Pesquisadores do Rio esperam aplicação de idéias

Apesar da disposição das autoridades do estado do Rio de Janeiro em ouvir o que especialistas em segurança pública consideram prioridades para o controle da violência, algumas ações que vêm sendo tomadas pelo governo não condizem com as recomendações feitas por um grupo de 22 pesquisadores ao governo no início de abril, num documento cujo foco é a redução dos homicídios dolosos.

ignacio_cano_peq_leg1.jpgPara o sociólogo Ignácio Cano, professor do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), um dos signatários da carta, um exemplo de ação do governo que não combina com o pensamento dos especialistas é a convocação das Forças Armadas para patrulhar as ruas da cidade. “Isso não tem nada a ver com o que a gente propôs. Parece que o governo está apenas reagindo ao que acontece. Dá a impressão de que não há um planejamento, mas não perdemos a esperança. A importância do documento está na sua aplicação”, diz.

O cientista político João Trajano Sento Sé, professor de Ciência Política da Uerj, também discorda da presença do Exército nas ruas, mas atribui a decisão ao fato de a segurança pública do Rio estar num momento especialmente sensível: "A iniciativa de pedir ajuda às Forças Armadas é inócua para o estado e contrária ao espírito do documento. Mas é preciso levar em conta que, desde que tomou posse, em janeiro, o governo está tendo que apagar um incêndio após o outro."

joaotrajano_leg.jpgPara João Trajano, a situação delicada em que o Rio se encontra permite associações com a idéia de "estado de guerra" - ao que ele discorda completamente. A seu ver, as taxas altas de homicídio doloso deveriam ser enfrentadas com as sugestões propostas pelos pesquisadores, que podem levar a uma redução dos índices em um período relativamente curto, de aproximadamente dois anos. "Nada do que propusemos foi encampado até agora, mas ainda não faz um mês que entregamos o documento. É pouco tempo", pondera o professor, que considera louvável o gesto do secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, de pedir ajuda aos acadêmicos. "Foi a primeira vez que um governante chamou pesquisadores para conversar e pedir opiniões, o que gerou um movimento interessante na comunidade pela busca de um acordo sobre as prioridades. Concluímos que o foco deveria ser a redução da letalidade dolosa no Rio, que é o problema mais dramático da segurança pública no estado", afirma.

Michel_Misse_peq_leg.jpgO sociólogo Michel Misse, coordenador do Núcleo de Estudos da Cidadania, do Conflito e da Violência Urbana da Universidade Federal do Rio de Janeiro, também ressalta o caráter inédito do convite feito pelo governo e destaca a necessidade de se baixar a taxa de homicídios no Rio, ainda muito alta apesar de ter caído em fevereiro, segundo dados do Instituto de Segurança Pública. "É preciso que se dê prioridade à apuração e ao esclarecimento dos homicídios", recomenda Misse.

Edinilsa Ramos de Souza, pesquisadora do Centro Latino-Americano de Estudos sobre Violência e Saúde (Claves), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), defende que o conjunto de recomendações seja implementado de forma sistêmica e integrada, mas destaca o aspecto da dinâmica policial no universo da segurança pública. "É fundamental ter um foco nos profissionais, suas condições de trabalho, saúde e qualidade de vida. O policial deve participar do planejamento e da gestão do plano para aderir como protagonista, e não só como alguém que leva ordens", observa. Além da promoção da polícia, Edinilsa enfatiza a importância de se dar continuidade aos planos.

De acordo com o subsecretário de Segurança Pública, Márcio Derenne, a redução de homicídios está ligada à sensação de segurança, e isso acontece com a polícia nas ruas. "A Polícia Civil já está ajudando a Polícia Militar no policiamento ostensivo. Viaturas da Polícia Civil estão fazendo rondas na Zona Norte para inibir o roubo de carros. Em outros projetos, a polícia atua como um auxiliar dos outros poderes públicos. O Copa Bacana, por exemplo, em parceria com a prefeitura, está recolhendo moradores de rua e encaminhando menores para delegacias. Ela dá suporte a ações de orgãos como a Fundação da Infância e Adolescência, à Fundação Leão XIII e à Vigilância Sanitária", explica. De acordo com Derenne, nos próximos meses os estudiosos serão convocados mais vezes para auxiliar o governo na gestão da segurança pública no estado do Rio.

Saiba mais:

Propostas de 22 pesquisadores do Rio de Janeiro pela defesa da vida 

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