Violência urbana: um desafio para o pediatra
Luciana Phebo * e Anna Tereza M. S. de Moura **
A violência urbana configura-se como um dos principais problemas sociais da atualidade. No Brasil, em especial nos grandes centros, a violência pode ser identificada como a maior preocupação apontada pela sociedade e vem sendo alvo de inúmeros debates no âmbito público e privado. É um tema que abarca fenômenos das esferas social, política e econômica, repercutindo diretamente na qualidade de vida da população.
As diversas formas de violência que acontecem no meio urbano têm como ponto em comum a estrutura das grandes cidades, que promove por si só um distanciamento da natureza. A massa de construções faz perder a simples perspectiva do horizonte, da natureza, inclusive da natureza humana. A isso se pode adicionar as formas de viver em geral, cada vez mais empilhadas e apertadas. A aglomeração populacional é inversamente proporcional à possibilidade de contatos afetivos mais profundos. O anonimato e a sensação de ‘não pertencer’ são duas condições constantes nas cidades grandes. O tempo é escasso tanto para os outros como para si mesmo. Há pressa e uma sensação de falta de lugar e de oportunidades para todos, imperando a competição e o imediatismo. Prevalecem angústias e vazios, os quais se busca preencher e apaziguar através de estímulos sonoros e visuais e através de um consumo desenfreado e inconseqüente. Há um ruído enorme, ambiental e nas comunicações de modo geral. É difícil escutar e escutar-se.
Todos esses fatores contribuem para estados emocionais e comportamentais que são meios propícios à produção de várias formas de violência. As crianças e os adolescentes são identificados como grupos etários de maior vulnerabilidade aos desfechos relacionados à violência urbana. É importante que os educadores, aí incluídos os pediatras, possam reconhecer o contexto em que vivem e trabalham e o seu papel no enfrentamento dos vários aspectos relacionados à violência nas cidades. A partir dessa visão mais ampla, têm a possibilidade de detectar e abordar adequadamente as vítimas da violência urbana, ajudando os jovens e suas famílias a estabelecer relações saudáveis e dinâmicas com seu ambiente e com eles próprios. Diante da complexidade do tema, optou-se por uma abordagem direcionada ao impacto da violência urbana na saúde da criança e do adolescente. Questões referentes à identificação dos fatores de risco e de proteção e os principais desfechos serão discutidos ao longo do texto.
Atenção especial é dada ao envolvimento da arma de fogo, instrumento que mais mata os jovens brasileiros. Esta revisão bibliográfica visa, ainda, orientar o pediatra sobre as principais conseqüências da violência urbana e aponta alguns caminhos para sua prevenção. Clique aqui para baixar o arquivo PDF.
* Mestre em Saúde Pública pela Universidade Johns Hopkins, EUA, pós-graduada em Saúde Internacional pela Organização Pan-Americana de Saúde (Washington/EUA) e em Epidemiologia pelo Center for Diseases Control and Prevention (Atlanta/EUA). É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (Iser) e coordenadora da Assessoria de Prevenção de Acidentes e Violência da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro e membro da Assessoria de Promoção de Saúde da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro.
** Mestre. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Hospital Universitário Pedro Ernesto (UERJ/HUPE), Rio de Janeiro, RJ.








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