Tráfico começa a caçar milicianos

Gustavo de Almeida e Ricardo Albuquerque

Traficantes de drogas ligados à Cidade de Deus estão sendo investigados pela morte do inspetor de Polícia Civil Félix dos Santos Tostes, 49 anos, apontado por relatórios da Secretaria de Segurança como chefe de milícias na Zona Oeste - principalmente na Favela de Rio das Pedras, onde há ação das milícias há mais de 10 anos. O inspetor chegou a ocupar cargo de assessor da chefia da Polícia Civil, mas foi afastado por causa das suspeitas de ligação com milícias. Félix foi assassinado com mais de 30 tiros, em sua picape, no Recreio dos Bandeirantes.

O inspetor dava ré em seu carro para sair do prédio 475, na Rua Senador Ruy Carneiro, onde havia visitado uma amiga, quando foi abordado por vários homens armados, todos dentro de um Astra. Cercado, ele levou mais de 30 tiros de fuzil. Ao saber que Félix estava morto, a amiga desceu e gritou na rua que o vereador Nadinho do Rio das Pedras era o culpado. Uma mulher, ainda não identificada, também foi ferida e levada para o Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra.

No episódio de sua saída do gabinete da Chefia de polícia, Félix teve abandono de emprego declarado pelo delegado Gilberto Ribeiro. O chefe de Polícia encaminhou para a Corregedoria da Polícia Civil em janeiro seu pedido de afastamento, se baseando também em uma carta anônima, na qual era relatado o envolvimento do inspetor com milícias na Favela de Rio das Pedras e a cobrança de taxas de segurança dos moradores. No entanto, Félix deu plantão como policial na última quinta-feira.

No total, o inspetor respondia a dois inquéritos e uma sindicância. Um dos inquéritos está na Delegacia de Repressão às Ações Criminosas e de Inquéritos Especiais (Draco) e o outro na Corregedoria da Polícia Civil, onde está também a sindicância. Félix negou nos depoimentos que tivesse participação em milícias, mas havia várias denúncias anônimas relatando fatos na comunidade de Rio das Pedras.

O policial civil havia recebido em setembro a medalha de Honra, Fidelidade e Devotamento da instituição, das mãos do então chefe de Polícia Civil, Ricardo Hallack. Em março de 2005, Félix recebeu também a Medalha Pedro Ernesto, do vereador Nadinho de Rio das Pedras, a quem segundo moradores da região, ajudou a eleger.

É a segunda morte este mês de policial suspeito de envolvimento com milícias, o que parece indicar uma reação do tráfico aos grupos paramilitares.

A polícia investiga inclusive se foram traficantes que executaram, no dia 3, o cabo Jorsan Machado de Oliveira, do Batalhão de Choque. Jorsan era investigado por suposto envolvimento com o bicheiro Rogério Andrade, chefe de uma das máfias de caça-níqueis, e com o ex-chefe da Polícia Civil do Rio e deputado estadual Álvaro Lins (PMDB), acusado em inquérito da PF de proteger a quadrilha do contraventor. O crime aconteceu em frente à quadra de ensaios da Escola de Samba Renascer de Jacarepaguá.

Fonte: Jornal do Brasil

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