Não atire!

* Colaborou Aline Gatto Boueri

baixararma1.jpg“Não nos interessa de quem é a culpa ou a arma, queremos o fim da guerra. Aos chefes de tráfico em nossas comunidades exigiremos o fim dos ataques ou revide durante as incursões policiais. Aos comandantes de Batalhões, ao Comando das Polícias, ao Secretário de Segurança e ao Governador solicitamos que protejam seus homens e os incentivem a lograr êxito em suas funções sem colocar as suas e as vidas da população em riscos.”

O clamor é parte do manifesto “Favelas pela vida, sem tiros e tiroteios”, entregue na manhã desta sexta-feira, 23 de março, por líderes de mais de 40 comunidades do Rio de Janeiro ao diretor-executivo da ONG Viva Rio, o antropólogo Rubem César Fernandes. O objetivo é que a ONG, que há 13 anos desenvolve campanhas pelo desarmamento, pesquisas em segurança pública e projetos de prevenção à violência, ajude a fazer uma ponte entre as comunidades, o poder público e a sociedade “do asfalto”, promovendo a idéia de que tiros não devem ser dados e que as vidas de moradores e policiais devem ser protegidas.

plateia.jpgA meta já começou a ser atingida na cerimônia de entrega do manifesto, que reuniu, no pátio da ONG, na Glória, cerca de 200 pessoas, entre representantes de comunidades, do governo, da sociedade civil e da imprensa, que deu ampla cobertura ao evento. Os manifestantes - representantes do Morro do Adeus, Vidigal, Acari, Dendê, Coroa, Macacos, Turano, Alemão, Morro da Paz (Penha), Caracol (Penha), Asa Branca, Manguinhos, Rocinha, Parque Boa Esperança, Santa Marta, Grotão, Antares, entre outras comunidades – vieram andando, com faixas e cartazes, desde a Cinelândia, num percurso de mais de um quilômetro.

O manifesto, que pede a criação de escolas, postos de saúde, programas sociais e áreas de lazer como forma de evitar o crescimento da criminalidade, foi lido pelo presidente da Associação de Moradores do Complexo da Penha, Hércules Ferreira Mendes: “A vida tem que ter sentido e ser valorizada. Jovens, crianças e idosos não podem morrer todos os dias nos becos e escadarias da favela. Donas de casas, chefes de família e cidadãos de bem não podem ser alvejados na rotina de seu dia-a-dia, nos lares, nas ruas, nos sinais de trânsito. Policiais não podem ser mortos no exercício de sua função: o combate à criminalidade”.

“Isso não é palavrório, é uma tentativa que nunca foi feita. É a primeira vez que lideranças de diferentes comunidades, com diferentes ‘comandos’, se juntam para falar de um problema que afeta a cidade inteira, pedindo aliança do asfalto e da polícia. É fácil botar a cabeça no travesseiro e dizer que não adianta tentar fazer alguma coisa. O recado é simples: não atire!”, enfatizou Rubem Cesar.

O antropólogo enalteceu o difícil compromisso que os líderes estavam ali assumindo de pressionar as facções e milícias locais a não atirarem, nem em caso de confronto com a polícia. “Ninguém está falando para o bandido deixar de ser bandido ou a polícia deixar de ser polícia. O que o manifesto diz é ‘alguém têm que baixar a arma’”, destacou.

"Dá pra segurar essa arminha que fica coçando?"

Rubem Cesar frisou o compromisso do Viva Rio em levar ao comando da polícia o seguinte recado: “Como é que se faz para vocês não atirarem, companheiros? Dá pra segurar essa arminha que fica coçando?” E completou: “Resposta? Não sabemos e não temos obrigação de saber. Mas sabemos perguntar. A resposta quem tem que dar são eles, que têm a autoridade, o poder e a capacidade.”

rossino.jpgA má conduta de policiais que já chegam na comunidade atirando foi denunciada na maior parte das falas dos líderes comunitários. “A polícia tem que trabalhar com inteligência, e não sair para o confronto. Ela entra nas comunidades em horário impróprio, de saída de crianças da escola, dos trabalhadores para o trabalho”, acusou Rossino de Castro, presidente da Federação de Favelas do Estado do Rio de Janeiro (Faferj). Ele disse que as comunidades estão abandonadas, e que o governo é ausente e não faz nada de social nelas.

