De perto dói mais
Queria ter me despedido do ano de 2006 com outra imagem que não aquela que marcou a passagem de quarta para quinta-feira (27 e 28 de dezembro) em nossa cidade - digo nossa porque o Rio é um patrimônio coletivo. Diversas foram as explicações sugeridas para que pudéssemos entender este episódio dentro do triste e ameaçador quadro da Segurança Publica local.
Possivelmente há breves verdades em tudo que foi dito. O evidente avanço deste absurdo conhecido como milícias, o controle das favelas orquestrado de dentro do sistema prisional, o escandaloso envolvimento de policiais – civis e militares –, os (des) governos vividos no Rio... Elementos de nossos tempos atuais que deixam marcas permanentes.
As imagens desta noite e manha de dezembro refletem um pouco de tudo isso. O que fazer? Como reagir? De que maneira seguir a vida? Ou pior, como seguir a vida em meio a situações como esta?
A explicação já parece dada. Os episódios parecem já ultrapassados, os habitantes da cidade e do país assimilaram mais um evento de violência e barbárie no Rio de Janeiro.
Passado um mês, tentamos encontrar respostas prontas e eficazes, soluções evidentes e “manualizadas”, bem ao formato ensinado pela cultura norte americana. Mas não há respostas únicas e, assim, talvez uma das primeiras atitudes deva ser procurarmos mudar as perguntas.
Para relembrar aos mais desligados os fatos ocorridos: foram 11 mortos, sendo sete pessoas queimadas dentro de um Ônibus Rio-SP, dois policiais militares e dois civis. Cabines e Delegacias de policia foram atacadas e dezenas de ônibus incendiados.
O que fazer? A quem se dirigir? Acredito em ações múltiplas e simultâneas, humanizadas, coletivas, dialogadas e concretas. Nesta direção devemos mudar nossas atitudes, posições, crenças, incômodos, etc. Mas, sem soluções prévias, queria relatar minha ação pontual e inquietante neste episódio que insisto em não esquecer.
Era final de ano, semana morta, entre natal e ano novo, com troca de governo estadual e renovação da gestão nacional, muita gente fora e a imprensa voltada para as festas do final do ano. Eu conversava com o Ouvidor da Secretaria Especial dos Direitos Humanos Pedro Montenegro, parceiro das causas do estado do Rio. Pensávamos o que fazer.
A atitude pensada: procurar as vítimas para ao menos um gesto de carinho e conforto. Neste caso os principais vitimados eram policiais, turistas, uma ambulante e seu filho (ela acabou falecendo), e claro, todos nós. Iríamos aos hospitais.
Na sexta feira, dia 29 de dezembro, em companhia de Pedro Pontual, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos do Governo Federal, fomos visitar alguns feridos desta noite de horror. Escolhemos visitar os Hospitais Miguel Couto, Souza Aguiar e o da PM. Pedro chegou ao final da manha e marcamos para as 15h nosso encontro.
Chegamos ao hospital da PM, sem haver conseguido falar com o Cel. Hudson (comandante da PM) ou qualquer oficial de dia. Nos apresentamos como membros do Movimento de Direitos Humanos, com crédito de contarmos com um emissário direto do Ministro Paulo Vannuchi e eu com algum aprendizado dos rituais da PM.
Todos os presentes estranhavam. Eram três da tarde, do ultimo dia útil do ano, com troca de comando da PM e sem a companhia dos meios de comunicação. Tudo muito diferente do habitual.
Mas o fato é que estávamos lá. Depois de uma recepção fria e desconfiada foi-nos designado um sargento (Paulo – não sei o nome de guerra) para nos acompanhar na visita a cada um dos feridos.
Tínhamos a informação que seriam sete, mas não sei se por sarcasmo, oportunismo ou simples desorganização, visitamos 13 leitos. Em cada quarto a mesma cena: policiais na cama e seus familiares ao redor, acompanhantes invariavelmente mulheres (mães, filhas, companheiras, vizinhas, etc).
Chegamos lá guiados pela vontade de, de alguma forma, expressar nossa revolta e inconformismo, mas sem saber como começar. Nada mais difícil do que estabelecer o primeiro contato. O que dizer? Em nome de quem? O que assegurar? Que tipo de esperança poderíamos dar?
Pela primeira vez eu estava diante de uma situação onde o policial se encontrava vulnerável, indefeso e humanizado. Não se tratava da instituição PM, mas de seus indivíduos. Eu estava prestes a entrar na intimidade e fragilidade de cada um daqueles sujeitos da Segurança Publica a quem nos acostumamos a ver apenas de uniforme. Bem, era seguir e ver o que daria.
