O dia 31 de março de 2005 amanheceu com um misto de sofrimento, medo e revolta na Baixada Fluminense. Na noite anterior, homens armados percorreram bairros dos municípios de Queimados e Nova Iguaçu executando moradores nas ruas. Entre os 29 mortos, todos civis, crianças, adolescentes, homens e mulheres desarmados.
Até o momento, apenas um dos sete acusados da chacina foi punido. Em agosto de 2006, o soldado da Polícia Militar Carlos Jorge recebeu pena de 543 anos pelo crime. Outros dois acusados, Gilmar Silva Simão e Marcos Siqueira, ambos cabos da PM que negociavam a “delação premiada” (quando os acusados recebem benefícios legais em troca de informações sobre o crime), foram assassinados antes de prestar depoimento. Outros dois policiais, José Moreira Felipe e Fabiano Gonçalves Lopes, serão julgados pela participação na chacina em 22 de maio deste ano.
Reage, Baixada
Da dor causada pela barbárie nasceu o Fórum Reage Baixada, que reúne mais de 200 entidades entre organizações da sociedade civil, associações religiosas e culturais. “O Fórum começou como instrumento para pressionar contra a morosidade da justiça, comum em episódios similares à chacina”, conta Adriano Dias, um dos articuladores do Reage Baixada.
Apesar da aparente impunidade, Dias acredita que o caso é tratado com competência pela Justiça. “Se considerarmos a morosidade do Judiciário, posso afirmar que o processo está andando com uma agilidade incomum”, avalia. O secretário de Valorização da Vida do município de Nova Iguaçu, Luiz Eduardo Soares, também confia no tratamento dado ao caso pela Promotoria e pela Polícia Civil. “O trabalho tem sido feito de forma correta e estou convencido de que os resultados serão bastante positivos no sentido de impedir a impunidade”, afirma.
Dois anos depois, o Fórum ainda acompanha os processos judiciais dos acusados, mas ampliou o foco. “A idéia é criar uma grande rede de proposição em direitos humanos e políticas públicas como principal instrumento de prevenção da violência letal”, explica Dias. Para isso, o Reage Baixada criou a campanha "Juventude: educação, cultura e paz", na qual jovens de todos os municípios da Baixada Fluminense usam a cultura como forma de articulação.
“Como a discussão era muito voltada para a questão pesada da violência letal, os jovens acabaram se afastando do movimento”, analisa Dias. A campanha pretende motivar a juventude a participar das decisões do movimento e construir uma agenda de atividades para o ano todo, na qual os próprios jovens definirão suas prioridades. “Gradualmente, eles participam mais do Fórum e nossa intenção é que, através da cultura, eles se tornem atores da consolidação dos direitos humanos na Baixada”, acredita.
Gabinete de Gestão Integrada de Nova Iguaçu é pioneiro no Brasil
Para Luiz Eduardo Soares, as ações do poder público não podem se restringir apenas à busca por justiça, que ele considera imprescindível. “Para que esse tipo de crime não se repita, temos que mudar realidade de Nova Iguaçu”, afirma. O secretário avalia que a criação do Gabinete de Gestão Integrada (GGI) da Segurança Pública do município é um passo importante para essa mudança. “Nossa meta fundamental é a proteção da vida, com a redução de crimes letais, principalmente o homicídio doloso", pontua. “É a melhor homenagem que podemos prestar à memória das vítimas e a suas famílias.”
O GGI de Nova Iguaçu reproduz o modelo criado pelo próprio Luiz Eduardo Soares, em 2003, na época Secretário Nacional de Segurança Pública. Com o objetivo de integrar políticas nacionais e estaduais de segurança pública e promover a atuação conjunta dos órgãos responsáveis por ela em ambos os níveis, o GGI já foi instalado em 24 estados, segundo o Ministério da Justiça.
A experiência em Nova Iguaçu é pioneira em nível municipal. “A integração e a harmonia entre todas as forças de segurança do município e do estado serão a marca principal do GGI de Nova Iguaçu”, garante Soares. Após a primeira reunião do Gabinete, que aconteceu na tarde de sexta-feira (30) e contou com a presença de autoridades de vários municípios da Baixada, o secretário saiu otimista. “Sonhamos com a difusão da experiência para uma rede de proteção da vida em toda a Baixada, mas isso depende da iniciativa dos municípios em ter uma política própria de prevenção e articulação”, espera.
Em outros sites:
Dor na Baixada (Portal Viva favela)
Gabinete de Gestão Integrada (GGI/Susp)








Comentários
Dossiê Chacina da Baixada
Olá, gostaria muito de ter acesso ao conteúdo do dossiê acima referenciado, só que não consigo baixar pelo pdf. Gostaria muito de saber como posso proceder. Grata Adriana NUnes
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