Um modelo de transformação real
Tradução Shelley de Botton
De gangue juvenil sob suspeita de envolvimento com a violência a associação cultural legal. Esse é o passo que deram os Latin Kings, jovens da Catalunha, comunidade autônoma da Espanha. Orgulhosa por não ter qualquer vínculo com atividades violentas, a recém-nascida associação conta com 200 membros e pretende divulgar a cultura latina e incentivar a integração dos jovens emigrantes na sociedade, segundo a presidente da associação, Melody Jaramillo.
Depois de três anos e meio de consultas a especialistas e à Prefeitura de Barcelona, os Latin Kings conseguiram inscrever o grupo no registro de associações do Departamento de Justiça em julho de 2006. Em seu caminho até a legalização mudaram até de nome. A nova associação se chama Organização Cultural de Reis e Rainhas Latinos da Catalunha. Mas a mudança não foi de graça.
"Queremos nos desvincular de qualquer acusação de sermos uma gangue criminosa", explica Jaramillo. Mais conhecida entre seus hermanos como rainha Melody, a líder afirma que, se algum de seus membros comete um delito, "isso não implica incriminar toda a associação".
Para o especialista em movimentos juvenis Carles Feixa, da Associação Internacional de Sociologia, a diferença entre a percepção que a população tem desses grupos e sua efetiva participação na delinqüência é a mesma que existe entre o mito e a relidade: "pode haver jovens implicados em delitos, mas não são nem mais nem menos que nos grupos sociais de referência: jovens emigrantes do sexo masculino", explica.
O antropólogo da Universidade de Lleida foi um dos especialistas convidados pela Prefeitura de Barcelona para analisar os Latin Kings de perto e estudar sua integração na cidade. A pesquisa detectou que dos 50 mil jovens latinos que vivem em Barcelona, entre mil e 2.500 teriam contato ou pertenceriam a uma gangue urbana. Motivo suficiente para que a Prefeitura se movimentasse para prevenir possíveis problemas de delinqüência juvenil de origem étnica.
"Não resolve todos os problemas, mas abre um caminho para a integração social, que é a chave da questão", garante Feixa. Ele qualifica de corajosa a atitude da Prefeitura de Barcelona que, ao contrário de outras administrações municipais, entre elas a da capital Madrid, se negam a tê-los como interlocutores e aplicam políticas de tolerância zero, "rentáveis eleitoralmente mas nefastas socialmente".
Os novos reis e rainhas
Estimular a educação e os valores, divulgar os direitos humanos e favorecer a participação de jovens em projetos educativos, culturais e esportivos são alguns dos pontos incluídos no estatuto da nova entidade. Os artigos do estatuto foram redigidos por uma equipe de juristas e acadêmcios da Universidade de Barcelona e de organizações de defesa dos direitos humanos e adaptados pelos líderes da organização à sua "bíblia".
O discurso se choca claramente com a imagem de violência que sempre foi associada aos Latin Kings, uma das organziações juvenis com maior presença internacional - principalmente nos Estados Unidos e no Equador -, criada como uma irmandade de apoio aos "rapazes latinos", e que surgiu no cinturão industrial de Barcelona no fim de 2002.
Mas a solução não podia ser mais sensata. "Enquanto eles corriam atrás do desejo de ser reconhecidos, nós pensávamos na necessidade do respeito às regras básicas de convivência, sobretudo da democracia, o fim da violência e a supressão de supostos ritos de inciação", declarou ao jornal El País Josep Maria Lahosa, diretor do Serviço de Prevenção da Prefeitura de Barcelona, observatório e célula de reflexão para questões de segurança criado na década de 80.
'Somos una família'
O caso catalão é pioneiro e Melody espera que a experiência sirva de modelo para outras comunidades na Espanha e no mundo. A rainha e presidente da agremiação, nascida no Equador há 32 anos, garante que a entidade servirá para favorecer a integração dos jovens na sociedade catalã. "Você deixa sua família, seu país e vem a um país desconhecido. É difícil. Por isso somos como uma família, nos escutamos e nos ajudamos", explica.
Dos 200 membros da associação, a maioria é de equatorianos. Mas também tem rapazes e moças de outros países sul-americanos. Entre as atividades realizadas até agora estão torneios de futebol (Champions King), um filme documentário, concertos musicais (já gravaram um disco) e uma vez por mês são realizadas visitas aos jovens que vivem nas ruas da cidade. "Temos muitos projetos", conclui Melody.








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