A imagem de um hospital público é bem conhecida: corredores sombrios, enfermarias simples e tristes. Seguíamos caminhando os três, procurando qualquer assunto para estabelecer algum vínculo.
Quando chegamos à primeira porta ainda não sabíamos o que dizer. Sinceramente a vontade era pedir desculpas por estar ali e ir embora. Seria ridículo, mas a vontade era esta. Esperávamos no corredor enquanto o Sargento entrava e comunicava nossa presença. Não vou falar de um a um, ainda que a situação fizesse jus, mas descrever um pouco do conjunto da situação.
Em sua maioria eram cabos e soldados, com idades semelhantes às nossas (a minha e a do Pedro Pontual), feridos por fuzil, ponto quarenta, granada, entre outros. Todos se diziam bem atendidos e confortados pela corporação, mas indignados pelo que viveram. Não falavam em justiça ou como vítimas do sistema, sabiam que na carreira que escolheram o fato de estarem em uma cama de um hospital era um risco assumido. Mas se diziam revoltados pela covardia que haviam sofrido.
Os relatos invariavelmente iniciavam descrevendo a direção de chegada dos “bandidos” e a impossibilidade de reação. Falavam com revolta e indignação, mas o que parecia ser mais duro era a incerteza do futuro. A possibilidade de aquela violência ocasionar o encerramento prematuro da carreira policial. Quando mencionávamos o futuro, todos, sem errar, queriam voltar para a policia, em geral para a rua (mesmo sabendo que seria improvável) e nesta hora os familiares invariavelmente demonstravam expressões de lamento e desolação.
Era difícil consolar tamanha dor, física e emocional. Falavam de filhos, mas nenhum havia permitido que as crianças fossem visitar. Nesta hora muitos pareciam chorar, mostravam fotos e comentavam da sorte de terem sobrevivido para poder reencontrar os filhos. Neste momento nos aproximávamos também das famílias e amigos companheiros de angustia e sofrimento.
Neste momento passávamos a entrar na intimidade daquele homem vulnerável e indefeso. Dois assuntos desmontavam qualquer um. Família e Futuro. Com exceção de uns dois ou três, os demais neste momento já agradeciam nossa presença.
Acreditavam que o motivo desta ação era a reação sobre o avanço das milícias nas comunidades, mas não pareciam muito seguros também. Não era momento de especulação, mas de solidariedade.
Impressionante como é possível construir e desmontar estereótipos rapidamente. Sigo com a convicção de que nós, que visitamos, e eles, que foram visitados, nos tornamos pessoas diferentes a partir deste dia. Nada disso vai mudar as regras ou o sistema, mas muda as pessoas.
Saímos de lá e fomos ao Souza Aguiar. Já passavam das 18h do ultimo dia útil do ano. Após uma pequena negociação na recepção fomos autorizados a subir e encontrar as duas vitimas que ali se encontravam. Haviam sido queimadas dentro do Ônibus que ia para SP. Doloroso, muito doloroso. Só falamos com uma, a outra dormia.
Era uma senhora que voltava para casa depois de ter ido passar o natal com os filhos no ES. Estava perplexa sem conseguir explicar porque ela havia passado por isso. Estava sozinha e triste, mas esperançosa no futuro. Como os policiais, ela passaria a noite do dia 31 no hospital e assim começaria um novo ano.
No aniversario de um mês deste fato, a humilde homenagem que podemos prestar é lembrar as vitimas diretas e buscar superar o fato não pela indiferença (ao fato ou às pessoas) mas pela capacidade de tratarmos do problema coletivamente e preventivamente.
Não há explicação para a capacidade dos seres humanos se destruírem. São incontáveis novas vitimas a cada dia, produzidas das mais variadas formas e situações. Em geral as respostas mais imediatas seguem sendo a repressão e controle, mas esta solução está entre aquelas da resposta pronta e preconceituosa.
Escolher o caminho da democracia, diversidade e diálogo exige reflexão, doação e compaixão. Mais direitos significam mais segurança, mais segurança sugerem mais direitos. Isto para mim são os Direitos Humanos. É isso que desejo para todos em 2007: Mais Direitos para Mais Segurança.
* Pedro Strozenberg é advogado e atua na área de Segurança Pública e Direitos Humanos. Se você é um usuário cadastrado no portal e está “logado”, veja mais informações sobre o autor clicando sobre sua assinatura acima.








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