Um assunto de saúde pública. É assim que Hugo Acero, ex-subsecretário de Segurança de Bogotá, Colômbia, classifica o problema das drogas. Ele defende uma discussão sobre a legalização das drogas em nível mundial e destaca a necessidade de se fazer uma avaliação da guerra contra as drogas para que se possa estabelecer prioridades e atacar o problema de maneira eficaz:
“Nenhum estudo mostrou que as políticas atuais diminuíram a demanda ou a oferta. Pelo contrário. Por isso temos que avaliar o quanto estamos investindo na repressão e o quanto estamos deixando de lado o tema da prevenção, porque esse é um assunto de saúde pública”, afirma.
Acero participou do Curso de Liderança para o Desenvolvimento Institucional Policial, promovido pela ONG Viva Rio e parceiros, entre 6 e 10 de novembro, no Rio de Janeiro, Brasil, e falou com exclusividade ao Comunidade Segura sobre drogas, “um problema que afeta todo o continente, do Alasca à Patagônia”.
Por que o senhor afirma que a guerra contra as drogas é uma guerra perdida?
Pelos resultados. Há alguns anos falávamos da movimentação de centenas de quilos (de drogas) dos países produtores até os países consumidores. Hoje, falamos de toneladas. O número de consumidores aumentou dramaticamente na Europa, Estados Unidos e, o que é pior para nós, como países produtores, é que o consumo interno também vem aumentando. A questão é que temos feito uma guerra contra as drogas e, mesmo assim, crescem cada vez mais as áreas cultivadas e os consumidores.
E a situação na Colômbia?
Acho que a Colômbia vem fazendo o esforço que é possível e talvez seja o país que mais sofre e isto se reflete na violência e no consumo interno. De alguma forma tem sido feita uma guerra contra as drogas. A Colômbia não pode ser a culpada, é uma vítima que tem cumprido suas obrigações. No entanto, é muito pouco o que se está fazendo para combater o consumo interno e reprimir os mercados internos e externos.
Na sua opinião, o que deveria ser feito?
Temos que iniciar uma discussão de abordagem internacional. Devemos avaliar os resultados da guerra contra as drogas nos últimos anos e buscar alternativas. E, porque não, discutir a legalização em nível mundial.
Na Colômbia se discute o tema da legalização?
A imprensa vem publicando editoriais mencionando a possibilidade de se discutir a legalização, assim como alguns economistas, acadêmicos e colunistas nos Estados Unidos e na Europa. Acredito que existe cada vez mais disposição para discutir e pleitear a possibilidade da legalização da droga.
O senhor acredita que se tem avançado no tema?
É uma discussão para poucos. Ainda não é um tema aberto. E deve ser discutido em nível internacional. Nenhum país pode legalizar de forma unilateral. Alguns países da Europa têm feito isso mas com determindas drogas como a maconha. Tem que ser uma discussão que leve os países a discutir o que foi feito até agora, o que deve se continuar fazendo e o que se deve fazer a partir de agora. Acredito que esse é apenas o início de uma discussão que vai acontecer nos próximos anos.
Qual é a sua posição?
Para mim é uma questão de cifras. Quantos consumidores existiam nos Estados Unidos nos anos 80 e quantos existem hoje? O que está acontecendo com a saúde pública e o consumo nos Estados Unidos, na Europa e em nossos países? Quanto estamos investindo na guerra contra a droga e quanto estamos destinando para a prevenção do consumo? E no meio disso tudo, ainda temos que avaliar que nossos países são cada vez mais consumidores. Hoje, o problema da droga está em todo o continente, desde o Alasca até a Patagônia.
O senhor acredita que não existe mais diferença entre os países consumidores e os produtores?
Claro que existe, mas hoje nada garante que o problema da droga está extinto. Todos os países sofrem com este problema. Acho que temos que avaliar tudo isto para estabelecer prioridades em como lidar com este fenômeno.
Quais seriam as prioridades?
Acho que enquanto os esquemas repressivos permanecerem nada vai mudar. Nenhum estudo mostrou que as políticas atuais estejam diminuindo a demanda ou a oferta. Pelo contrário. Por isso temos que avaliar o quanto estamos investindo na repressão e o quando estamos deixando de lado o tema da prevenção, porque este é um problema de saúde pública.
Muita gente alega que a droga gera violência e que sua comercialização está intimamente ligada com o tráfico de armas. Como o senhor enxerga este vínculo?
A droga gera tanta violência porque é ilegal. A mesma coisa acontece com as armas. São mercados ilegais que se cruzam. Se exporta a droga e se recebe armas como moeda de troca criando exércitos ilegais que precisam se armar. As armas continuam aumentando nos nossos países à medida que vai crescendo o consumo e a comercialização da droga.
Como o senhor trata o tema da legalização na sua vida pessoal? O senhor tem filhos?
Tenho dois filos, um de 14 anos e outro de 25. Primeiro, se a droga fosse legal, meus filhos poderiam ter acesso a uma droga menos nociva. Segundo, não existe nenhum pai ou mãe no mundo que não tenha visto o primeiro pileque do seu filho. Como a bebida é legal, o jovem não o faz escondido. Nos damos conta imediatamente e temos a oportunidade de dizer: “tudo bem, mas por favor, tome cuidado”. É algo que podemos controlar. Por outro lado, a maioria dos pais só percebe que seus filhos consomem droga quando eles já estão viciados. Por quê? Porque os jovens o fazem de maneira clandestina. Os últimos a saber o que está acontecendo são os pais. E isso é igual no mundo inteiro.
Então o senhor é a favor da legalização?
Em parte eu proponho a legalização porque isso permitiria um maior controle social. Proponho que se legalize porque teríamos menos violência e a Colômbia sofreria menos. Os jovens que trabalham no mercado da droga se matam pelo trabalho e não porque consomem. Se matam pela manipulação da droga. A ilegalidade também aumenta os lucros. É o que acontece no Rio de Janeiro, por exemplo. O fato de ser ilegal é o que gera violência, é o que faz as pessoas se matarem em todo o mundo.








Comentários
Legalização de drogas
Não uso e nunca usei drogas ilÃcitas. Sou a favor da legalização urgente com criação de taxas que vão inexoravelmente para fundos de amparo à pesquisa e rehabilitação do usuário, e à propaganda esclarecedora das conseqüências do uso. Ã? muito óbvia a conta absurda em têrmos de vidas humanas que pagamos pela proibição, onde quem opta pelo não uso está vulnerável à guerrilha que abastece os usuários. O estado e as instituições não têm e não terão nunca poder de fogo contra o tráfico, e o cidadão está, indefeso, no meio desse tiroteio de gananciosos.
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