Novas abordagens para a violência das gangues

O Comunidade Segura conversou com o comandante em exercício do Departamento de Polícia de Los Angeles, Gary Brennan, um dos organizadores da Cúpula Internacional de Chefes de Polícia sobre Gangues Transnacionais que aconteceu em Los Angeles na primeira semana de fevereiro.

As forças de segurança e procuradores da Justiça dos Estados Unidos se uniram ao Departamento Federal de Investigação (FBI) num esforço para combater a violência das gangues dentro do país em na América Central. A cidade de Los Angeles, onde moram mais de 40 mil membros de gangues, ficou sendo conhecida como o "marco zero da atividade de gangues", nas palavras do diretor assistente do FBI, J. Stephen Tudwell.

Entre as medidas para combater os crimes praticados pelas gangues está a criação de uma unidade para investigar especificamente homicídios cometidos por membros de gangues. Para além das fronteiras, as Unidades Transnacionais Anti-Gangues (TAGs) irão desenvolver operações coordenadas em cinco países: Estados Unidos, Guatemala, El Salvador, Honduras e Belize. Além disso, as TAGs vão coordenar um programa de intercâmbio internacional de policiais.

A política norte-americana de deportação foi criticada durante o encontro por contribuir para o aumento da violência das gangues, o que demonstrou a necessidade de intercâmbio de dados sobre as atividades criminais dos deportados. No geral, os chefes de polícia dos Estados Unidos, Canadá e de nações da América Central saíram da reunião com esperanças de uma interação maior entre as instituições.

Como surgiu a idéia de um encontro internacional que reunisse chefes de polícia?

A idéia foi de um oficial do FBI, Robert Loosley, que tem experiência na América Central tanto em treinamento como em execução, como forma de desenvolver parcerias entre as agências de segurança da região. A polícia de Los Angeles também pressionou pela realização da conferência. Agora, o que levou mesmo à realização do encontro foi a ação da gangue Mara Salvatrucha, conhecida como MS13.

É verdade, como vem sendo veiculado pela mídia, que a violência das gangues está mais difundida?

Eu acho que existe um pouco de exagero nisso. A violência praticada pelas gangues é uma preocupação mas varia de uma comunidade para outra. No caso da MS13, fora de Los Angeles, eu diria que existe uma preocupação em algumas comunidades perto de Washington DC, e o FBI tem informações de atividades de gangues em Huston, no Texas. O FBI está sempre mapeando as áreas mais sucetíveis à violência das gangues.

A violência praticada pelas gangues em Los Angeles tem sido associada com o preconceito racial enquanto na América Central e na América do Sul essa violência estaria ligada ao tráfico de drogas. São dois universos realmente diferentes?

A natureza dos crimes praticados pelas gangues variam muito. Alguns são motivados pela rivalidade entre os grupos, outros por disputa de território, a maioria pelos lucros com o tráfico de drogas, e até por condições sociais, como é o caso das comunidades pobres. Um percentual muito pequeno de crimes está associado ao preconceito racial. No entanto, parece que são esses crimes que têm maior visibilidade na mídia, como se o público fosse de alguma forma aceitar crimes motivados por razões mais tradicionais do que aqueles motivados pelo ódio racial.

Alguns fatores para o aumento da violência vêm sendo discutidos pela mídia. Um deles são as prisões. Os sistemas correcionais além das fronteiras foram discutidos durante o encontro?

É um fato de que nas prisões os membros de gangues passam muito tempo juntos e usam o trabalho em equipe para aperfeiçoar seu estilo. Entretanto, nós acreditamos que cada país tem que direcionar o problema de acordo com as suas leis internas.

Existe alguma mudança relativa ao procedimento de deportação adotado pelos Estados Unidos?

O governo dos Estados Unidos vai deportar qualquer não-cidadão que violar as leis norte-americanas e a maioria vai ser deportada como pessoas que cometeram crimes violentos. Uma das reclamações ouvidas durante o encontro foi que não existe informação suficiente sobre estas pessoas, mas a verdade é que existem leis complicadas que regulam o compartilhamento dessas informações. Serão encontradas soluções mas, nesse momento, o tópico ainda está em discussão.

A cúpula foi marcada pelo anúncio do general Alberto Gonzales sobre a criação das Unidades Transnacionais Anti-Gangues (TAGs) em El Salvador, Honduras, Guatemala e Belize. Essas unidades já estão em operação?

As TAGs são um novo programa que está sendo desenvolvido pela Procuradoria Geral da República e pelo FBI. Até gora nós vínhamos trabalhando com uma filosofia de país para país. Essa é a primeira ação coordenada nessa escala. O processo está caminhando e esperamos que as primeiras unidades estejam operando já no próximo verão.

Existem políticas específicas para tratar do problema de crianças e adolescentes envolvidos em violência armada?

Na verdade, nós não vemos crianças de 10 anos envolvidas em violência, mas nessa idade elas com certeza já estão expostas às gangues e constróem a idéia de pertencimento até que entram para alguma gangue. Aos 15, 16 e 17 anos eles já estão cometendo atos violentos. Mas a idade em que esses jovens realmente cometem crimes é entre 19 e 23 anos. A estratégia voltada para os grupos mais jovens é de prevenção e intervenção.

O encontro discutiu políticas de prevenção da violência?

Organizamos quatro grupos de trabalho e um deles estava dedicado ao tema "Estratégias de Prevenção e Intervenção". Os outros três discutiram a melhoria do compartilhamento de informações; a identificação dos membros mais violentos e o Programa de Intercâmbio de Policiais.

O senhor poderia falar um pouco sobre este programa?

A idéia é fornecer treinamento cruzado e troca de informações através de um programa de intercâmbio. Ao levar nossos oficiais para outras agências e trazer oficiais das outras, estamos não só aptos a fornecer o treinamento necessário como a experiência no campo dos crimes praticados por gangues.

Qual foi o principal resultado deste encotnro na sua opinião?

O mais importante foi que todos os departamentos de polícia envolvidos concordaram em trabalhar juntos e manter esta parceria para resolver o problema.

Saiba mais:

O fim da guerra contra as gangues em Los Angeles

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