Exilados em seu próprio território

meninos_exilados3_peq.jpgEntre diferentes facções do tráfico de drogas e milícias armadas, eles: meninos e meninas exilados em seu próprio território.

O Comunidade Segura conversou com seis jovens do Rio de Janeiro, entre 14 e 19 anos, que não circulam no bairro vizinho e têm linhas de segurança imaginárias - e muitas vezes reais - que não podem ser cruzadas sob pena de morte. Em um momento, ‘vapores’, ‘olheiros’ e ‘aviões’ do tráfico, em outro, estudantes da escola situada em território da facção rival, eles se equilibram entre carências de lazer, trabalho, educação, afeto e o quase insustentável instinto de sobrevivência.

O fenômeno não é novo: quando uma facção criminosa ocupa o território de outra, os que sobrevivem à batalha e seus familiares inevitavelmente são expulsos do lugar onde moram pela força bruta do novo grupo ou pelo medo de sofrer conseqüências da guerra travada pelo domínio daquela área.

Presença de milícias intensifica o êxodo

Segundo fontes ligadas a comunidades, há cerca de dois anos o êxodo interno foi intensificado pelas primeiras ações das milícias. Com atuação semelhante à do tráfico de drogas, elas matam ou expulsam membros de facções criminosas, adolescentes inclusive, como os que falaram para esta reportagem.

Alguns moradores, como a mãe de Lídia*, 19 anos, acreditam que em algumas partes do território ocupado pelas milícias a comunidade está em paz. “Ela diz que não vê mais ninguém com armas, ninguém fumando nas ruas”, conta a moça. “Mas em outros lugares a violência está maior.” Lídia mora com familiares e só vê a mãe quando ela vem visitá-la. “Se eu for lá, morro”, diz a moça com convicção. Atualmente, Lídia tenta abandonar suas atividades no tráfico de drogas. “Mas ainda apareço de vez em quando na ‘boca’ para conversar com os outros meninos”, confessa.

Bruno* contesta a suposta tranqüilidade com a firmeza de quem conheceu de perto a ‘parte violenta’ da mesma comunidade onde mora a mãe de Lídia. “Eles chegam de preto e agem que nem os bandidos”, conta o jovem de 17 anos, que há uma semana teve de deixar o lugar onde foi criado e onde atuava junto ao tráfico de drogas. Ele, assim como outros com quem divide as angústias de não ter fonte de renda, família por perto ou garantia de vida, fala pouco sobre o futuro. “Não penso em como vai ser quando eu voltar pra lá, mas tenho vontade. Estou longe de todos os meus amigos e da minha família”, lamenta.

 

Luiz*, 17 anos, fala pouco, mas presta atenção em tudo. Para ele, é impensável sequer cumprimentar os integrantes das milícias. “Nunca! Se algum dia eu falasse com eles, mesmo um bom dia, era arriscado apanhar, no mínimo”, afirma. Os jovens, apesar do pouco conhecimento formal adquirido na escola, avaliam com clareza que uma pretensa força de segurança não deveria agir da mesma maneira que eles próprios agem em situações extremas, como nas guerras entre facções.

As rivalidades entre os comandos do tráfico, que redefinem a geografia de favelas cariocas, são muitas vezes motivo de piada para esses adolescentes, que como quaisquer outros, gostam de rir, jogar futebol, namorar e conversar com amigos. Eles se acusam de terem nascido em território inimigo em tom desconstraído. A implicância é ouvida com alguma contrariedade, apesar da inocência contida nela.

Vitor*, 14 anos, recebe o comentário com cautela. Segundo ele, até cerca de cinco anos atrás, quando teve que se mudar do lugar onde nasceu, a paz reinava. “Éramos todos amigos. Agora ‘tomaram’ lá e eu nem freqüento mais a comunidade onde nasci”, se defende com expressão contraída diante do sorriso maroto dos companheiros.

