'Gangues são um problema global e permanente'

hagedorn_port2.JPGO problema da violência armada organizada em grandes cidades não é passageiro e isso só mudará quando o niilismo e a marginalização crescentes nos quintais da globalização não forem tratados com maior atenção. A afirmação está do novo livro de John Hagedorn, pesquisador especializado em gangues, "A world of gangs, armed young men and gangsta culture", lançado pela Editora da Universidade de Illinois, em Chicago, Estados Unidos.

Segundo Hagedorn, sua pesquisa vai de encontro à tendência natural dos círculos acadêmicos ao falar da importância de compreender que as gangues são atores sociais que emergem como expressão de uma juventude sem oportunidades em busca de sua identidade. “Eles não têm empregos”, diz Hagedorn, “e perceberam que o racismo e a opressão dos quais são vítimas não estão diminuindo. Eles reagem de forma brutal e acabam fazendo com que a violência se volte contra eles e suas comunidades.”

Crítico do legado criminalista que tende a encarar as gangues como um fenômeno local, Hagedorn as enxerga de forma global. “Hoje há mais em comum entre gangues de Chicago, Los Angeles e Rio de Janeiro do que havia no passado”, afirma o pesquisador na introdução do livro. Assim como não são novas, as gangues também não têm uma única faceta. São “mutantes”, assumem diferentes formas e se transformam em milícias, grupos que vendem drogas, vigilantes, mercenários, partidos políticos ou mesmo polícia religiosa.

Para além dos círculos acadêmicos americanos, o departamento de Estado dos EUA vê as gangues como uma problema global. Por outro lado, o pesquisador e o governo divergem quando o assunto é prevenção à violência. Enquanto o Estado baseia sua estratégia na repressão, Hagedorn afirma que a saída para o ciclo de violência armada e domínio de território por esses grupos é chamar quem está excluído dos processos sociais para “participar de movimentos sociais, abandonar a violência e seu comportamento anti-social.”

De acordo com Hagedorn, os movimentos sociais dos anos 1960 falharam nesse aspecto e hoje a batalha contra o aumento dos índices de homicídio deve ser encarada na esfera cultural. O gangsta rap, criado por grupos de jovens cheios de raiva e armas, e apropriado por multinacionais da música, fez da violência e do machismo bandeiras de uma rebelião. No entanto, o pesquisador afirma que há no hip hop espaço para mensagens mais positivas. Em conversa com o Comunidade Segura, ele convida a ouvir o que os precursores do movimento têm a dizer:

“Dentro do movimento hip hop é absolutamente crucial assumir uma postura de combate à cultura machista e violenta. Há tantos rappers, homens e mulheres saudáveis e bonitos, espalhando mensagens de coragem, igualdade e justiça que podem servir de inspiração para nossos jovens. O machismo e a violência não começam com nossos jovens, eles fazem parte da cultura e das instituições sociais. Precisamos de movimentos sociais que consigam unir veteranos e jovens para a construção de um mundo melhor.”

O futuro da violência armada é, em diferentes maneiras, atrelado à vida das crianças e jovens sem futuro, afirma Hagedorn, que contribuiu para o livro "Nem guerra nem paz", de Luke Dowdney, uma análise do envolvimento de crianças e jovens em violência armada em dez países.

“Em ambientes onde há armas, os jovens correm grandes riscos. Eles são freqüentemente cooptados pelos mais velhos para realizar trabalhos de maior periculosidade, e são mais propensos a se tornarem vítimas de negociações mal-sucedidas de drogas, de vinganças ou de tiroteios com a polícia. Isso significa que devemos levar mais a sério as necessidades culturais da juventude, apoiar atividades que mostrem que há sentido na vida fora da cultura niilista das ruas”, analisa Hagedorn.

Apesar das afirmações do pesquisador, não é hora de olhar as gangues de forma romântica, elas são peças fundamentais e muito características dos novos tempos. Entretanto, sua capacidade de assumir múltiplas faces pode ser uma esperança de mudança, como a Conservative Vice Lords, de Chicago, ou a Almighty Latin King and Queen Nation, de Nova York, nos anos 1990. “Estes grupos deixaram um legado positivo em suas comunidades que não foi reconhecido”, lamenta Hagedorn.

Traduzido por Aline Gatto Boueri

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