Cúpula Antigangues superdimensiona fenômeno

ENTREVISTA/Jeannette Aguilar

A contenção da ação das gangs unicamente através da repressão policial pode resultar num agravamento do problema a médio prazo. A avaliação é de Jeannette Aguilar, diretora do Instituto Universitário de Opinião Pública (Iudop) de El Salvador, que participou da Primeira Cúpula Antigangues, realizada em fevereiro em Los Angeles, Califórnia, nos Estados Unidos. O encontro reuniu representantes de Belize, Honduras, Guatemala, El Salvador, México, EUA e Canadá com o objetivo estimular uma cooperação entre polícias da região para combater a violência relacionada a gangues. “Trata-se de uma estratégia de policiamento regional, já que a ênfase está na repressão policial”, destaca Jeannette.

Nesta entrevista ao Comunidade Segura, ela frisa que o fenômeno das gangues é superdimensionado ao ser abordado como uma questão de segurança nacional e regional. Enquanto isso, outras expressões de violência, como o crime organizado, são ignoradas, ainda que ameacem a estabilidade regional.

“Acreditamos que há uma insistência em abordar um fenômeno complexo, multidimensional e multicausal a partir da ótica policial e de segurança, ignorando outros fatores associados e, assim, outras perspectivas de abordagem, o que gera uma contenção temporal desses grupos, com um eventual agravamento a médio prazo”, adverte.

Do que tratou a Cúpula Antigangues?

Com relação ao encontro de polícias da América Central em Los Angeles, com base na informação que tenho e que circulou no país um dia antes da chegada do procurador-geral dos EUA, é que se trata de uma estratégia de policiamento regional, já que a ênfase está na repressão policial. Querem melhorar os mecanismos de intercâmbio de informação, estabelecer uma ordem de captura regional, banco de dados de impressões digitais de suspeitos, para identificar sua identificação e captura.

E quanto à prevenção?

Ainda que tenham incorporado no discurso o tema da prevenção, não creio que na prática se queira dar muita ênfase nesse aspecto, pois o tema está sendo abordado a partir da perspectiva policial.

Qual é a posição do Iudop com relação a isso?

Acreditamos que há uma insistência em abordar um fenômeno complexo, multidimensional e multicausal a partir da ótica policial e de segurança, ignorando outros fatores associados e, assim, outras perspectivas de abordagem, o que gera uma contenção temporal desses grupos, com um eventual agravamento a médio prazo, assim como ocorreu nos países do triângulo norte (Guatemala, Honduras e El Salvador), assim que os planos Tolerância Zero, Mano Dura e Escoba foram implementados.

Por outro lado, a questão das pandillas é superdimensionada quando abordada como uma questão de segurança nacional e regional. Enquanto isso, outras expressões de violência, como o crime organizado, são ignoradas, ainda que ameacem a estabilidade regional.

Por quê?

Creio que os EUA apóiam o plano regional antigangues porque é uma forma de ampliar seu controle territorial sobre esses países, como uma ferramenta para sua luta antiterrorista, e assim “garantir” a segurança de sua nação.

Por outro lado, os governos precisam identificar inimigos em comum para justificar incrementos orçamentários e apoios financeiros da cooperação internacional, e uma maneira de fazê-lo é perseguir expressões de delitos visíveis que geram medo e insegurança na população.

Como é o trabalho do Iudop neste sentido?

Fazemos pesquisa, não apenas nacional, mas também regional. Participamos de uma plataforma de incidência regional, cuja sede está no Iudop, chamada Coalizão Centroamericana para Prevenção da Violência Juvenil, pela qual se busca pressionar governos da região a favor de políticas públicas mais abrangentes e baseadas na abordagem da violência juvenil.

Qual é a situação atual do país?

Neste momento não há diálogo entre a polícia e as organizações da sociedade civil que trabalham com jovens. A partir do plano Mano Dura houve um afastamento e passou a existir maior desconfiança entre ambos os setores.

Traduzido por Aline Gatto Boueri

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