Por considerar “polêmica demais”, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) retirou da pauta de votação da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado, nesta quarta-feira (28), a Proposta de Emenda à Constituição de sua autoria que passa da União para os estados a competência para legislar sobre segurança pública. A emenda permite aos estados adotar o modelo de polícia que julgar mais adequado à sua realidade, podendo decidir pela unificação das polícias Civil e Militar. É a segunda vez que o senador pede a suspensão da votação de sua própria emenda.
Mas, apesar da pressão de representantes de classes de oficiais militares e delegados, Jereissati disse que não desistiu da PEC 21/05 e que continua defendendo a unificação das polícias. Para ele, a existência de polícias “paralelas, antagônicas e até rivais” leva ao desperdício dos recursos já escassos.
Além de permitir que os estados legislem sobre normas gerais de organização das suas corporações (polícias e corpo de bombeiros), a PEC incorpora à Polícia Federal as funções das polícias Rodoviária e Ferroviária e permite às guardas municipais realizar, mediante convênio com as polícias estaduais, ações complementares de policiamento ostensivo e preventivo, assim como de defesa civil. A proposta também extingue a Justiça Militar e o Ministério Público Militar, transferindo suas competências para a Justiça comum, e cria um fundo de segurança pública com recursos de 5% da receita dos impostos federais e 9% dos impostos estaduais e municipais.
Delegado de polícia licenciado, o relator da matéria, senador Romeu Tuma (PFL-SP), elaborou parecer contrário à emenda. Ele disse temer que, sem controle federal, as corporações aumentem seu material bélico e fortaleçam-se excessivamente.
Em Brasília, oficiais ligados à Associação dos Oficiais Militares Estaduais do Brasil (AmeBrasil), à Federação Nacional de Entidades de Oficiais Militares Estaduais (Feneme) e ao Conselho Nacional dos Comandantes Gerais das Polícias Militares e Corpos de Bombeiros Militares (CNCG) manifestaram-se contra a desconstitucionalização das polícias e a favor da posição do relator da matéria, Romeu Tuma. Os oficiais comprometeram-se a dar sugestões para melhorar a PEC.
Em mensagem enviada aos senadores da CCJ, o presidente da AmeBrasil, Sigfrido Maus, afirma que a emenda acarretaria perda de status das organizações.
“A proposta, se aprovada e inserida na Constituição, poderá produzir significativas mudanças na atual estrutura das instituições policiais e militares estaduais, com reflexos diretos na sua atuação. É bom salientar que são instituições centenárias na história brasileira e que vem se moldando às necessidades cada vez mais exigentes de melhoria de qualidade. Ademais, são meras partes de um sistema de persecução penal, o que, de imediato, coloca em dúvida se uma radical mudança nelas não irá trazer reflexos em todo o sistema, que envolve, inclusive o poder judiciário e o ministério público na área criminal”, diz na carta. O militar enfatiza ainda o argumento de Tuma de que “nada garante que essa medida vá contribuir para a diminuição da criminalidade, podendo, ao revés, gerar conflitos de atribuições internos no órgão agrupador dessas atividades”.
“Baixo clero” quer mudanças profundas, diz tenente
De acordo com o presidente da Associação dos Militares Auxiliares e Especialistas (Amae), Tenente Melquisedec Nascimento, o “baixo clero” das polícias militares de todo o Brasil é a favor da emenda. “Calculo que mais de 90% dos soldados, cabos, sargentos, subtenentes, tenentes e capitães PM do país sejam favoráveis a mudanças profundas no modelo de polícia. Pergunte a PMs nas ruas para conferir”, desafiou Melquisedec.
Em manifesto enviado por e-mail em nome da associação de PMs, Melquisedec afirma que a PEC 21/05 garante espaço para que a sociedade discuta, nas respectivas Assembléias Legislativas, qual o modelo de polícia que melhor convém a cada estado. Ele defende o modelo unificado: "Para atender satisfatoriamente às necessidades da população, é imprescindível que haja nos estados uma única polícia, capaz de efetuar o policiamento ostensivo e investigar, com todo o serviço de inteligência submisso a apenas uma autoridade e obedecendo a somente uma doutrina de formação".
Soares defende Guarda Municipal integrada com estado
Para o antropólogo Luiz Eduardo Soares, secretário de Valorização da Vida de Nova Iguaçu e formulador do Plano Nacional de Segurança Pública, os estados são diferentes, assim como seus problemas, suas polícias e suas realidades políticas. “Segurança não se faz só com polícia. Faz-se com políticas preventivas especificamente desenhadas para esse fim, concebidas com base em diagnósticos precisos, sensíveis às particularidades locais e aptas a interceptar as dinâmicas imediatamente geradoras da violência”, afirma, em artigo publicado em seu site pessoal.
Soares destaca o papel das Guardas Municipais nos novos modelos possíveis com a desconstitucionalização das polícias. “O artigo 144 diz que segurança pública é dever do Estado e responsabilidade de todos. Mesmo sem poder de polícia, a Guarda Municipal não está impedida de cumprir um relevante papel na provisão de segurança. E o fará tão melhor quão mais integrada estiver com o núcleo de coordenação das políticas preventivas e com as polícias estaduais”, defende, seguindo a linha do que disse em chat realizado no Comunidade Segura, à época das eleições: “Viva a diferença e a criatividade, o experimentalismo e a liberdade.”
(Com informações da Agência Senado)
Saiba mais:
Congresso Nacional quer mais segurança
Em outros sites:
Projeto que permite unificação de polícias é retirado de pauta
Carta do presidente da AmeBrasil aos senadores
Luiz Eduardo Soares defende a desconstitucionalização das polícias
Transcrição de chat com Luiz Eduardo Soares no Comunidade Segura
Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ)
Tramitação da PEC 21/05 no Senado
Associação dos Militares Auxiliares e Especialistas (Amae)
Associação dos Oficiais Militares Estaduais do Brasil (AmeBrasil)








Comentários
UNIFICAÇÃO DAS POLÍCIAS
O problema consiste justamente o da concentração de poderes a uma só pessoa, como é o caso do militarismo. A Polícia como militar só serviu a seus propósitos na época da ditadura. Hoje em dia, ela faz parte somente da "Polícia de ciclo incompleto", onde ela quase que na maioria das vezes chega ao local do crime primeiro, e por total despreparo e por não fazer parte de sua alçada, não isola o local do crime satisfatoriamente, não toma depoimentos importantes de quem passava no local na hora do crime, desfaz o local, abandonado-o e conduzindo o preso até a Delegacia Policial, para que um Policial Civil, que não participou em nenhum momento da ação, possa dar andamento a investigação, começando praticamente do ZERO. Esta é a Polícia que nós temos hoje no Brasil, uma Militar que usa homens "à paisana" para prender e fazer investigações e uma civil, que como é o caso da PCERJ (Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro) que têm em seus quadros, a CORE (Coordenadoria de Recursos Especiais) que usa em todos os seus homens, fardamento com coturno e tudo. Inclusive até os veículos blindados (caveirões) são idênticos na PMERJ e na PCERJ. Isto é só para se ter uma idéia do que acontece aqui no Estado do Rio de Janeiro e para abrir as mentes de quem ainda reluta em unificar as Polícias.
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