Ação do tráfico impede jovens de freqüentar escolas

O caçula do grupo sorri quando vislumbra a possibilidade de voltar a estudar e recebe a informação de que parcerias estabelecidas com organizações que atuam na favela onde mora têm auxiliado jovens da comunidade a entrar em universidades. “Eu tenho 14 anos e estudei até a quarta série. Você acha que eu estou velho para voltar a estudar?”, indaga.

O assunto desperta em todos os jovens a mesma curiosidade. Marcos*, 16 anos, concluiu a quinta série e parou de estudar também, mas procura ouvir um sim quando pergunta: “E eu? Se eu voltar a estudar, você acha que aos 20 eu consigo entrar para a faculdade?”

Lídia estudou até o primeiro ano do segundo grau. “Eu gostava de estudar, mas ficou impossível no dia que a professora pediu para irmos de branco para o colégio e eu fui a única que atendeu”, justificou. Os outros colegas de Lídia ignoraram o apelo da professora e se vestiram de vermelho, cor do comando que dominava a região da escola, rival da facção com domínio sobre o bairro da jovem.

Lídia também já teve um emprego. Ela e o amigo Leonardo*, hoje em dia colegas em outro trabalho, o de dar apoio a atividades do tráfico local, falam do tempo em que ganhavam R$ 20 por dia quando trabalhavam em transporte de cargas pesadas. “Era bom, não é? Chegávamos em casa no fim do dia e íamos dormir logo de tão cansados”. Leonardo concorda que a vida era melhor. “Não tinha tempo para ficar na boca-de-fumo, era mais tranqüilo.”

Todos foram unânimes sobre o motivo que os levou a entrar no tráfico de drogas: “falta do que fazer”. Quando estudar ficou difícil, seja pela influência das cores do tráfico nos bancos escolares ou pela falta de estímulo; quando o trabalho ficou tedioso demais para quem ainda está no início da vida e mais preocupado com a diversão; quando as crises familiares e a perda de entes queridos deixaram marcas profundas, a busca pela adrenalina acabou por fertilizar o terreno onde nasce o ódio ao próximo, ainda que este não tenha rosto, contanto que defenda uma facção inimiga.

Quando perguntados sobre como se sentem diante da impossibilidade de circular em todas as áreas da cidade ou até mesmo na comunidade vizinha, situada no mesmo bairro, os jovens refletem por alguns segundos, enquanto Lídia responde em um misto de aceitação e desconfiança. “Eu já me acostumei. Esquisito se acostumar com isso, não acha?”

*Os nomes dos jovens foram alterados com o objetivo de preservar sua identidade. O artigo 143 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) veda a publicidade a crianças e adolescentes a que se atribua a autoria de atos infracionais, bem como a divulgação de notícia com fotografia, nome, apelido, filiação, parentesco e residência de criança ou adolescente.

Saiba mais:

O Rio entre traficantes e milícias

Jovens no tráfico: alta rotatividade e baixos salários

Na Biblioteca Virtual:

Crianças do tráfico - Um estudo de caso de crianças em violência armada organizada no Rio de Janeiro

Comentários

Diante de todas segregacoes

Diante de todas segregacoes sociais que essa juventude pouco assistida é exposta, existe ainda essa que é dentro do seu microcosmo, a falta de uma politica educacional para propiciar a inserção desses jovens faz com que eles sejam emitidos para um meio pouco desejavel e atencioso, nao so no rio de janeiro como em boa parte do brasil existe esse desapego com a juventude dos bairros mais carentes, a luta deve ser por melhorias e assistência para que eles possam ter condicões de lutarem por caminhos menos tortuosos. A matéria esclarece bem o pensamento dos jovens e deixa claro a situacao de muitos que não são abraçados pelos cuidados sociais

Enviar novo comentário

O conteúdo deste campo é mantido privado e não será publicado.
CAPTCHA
Isso serve para verificar se você é um visitante de verdade e não um robô, evitando, assim, o envio automático de spam.
Image CAPTCHA
Copy the characters (respecting upper/lower case) from the image.