Ao responder à pergunta da repórter do jornal O Estado de São Paulo sobre como os líderes conseguiriam convencer os bandidos a não atirarem, o líder Hércules Ferreira Mendes explicou que isso é um “trabalho de formiguinha”. “Cada liderança tem sua maneira de conversar com os segmentos de sua comunidade. É importante que a imprensa entenda o papel do líder comunitário para que não julgue erroneamente”, afirmou.

Hipocrisia não

O desrespeito da imprensa pelas lideranças comunitárias foi denunciado por Osmar Vargas, da Assessoria de Políticas Comunitárias do Viva Rio. “É uma hipocrisia dessa sociedade não reconhecer que as lideranças comunitárias convivem com aquilo que existe de bom e de ruim numa comunidade. Conversa-se, sim, com quem domina o território armado. Essa conversa se faz desde a infância, quando, garotos, estudam na mesma sala. Depois um vai por um caminho e outro por outro, e não vão continuar conversando por quê? Temos que deixar de ser hipócritas. Na hora que a liderança coloca a cara, a primeira coisa que a imprensa faz é dizer que a liderança está associada ao tráfico”, acusou.

Vargas foi aplaudido no meio da fala quando disse que a imprensa nunca publica o sobrenome do traficante, sempre associando-o ao nome da comunidade.

Num discurso inflamado, o vice-presidente da Faferj, José Nerson de Oliveira, endossou a fala de Vargas: “Se a minha mulher lava roupa com a mulher do bandido, meu pai joga sinuca com o pai dele, meu filho estuda com o filho dele, como posso me tornar presidente da Associação de Moradores e dizer que ele não pode mais falar no telefone comigo nem ir na sede da Associação? Isso é demagogia”, esbravejou.

Choro coletivo

Iracilda Toledo Siqueira, do Grupo de Familiares de Vítimas da Chacina de Vigário Geral, disse que a sociedade tem que cobrar mais da polícia e do governo para que façam projetos que apóiem as comunidades, prevenindo assim a violência. “Choro pelo meu marido que morreu na chacina, mas não quero chorar pelos meus filhos”, sintetizou.

O pai do jovem Tiago, morto, segundo ele, pela polícia, na última sexta-feira na comunidade do Caju, mostrou a foto e o boletim escolar do filho, alvejado quando fazia compras no mercado. Seu discurso comovente levou boa parte do público às lágrimas.

Presente ao evento, o vice-governador do Rio, Luiz Fernando Pesão, condenou o mau uso da força policial.  “A polícia que vocês pagam com seus impostos não pode entrar no lugar onde vocês moram atirando”, disse. Ele ressaltou a necessidade de o comando-geral da PM intervir nas ações policiais para parar com as mortes, mas afirmou que não se pode mudar a lógica da corporação em 90 dias.

Sobre a posição do governo do estado em relação ao uso dos blindados (ou “caveirões”, na linguagem popular), reclamação recorrente dos líderes comunitários, o vice-governador disse que o governo irá conversar com comunidade e polícia para pensar como o blindado pode ser usado para proteger o policial sem com isso colocar a população em risco.

Pesão falou ainda da importância de políticas sociais e anunciou a instalação de 30 postos de saúde nas comunidades como parte da estratégia para que o estado se faça mais presente nesse locais. O vice-governador se dispôs a ser um canal de comunicação entre comunidade e governo para mudar o cotidiano de violência.

Saiba mais:

Manifesto “Favelas pela vida, sem tiros e tiroteios”

Dossiês:

Segurança no Rio de Janeiro

Milícias, ameaça paramilitar? 

Comentários

Favela pela vida, sem tiros e tiroteios

A foto de capa do jornal O Globo explicita a tensão pela qual passam os moradores dos locais em conflito e sintetiza toda a problemática sobre o tema... Suzana Mattos

Faltou mais atenção da mídia

Acho que a mídia não deu a devida atenção e credibilidade a este manifesto, dando a entender que existe sim preconceito, por parte deste setor, às atividades desenvolvidas por lideranças comunitárias. Marcelo Peixoto

reativar o manifesto

Acredito que este manifesto e articulaçoes em cima dele precisam ser reativadas... gostei muito da proposta mesmo que a grande midia nao tenha dado a atenção devida. Passamos por um periodo grotesco nas atitudes tanto de policiais quanto de traficantes. Por exemplo o caso do Complexo do Alemão nada mais e do que vingança... e não investigação.

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