O que adolescentes costumam fazer entre 23h e 2h? Em quatro cidades-satélite do Distrito Federal, eles fazem esporte. De uma parceria entre as Secretarias de Segurança Pública e de Educação surgiu projeto Esporte à Meia-Noite, implementado em Planaltina, Gama, Ceilândia e Samambaia. Desde 1999, quando os dois primeiros núcleos foram construídos, o projeto já atendeu 358 mil pessoas.
A escolha de Planaltina obedeceu a critérios objetivos: o local sofria com o conflito entre gangues que contribuía para altos índices de homicídios. “Percebemos que havia falta de opções de lazer e esporte para os jovens e decidimos construir dois núcleos, um em cada localidade onde estavam as gangues que maior problema ofereciam”, conta Carlos Eduardo Paes, coordenador do Esporte à Meia Noite. Segundo ele, nos três primeiros meses de funcionamento dos núcleos houve uma queda de 20% nos índices de violência da comunidade.
O horário de funcionamento dos centros esportivos pode parecer inusitado, mas tem uma explicação balizada: os idealizadores do projeto constataram que era justamente entre 23h e 2h que ocorria a maior parte dos crimes na região.
Abordagem policial compreensiva e eficiente
Para usufruir do espaço, os jovens não precisam mais que querer. Há à disposição deles ônibus que passam em horários determinados e cumprem sempre o mesmo trajeto rumo aos núcleos esportivos. O transporte é gratuito e a única exigência é que os passageiro passe por uma revista policial antes de embarcar. Paes explica que a medida é apenas preventiva e tem como objetivo garantir a segurança de todos.
“Os policias que trabalham conosco recebem capacitação para abordar os jovens. Eles criam um vínculo com a comunidade, o que faz com que deixem de ser apenas agentes de segurança, mas se tornem também uma referência”, garante Paes. Segundo ele, os policias são orientados a conversar sempre, mas nunca agir de maneira inquisitória, mesmo no momento da revista. “É importante a presença do Estado nesses locais e é importante que ela se faça de maneira compreensiva, eficiente, e sem que isso pareça um favor”, avalia.
Além de forças de segurança integradas – como corpo de bombeiros e polícias civis e militares – o projeto conta também com a participação de psicólogos e assistentes sociais que orientam os jovens acerca de assuntos como sexualidade e saúde, com palestras sobre métodos contraceptivos, prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e apoio a dependentes de drogas.
Jovens recebem atenção em lugar de punição
O Esporte à Meia-Noite trabalha com a compensação mais do que com a punição. O jovem que por ventura venha a se envolver com o crime é tratado pelos profissionais dos núcleos com compreensão. “Seria um castigo muito violento negar mais esta oportunidade ao jovem e expulsá-lo do núcleo. O convênio com a Secretaria de Educação nos dá informações sobre aqueles que abandonam a escola e nossos profissionais vão até eles para entender os motivos”, explica.
Para o coordenador do projeto, este trabalho é importante porque os núcleos atendem principalmente os estudantes do horário noturno de escolas em comunidades de baixa renda. “Eles não entram nas estatísticas e há poucos projetos para acompanhar seu desenvolvimento acadêmico”, lamenta Paes.
Os resultados do trabalho realizado pelo Esporte à Meia Noite foram medidos por uma pesquisa realizada entre maio e dezembro de 2006, realizada por profissionais sem envolvimento com o projeto. “Dos 500 jovens atualmente atendidos pelo projeto, 310 se prontificaram a responder às perguntas. O resultado foi animador: apenas 13% disseram ter se envolvido com o crime durante os oito anos de trabalho dos núcleos”, comemora Paes.
Integração entre comunidade e polícia é fundamental
Apesar do sucesso, o Esporte à Meia-Noite encontrou algumas dificuldades para sua implantação. Paes conta que as organizações comunitárias resistiram em acreditar que os núcleos não trariam maior violência policial para a área e alguns vizinhos chegaram até a reclamar do barulho. “Tivemos uma série de reuniões com as lideranças locais para vencer a resistência e apresentar o projeto. Hoje em dia temos que escolher a que comunidades levar os centros esportivos, porque muitas querem a implantação do Esporte à Meia-Noite”, conta Paes.
Para funcionar, os centros demandam um tripé básico: espaço físico segurado, boa iluminação e segurança ostensiva no local. Além disso, Paes diz que a participação da comunidade é fundamental para que ela receba um núcleo. A localidade interessada em receber um centro esportivo tem que provar que conta com um conselho comunitário de segurança organizado e que tem disposição para dialogar. “A segurança comunitária não pode ser imposta pelo governo, a comunidade tem que participar”, destaca.








Comentários
Esporte a Meia Noite
Gostaría de ter acesso a mais informações sobre o projeto, Sou Administrador de Empresas estou fazendo um MBA em Gestão de Projetos, e vou me dedicar a projetos esportivos. Moro em Salvador, uma cidade com altíssimo índice de homicídios e achei o prejeto muito interessante, gostaria de propor algo parecido a minha cidade.
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