Paz não é mero acordo entre desiguais
“Existem dois caminhos para a conquista da paz hoje: o do Bush e o de Jesus, que é o caminho do profeta Isaías. O caminho do Bush busca a paz pela imposição das armas; o caminho de Isaías é que a paz só virá como fruto da justiça, e é exatamente o que o Viva Rio e todos nós, identificados com os movimentos sociais, e as ONGs que lutam por uma sociedade melhor assumem na sua militância”. A fala, de Frei Betto, coroou a comemoração dos 13 anos da ONG Viva Rio, no Rio de Janeiro, na sexta-feira, 15 de dezembro.
Para Frei Betto, a paz não se faz com mero acordo entre desiguais. “Temos que criar uma sociedade que seja o reflexo disso que estamos fazendo nessa mesa hoje, partilhando o pão e o vinho entre todos nós. Todos devem ter o acesso à mesa da vida”, disse. Segundo o teólogo católico, no Natal é preciso lembrar que mais importante do que dar presentes é se fazer presente na vida do outro, o que é bem mais difícil.
Frei Betto acrescentou que todo o sistema conspira para que entidades que buscam a justiça social se apaguem, porque incomodam, ao trazer consciência e olhar crítico sobre a sociedade. Para ela, mais importante do que comemorar os 13 anos do Viva Rio é se comprometer com os próximos 13 anos, para que a entidade se fortaleça, se torne cada vez mais uma referência na sociedade e continue prestando “esse trabalho magnífico” não só no Rio mas em todo o Brasil.
Como exemplos do serviço prestado pela ONG à sociedade, ele destacou o trabalho pelo fortalecimento na relação entre Igrejas e polícias, pela consciência da importância do desarmamento e pela criação “de uma sociedade em que ninguém tenha que morrer antes do tempo, principalmente os jovens”. “O desafio hoje é como manter a chama acesa”, disse.
De acordo com o teólogo, dados apontam a existência de 2 milhões e 300 mil jovens de 14 a 24 anos entre as cidades do Rio e São Paulo que não terminaram o ensino fundamental. “A maioria dos assassinados e dos assassinos estão nesse contingente. Isso mostra como a questão da violência urbana tem a ver com a estrutura da sociedade”, observou.
Frei Betto atribui à miséria, à exclusão e à falta de educação a razão da violência e da criminalidade no Brasil. “É uma vergonha as crianças passarem apenas quatro horas na escola pública – e quando passam. Em qualquer país vizinho da América Latina as crianças ficam oito horas na escola. É por isso que hoje a gente chega numa capital como Lima ou Santiago, senta num bar na calçada e não é abordado por nenhuma criança. Esses países fizeram uma revolução da educação e reduziram drasticamente a violência e a criminalidade, por causa de uma educação de qualidade. Temos que lutar para atingir as causas da questão social”, concluiu.
A Ialorixá Mãe Beata, membro do movimento que deu origem ao Viva Rio, disse que os governantes deveriam pensar mais no ser humano, e não só neles mesmos, principalmente na época das eleições. Para ela, é preciso fomentar mais a cultura e a educação, para que o ser humano possa ser um cidadão de fato. “Só assim nós poderemos ter um país mais igualitário, que olhe para a juventude e não a encare como um problema isolado”, afirmou.
A cerimônia ecumênica também contou com a presença do reverendo André Mello, da Igreja Presbiteriana de Copacabana, e de diversos fundadores, funcionários e simpatizantes da ONG carioca.








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