Calibre 40 e treino para ações policiais menos letais

Paulo_Storani_leg1.jpgPor receberem treinamento específico, policiais tendem a disparar menos a esmo durante confrontos do que bandidos, mas mesmo assim não estão livres da possibilidade de cometerem erros com conseqüências desastrosas. Para reduzir essa chance, o Capitão da Reserva Paulo Storani, mestre de tiro e professor da Academia da Polícia Militar do Rio de Janeiro, defende o retorno às armas menos letais, como pistolas de calibre 40, conhecidas como “calibre policial”, para o policiamento ostensivo, além de mais treinamento para toda a tropa.

“Taticamente, sou contra o uso de armamento de projéteis de alta velocidade no policiamento ostensivo. A letalidade desses calibres é muito grande. Quando o projétil atinge uma pessoa, a probabilidade de causar a morte é muito maior do que o calibre 40, que tem velocidade menor e poder de parada maior, e é menos letal”, afirma o especialista, que é capitão da reserva e ensina Liderança e Processo Decisório. Segundo ele, um tiro de fuzil pode matar uma pessoa mesmo que não atinja uma área letal do corpo, pelas lesões que pode produzir.

Para Storani, os fuzis só deveriam ser utilizados em situações específicas e por pessoas preparadas, com um nível de treinamento que só os profissionais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) têm. "O uso do calibre 40 seria o ideal, na versão pistola e submetralhadora. Contudo, se esta adoção fosse parte de um processo de desaceleração do uso de armamento letal, eu abandonaria de imediato o fuzil 7,62, adotando somente o 5,56 (.223), por ser menos perfurante do que o anterior, embora seja igualmente letal. Seria uma questão de redução do dano, pois o 7,62 perfura facilmente a alvenaria e atinge outros alvos, enquanto o 5,56 (.223) se fragmenta e a destrói. Trata-se da relação alta velocidade e massa do projétil", ensina.

Ele ressalta que esse posicionamento se dá por razões técnicas, e não políticas: em situações de estresse as pessoas têm reações fisiológicas que fazem com que percam a noção de tempo e espaço. No caso de um tiroteio, explica, o atirador tende a fazer uma visão de túnel em que só foca o oponente, perdendo a visão do entorno. “O estresse provoca alteração na performance de qualquer atirador. Estressado, ele pode ter uma percepção errada e conseqüentemente ter uma reação errada”, explica.

Storani lembra que a adoção pela polícia de fuzis de calibres 7,62 e 5,56 foi uma tentativa de nivelar seu poder de fogo ao dos marginais. “A evolução da violência no Rio de Janeiro a partir dos anos 80 mudou a dinâmica da segurança pública. O policial que usava calibre 38 e 12 se viu na necessidade de se equiparar com os marginais, que hoje tem granadas em seu arsenal”, observa.

Treinamento melhora tomada de decisões

O professor explica que um componente psicológico faz com que o policial se sinta mais seguro para responder uma agressão se estiver armado no mesmo nível que o agressor. “O problema é que o marginal pensa da mesma maneira, e o seu ímpeto para o confronto será maior caso veja uma arma menor com o policial”, acrescenta. A solução, diz ele, está no treinamento:

“Uma pessoa destreinada quer todas as armas possíveis. O treinamento é um processo cognitivo que influencia psicologicamente na tomada de decisões. Quanto melhor o policial estiver capacitado, mais seguro estará na tomada de decisão de atirar ou não. Existem técnicas de treinamento que ensinam a manusear armas e desenvolver melhor a percepção sobre a situação. O mais importante é o domínio sobre o disparo.”

Segundo Storani, que foi subcomandante e instrutor de tiros do Bope, um policial deve ser capaz de identificar uma agressão, posicionar o corpo no espaço, enquadrar o alvo, raciocinar rápido para decidir se vai disparar ou não e, caso dispare, fazê-lo com precisão, tudo em questão de segundos.

Em teste, grupo treinado teve resultado 50% melhor

Estes preceitos básicos compõem uma técnica de tiro desenvolvida por Storani ao longo de 13 anos de estudos, denominada “Técnica de tiro policial para áreas de conflito”. Parte do seu conhecimento ele adquiriu ao desenvolver o estudo “O treinamento perceptivo-motor para a melhoria da performance no tiro e prevenção de acidentes em confrontos armados”, feito no ano 2000, durante a sua pós-graduação em Treinamento Físico na Universidade Gama Filho.

Para a pesquisa, Storani submeteu 120 recrutas sem vivência policial ao “Teste de tiro de reação seletiva”, que leva em consideração quesitos como tempo de reação, precisão e seletividade. Metade do grupo recebeu treinamento e outra metade não. O grupo treinado apresentou um resultado 50% melhor que o grupo não treinado. Aplicado mais tarde em oficiais do Curso de Operações Especiais, eles apresentaram rendimento muito superior ao dos recrutas, comprovando a importância da experiência e do treinamento, principalmente no quesito da seleção do alvo.

Treinamento como política pública

Para Storani, que é Secretário de Segurança Pública do município fluminense de São Gonçalo, o treinamento regular de tiro dos policiais tem que ganhar status de política pública, de forma a garantir a logística necessária para que se treinem os 37 mil profissionais de 40 batalhões. “É preciso haver locais especiais, munição, armas, viaturas para condução das tropas e um número razoável de instrutores. Além disso, deve haver horário específico para o treinamento, para que não se sacrifiquem as horas de folga do policial. A instrução é sagrada, mas tirar as folgas do policial é sacrilégio”, conclui.

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Comentários

xx

Delegado também não vai as ruas e fica dando pitaco nos investigadores, isso que dá aproveitar um advogado como policial após um curso walita, Polícia Civil é para profissionais.

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