnational Institute, organização internacional de pesquisa, sem caráter político, com sede na Holanda.
A especialista lembra que é justamente a comunidade indígena quem mais sofre com a chamada "guerra às drogas" – dirigida basicamente para atacar os cultivos de coca por meio de fumigações nocivas ao meio ambiente.
"Eles investiram bastante na elaboração e comércio desses produtos, que têm grande futuro no mercado. Agora devem estar perdendo dinheiro e os projetos que realizaram estão suspensos. Isso quer dizer que muita gente ficou desocupada de uma hora para outra", comenta.
Ela também adverte sobre o risco de estas pessoas se verem obrigadas a canalizar sua produção de folha de coca por vias ilegais. "Seria lamentável que alguns desses pequenos agricultores, a quem foi negada a atividade de subsistência, acabem cultivando mudas de coca ilegalmente a serviço do narcotráfico em lugar de prover um consumo que não tem nada a ver com o vício em cocaína, mas com sua utilização tribal milenar", lamenta.
Manobra política
Então, quais seriam as razões para impor a proibição neste momento, já que a folha de coca era legal até pouco tempo atrás?
Para Amira, a medida é completamente incoerente com o que o governo colombiano vinha dizendo. Primeiro porque, de acordo com a legislação internacional, existe uma emenda de 1972, o Artigo 27, que dispõe que "as partes poderão autorizar o uso de folhas de coca para a preparação de um agente saporífero que não contenha nenhum alcalóide, e na medida necessário para o referido uso, e autorizar a produção, importação, exportação, comércio e posse das referidas folhas." Segundo, porque a Colômbia ratificou a Convenção contra o Tráfico Ilícito de Entorpecentes e Substâncias Psicotrópicas, de 1988, que estabelece que a pena para o cultivo de coca deveria "se harmonizar com uma política de desenvolvimento alternativo, levando em conta os direitos das comunidades indígenas envolvidas." Além disso, em 1994, a Corte Constitucional fez questão de distinguir os usos legítimos da coca e sua utilização como matéria-prima para a cocaína, assim como reiterou que "a folha de coca poderia ter formas de comércio alternativo legal, que precisamente poderiam evitar a expansão do narcotráfico."
Por conta disso, Amira acredita que a proibição é claramente uma medida política. Entre os motivos para a mudança de postura, ela cita uma possível manobra do atual governo colombiano para afastar-se da campanha impulsionada pelo governo da Bolívia para retirar a folha de coca das listas das convenções sobre entorpecentes da ONU.
"Como se sabe, os EUA não vêem essa campanha de valorização da coca com bons olhos, para eles a política 'coca zero' é ponto pacífico", afirma Amira. É importante observar também o momento delicado que vive o governo de Álvaro Uribe por conta de escândalos sobre o envolvimento de seu gabinete com organizações paramilitares, além de o Congresso dos EUA – dominado agora por democratas – estar em momento de decisão sobre a continuação do envio de fundos para o Plano Colômbia.
"Outro possível argumento que explicaria a medida tem a ver com a produção do
refirgerante Coca Sek, feito à base de coca, assim como a Coca-Cola", observa a pesquisadora. A população indígena da região do Cauca alega que a multinacional estaria pressionando o veto à Coca Sek, produzida pela comunidade. No ano passado, a empresa colombiana Nasa Coca se defendeu com êxito de uma demanda da Coca-Cola, que quer ter exclusividade do nome e teria feito pressão para impedir a publicidade da bebida com este nome.
"O espaço de legalidade, ainda que reduzido, que as comunidades indígenas haviam conquistado para este produto era a única amostra de independência dada pelo governo colombiano em relação a narcóticos até o momento", diz Amira. "Proibir agora o chá de coca é se submeter novamente a interesses estrangeiros", conclui.
Traduzido por Aline Gatto Boueri
Saiba mais:
Drogas e violência na América Latina: uma equação mal resolvida
Em outros sites:
Associação de Líderes Indígenas do Norte do Cauca (em espanhol)
Organização Nacional Indígena da Colômbia (em espanhol)
Transnational Institute (em espanhol)








Comentários
Colômbia
Muito interessante os artigos sobre a Colômbia. Ã? de extrema importância que exista um canal onde a problemática do narcotráfico seja exposta de uma maneira clara e concisa.
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