Diários da segurança pública

A cobertura que a grande mídia faz sobre assuntos relacionados a questões de segurança pública costuma inflamar debates e mexer com egos. De um lado, jornalistas alegam a reconhecida falta de tempo hábil para apuração, pesquisa e redação das reportagens; de outro, acadêmicos da área questionam valores éticos dos veículos de comunicação e sua indisposição para tratar do assunto de maneira mais aprofundada.

Mas como entre dois extremos há sempre um intervalo, uma nova forma de falar do tema foi descoberta. Os blogs ou sites independentes, que permitem maior interatividade com o leitor e também maior liberdade para a publicação de textos opinativos, têm sido utilizados por jornalistas para tratar da segurança pública de forma diferente com que fazem nos veículos onde trabalham.

Escreve, leitor

Jorge Antonio Barros, jornalista há 25 anos e autor do blog Repórter de Crime há quase dois, acredita que o espaço para que o leitor dê sua opinião é uma das grandes vantagens do novo meio. “O principal motivo para que as pessoas procurem o blog é a possibilidade de expor suas opiniões de maneira imediata e constante”, acredita o jornalista, que é editor adjunto da editoria Rio do jornal O Globo. Para ele, essa demanda é sinal de que a seção de cartas de leitores poderia ser maior nos jornais impressos.

Em iniciativa semelhante, Gustavo de Almeida, editor de Cidade do Jornal do Brasil, também usa o seu JBlog para falar da violência no Rio de Janeiro. No ar desde junho de 2006, Almeida introduz o leitor a seu espaço pessoal – vinculado ao JB Online – com um texto que reforça a idéia de que a aproximação com o leitor é um bom motivo para que jornalistas optem pelo blog, ainda que tenham espaço na grande mídia: “(...)o blog surgiu como forma de interatividade – e atualmente, interatividade é uma forma de amizade tão freqüente e legítima como jogar anos na mesma pelada ou dividir sobremesa em restaurante caro(...)”, avalia.

O blog nasceu como uma espécie de diário público, mas aos poucos ganha contornos de publicação especializada. Como se a informação contida naquele espaço fosse mais qualificada que a trazida pelos jornais todos os dias, em meio a tantos outros assuntos. Talvez por isso a idéia de um blog associado a um jornal possa soar estranha para leitores habituais.

O fotógrafo Rony Maltz, leitor e também autor de um blog em conjunto com outros cinco amigos, acredita que o modelo pode fugir ao esperado pelo público cativo. “A cobertura da grande mídia é pasteurizada, nos blogs você tem oportunidade de encontrar um corte diferente sobre um mesmo assunto”, opina. Para ele, é difícil que os blogs associados fujam da linha editorial do próprio jornal a que estão vinculados. “Não que os pessoais sejam ‘imparciais’, mas a parcialidade é evidente: o ponto de vista de cada autor”, avalia.

Para Jorge Antonio Barros, que há um mês aceitou o convite para associar seu Repórter de Crime, antes independente, ao Globo Online, não houve mudança na essência do que produz. “O que pode ter mudado é que antes eu usava uma linguagem mais coloquial, intimista. Como agora o público é pelo menos dez vezes maior, procuro fazer um texto mais jornalístico, mas ainda assim dou vazão à minha visão de mundo”, afirma.

356 e contando

Em uma linha diferente, o Rio Body Count (algo como "contagem de corpos no Rio" em português) surgiu como fonte de informação específica sobre assassinatos na cidade, contados a partir da reprodução de notícias publicadas em jornais. O site tem uma equipe composta por profissionais de comunicação e colaboradores. Até a publicação desta reportagem, o contador mostrava 356 mortes, desde 1 de fevereiro de 2007.

Mas como são noticiadas essas mortes pela grande imprensa? Para Luiz Gonzaga Motta, professor das disciplinas Leitura Crítica da Mídia e Crítica da Mídia, respectivamente obrigatória e eletiva do curso de Comunicação Social da Universidade de Brasília (UnB), os jornalistas precisam rever o que ele chama de “valores-notícia”. “A questão da segurança tem sido coberta como violência porque a mídia prefere o sensacional, o impactante, o dramático”, analisa.

Para ele, a busca de jornalistas por sites pessoais reflete uma falta de atitude em direção a mudanças na cobertura feita pelos veículos de grande circulação, embora reconheça melhorias. “De 1995 até 2002 os jornalistas passaram a ouvir mais a sociedade civil, apesar de poder público ainda ser a fonte principal”, informa.

O professor acredita que uma boa reportagem em segurança pública deve dar espaço aos atores interessados, que o jornalista deve estar atento a preconceitos e pré-julgamentos, não deve se restringir ao caráter factual da cobertura, deve buscar causas e conseqüências sociais da ocorrência relatada, sempre que possível acrescentar dados importantes para aquela notícia, fazer referência a políticas públicas da área, mencionar leis pertinentes àquele evento, buscar refletir sobre o enquadramento que dá à matéria, buscar sempre concluir ou integrar na matéria soluções alternativas para resolver a questão. “Queremos fazer a crítica, mas ao mesmo tempo propor soluções”, conclui.

Leia os blogs citados na reportagem:

Repórter de Crime, de Jorge Antonio de Barros

JBlog de Gustavo Almeida

Rio Body Count

O sofá verde, blog no qual Rony Maltz escreve

Saiba mais:

Segurança: um desafio para as redações

Policiais do Rio abrem o verbo na internet

Em outros sites:

Políticas públicas na pauta dos estudantes de jornalismo (por Marta Avancini, no Observatório da Imprensa)

Comentários

Gostaria de agradecer a

Gostaria de agradecer a oportunidade de virar notícia no belo site de vocês e dar os parabéns a Aline pela exatidão da minha entrevista. Estou fazendo isso porque em geral entrevistado tem mania só de reclamar do que sai publicado. rs

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