Só um emprego pode deter uma bala
Em 1992, quando Los Angeles era considerada a capital das gangues nos EUA, o padre jesuíta Greg Boyle criou organizações comunitárias de encaminhamento de jovens ao mercado de trabalho. Com o lema “Só um emprego pode deter uma bala”, as Homeboys Industries, no bairro de Boyle Heights, surgiram com o objetivo de conter a violência relacionada a gangues.
Para o senhor, o problema da violência armada juvenil ou a questão das gangues chegou ao seu ápice ou ainda cresce? Em que grau ele é preocupante?
Algumas pessoas podem dizer que o quadro fica cada vez pior, mas não aqui em Los Angeles. Aqui a violência relacionada a gangues caiu. Em 1992, chegamos ao pico de mil relatos de homicídios decorridos da existência delas, em 2005 esse número caiu para 460.
LA era a capital mundial das gangues e as coisas foram mudando por conta de um foco mais compreensivo na aproximação com esses grupos. Um foco que não envolvia apenas a polícia, mas também programas de complemento ao horário escolar, educação comunitária, de lideranças religiosas e comércio comunitário, por exemplo.
As Homeboy Industries são resultado de uma experiência acumulada em anos de dedicação a jovens em situação de risco. Há quanto tempo o senhor trabalha com o tema?
Há 20 anos trabalho com isso. Fui pastor da paróquia mais pobre da cidade (a Dolores Mission Church), onde havia oito gangues, quatro delas em guerra com as outras quatro. Foi lá onde iniciei meu trabalho com esses grupos. Eu ia aos conjuntos habitacionais para conhecer pessoalmente os membros da comunidade.
As Homeboy Industries recebem alguma ajuda governamental?
Nossos investimentos vêm principalmente de empresas privadas, de indivíduos e de fundações. O auxílio do governo não é nosso principal foco, mas eu costumo dizer que se a comunidade dá o primeiro passo, o governo se engaja.
Um dos problemas de jovens em situação de risco ou envolvidos com grupos armados é sua disposição para viver o presente sem pensar no futuro. O senhor acredita que isso seja um obstáculo para o trabalho com eles?
Essa é a mais pura verdade, o nosso maior desafio. Em essência, como é possível incutir esperança nesses jovens? Com emprego, com a presença de um adulto atencioso, com amor. Possuir um trabalho é algo que faz uma pessoa acordar pela manhã e o nosso trabalho é tentar, de diversas maneiras, suprir esse senso de esperança nas comunidades afetadas pelo problema das gangues.
As Homeboy Industries funcionam como uma ponte entre jovens envolvidos com violência armada organizada e o mercado de trabalho. Como isso funciona?
Nas Homeboy Industries nós ajudamos os jovens a conseguir empregos, por exemplo, buscando e auxiliando grupos de empregadores com vontade de oferecer aos jovens uma oportunidade. Nós ajudamos os jovens a desenvolver sua capacidade de organizar as próprias finanças. Para nós, foi um processo rápido, com resultados imediatos. Desde seu início, as HI ajudaram a criar atividades comerciais locais, como padarias, confecção de camisetas e jardinagem, por exemplo. Nós subsidiamos empresas da comunidade na esperança de que elas cresçam, dêem lucros e passem a nos subsidiar também.
Que tipo de dificuldades os jovens com passado em gangues encontram para conseguir um emprego?
Ex-membros de gangue têm dificuldades para ajustar-se ao mercado de trabalho. Em alguns casos, eles não possuem experiência alguma, precisam aprender a se portar em entrevistas de emprego, como reagir em situações de estresse no trabalho. É provável que precisem trabalhar que costumavam ser seus inimigos. Talvez alguns tenham acabado de sair da prisão, o que torna as coisas ainda mais difíceis. Nosso trabalho é oferecer aconselhamento e buscar apoio na comunidade para ajuda-lo nesse processo de transição.
Qual é a importância do serviço de remoção de tatuagens?
Temos uma política de remoção de tatuagens a laser e nossa lista de espera é enorme. Costumamos dar preferência àqueles que precisam remover tatuagens visíveis por conta de propostas de emprego. O fato de nosso serviço ser gratuito, de não perguntarmos nada e de não esperarmos nada em troca, como prestação de trabalhos comunitários, por exemplo, faz com que sejamos muito procurados, mesmo que o processo seja lento e doloroso.
Como o senhor vê a possibilidade de legalização das gangues através de sua transformação em clubes ou associações esportivas, por exemplo?
Esta é uma idéia terrível. Nós não trabalhamos com gangues, trabalhamos com seus membros, algo que ninguém faria. Toda gangue tem como princípio a existência de um inimigo. Quando não há um, a existência da gangue, ainda que como entidade, não faz sentido. Você pensaria em oficializar a Ku Klux Klan depois de tantos danos que ela causou, tanto sofrimento. A única maneira aceitável de lidar com as gangues é não legitimar a sua existência. Qualquer outra atitude seria mais danosa que benéfica.
As HI são descritas como o resgate das perspectivas de futuro de membros de gangues. O senhor diria que sua essência é salvar jovens da violência armada organizada?
Não. É importante reconhecer o jovem como protagonista de sua vida. Nós trabalhamos em parceria com eles, mas não somos seus salvadores no sentido literal da palavra.
Quais seriam suas considerações a respeito da visibilidade cada vez maior da violência juvenil no mundo?
A violência relacionada a gangues é sempre um indicador, um sintoma de algo que está além dela. Estamos lidando com pobreza, com desespero, com famílias desestruturadas. Temos que ver além do óbvio e entender suas causas.
Traduzido por Aline Gatto Boueri
Em outros sites:
Em entrevista concedida à rádio Fresh Air (2004) Padre Boyle falou a respeito de seu trabalho e de sua visão sobre a religião e a paz. (em inglês)








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